Uma pesquisa internacional que ouviu mais de 58 mil adolescentes em 21 países identificou um fator até então pouco explorado no debate sobre violência juvenil: o tempo livre sem supervisão de adultos e sem atividades com propósito educativo, esportivo ou cultural. Segundo o levantamento, publicado em maio na revista científica PLOS One, esse tipo de tempo livre, quando o jovem fica por conta própria, sem rotina definida, tem forte relação com a participação em atos infracionais e episódios de violência.
O trabalho integra o International Self-Report Delinquency Study (ISRD), rede de pesquisadores que, há mais de três décadas, aplica questionários anônimos a adolescentes para mapear tanto a prática de delitos quanto a condição de vítima de violência.
À frente da equipe brasileira está a psicóloga Marina Rezende Bazon, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP). Para ela, esse tempo desestruturado ajuda a explicar por que alguns jovens se envolvem mais em situações de risco: trata-se do período em que o adolescente decide sozinho o que fazer, muitas vezes circulando sem destino em contextos onde as chances de contato com atividades ilícitas são maiores.
Tempo livre desestruturado
O estudo diferenciou duas situações: o tempo passado dentro de casa, geralmente ligado ao uso da internet sem acompanhamento; e o tempo passado fora do ambiente doméstico, em ruas e espaços públicos, também sem monitoramento.
Ainda que o principal fator associado a delitos continue sendo a convivência com colegas que também cometem infrações, o tempo livre desestruturado surgiu logo depois como uma variável relevante, e essa relação se repetiu em todos os países analisados. Bazon chama atenção para o efeito somado dessas duas condições: a combinação entre grupos de pares infratores e ausência de estrutura no tempo livre é particularmente preocupante.
A quarta edição do ISRD reuniu dados entre janeiro de 2021 e maio de 2024. No Brasil, a coleta ocorreu em Ribeirão Preto e Sertãozinho, no interior de São Paulo, com cerca de 1,9 mil estudantes de 13 a 17 anos, de escolas públicas e privadas, seguindo um protocolo padronizado internacionalmente.
Os adolescentes responderam a questionários anônimos em tablets, usando a técnica da “delinquência autorrevelada”, perguntas indiretas sobre comportamentos específicos, como ter furtado algo de um estabelecimento, em vez de perguntar diretamente se o jovem já cometeu um crime.
Segundo Bazon, esse método tende a gerar respostas mais sinceras justamente por garantir o anonimato, revelando dinâmicas que as estatísticas oficiais não captam, já que estas refletem mais a atuação dos órgãos de controle do que a real extensão da violência entre jovens.
A pesquisa também investigou episódios de vitimização, perguntando aos participantes se já haviam sofrido ofensas ligadas a cor da pele, religião, orientação sexual ou aparência, tanto pessoalmente quanto pela internet.
Meninas
Um dos achados que mais chamou atenção foi o aumento da participação de meninas em condutas ofensivas on-line, sobretudo ataques relacionados à aparência física de outras pessoas. Bazon associa essa mudança à forma como a supervisão familiar se organiza: historicamente mais rígida com as meninas no mundo físico, essa vigilância se equilibra menos no ambiente digital.
As pesquisadoras também notaram que meninas aparecem mais entre os casos de sobreposição entre vítima e agressora: jovens que ao mesmo tempo sofrem e praticam violência. Esse grupo específico costuma apresentar quadros mais graves de sofrimento psicológico, conflitos familiares e dificuldades na escola.
Evasão escolar
Como a pesquisa foi feita com estudantes matriculados, os autores reconhecem que adolescentes em situação de maior vulnerabilidade — fora da escola ou em unidades socioeducativas — não foram incluídos, o que sugere que os números podem estar subestimando o problema entre os jovens mais expostos a risco.
Bazon reforça que a evasão escolar prolongada é hoje um dos principais indicadores de vulnerabilidade, com casos de adolescentes que passam anos afastados da escola sem que a rede de proteção atue de forma efetiva para reintegrá-los.
A pesquisadora também destaca que a delinquência autorrevelada aparece em todas as classes sociais, e não apenas entre os mais pobres. O que muda é a intensidade da vigilância policial e institucional, que recai desproporcionalmente sobre esse grupo.
Estresse tóxico
O ISRD já prepara sua quinta onda de pesquisas, que deve aprofundar temas como misoginia, crimes de ódio on-line e experiências adversas na infância — abuso, negligência, violência doméstica e convivência com adultos com dependência química ou transtornos mentais. Esse conjunto de vivências está ligado ao que os pesquisadores chamam de “estresse tóxico”, associado depois a problemas de saúde mental, dificuldades escolares e reincidência infracional.
No entanto, vale ressaltar que os dados reforçam a importância de investir em programas comunitários de lazer, esporte e cultura capazes de atrair os jovens, absorvendo parte do tempo livre com atividades estruturadas e supervisionadas.
De acordo com o estudo, uma redução de 20% no tempo livre desestruturado fora de casa esteve associada, em média, a quedas de 9,6% na prevalência de delitos e 7,4% na incidência de delitos na amostra total.
Isso não significa, porém, que a relação seja puramente linear. Bazon pondera que o efeito dessas políticas depende da qualidade das alternativas oferecidas e das condições sociais que estruturam o cotidiano dos adolescentes. No caso do tempo livre on-line, o desafio é ainda mais complexo: a exposição prolongada à internet sem mediação pode aumentar o contato com conteúdos e grupos de risco, mas também representa uma forma legítima de sociabilidade juvenil contemporânea. Por isso, a pesquisadora defende políticas de educação digital, proteção on-line e maior responsabilização das plataformas, além do apoio a famílias para o acompanhamento do uso da internet pelos filhos.
No fim, o estudo sugere que o desafio não é simplesmente preencher o tempo dos jovens, mas garantir que esse tempo seja vivido em contextos que favoreçam desenvolvimento, senso de pertencimento e participação social.
*Com informações da Agência Fapesp.
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