PIX, liquidez e concentração bancária após a pandemia, por Gabriel Galípolo e Marcello Negro

A possibilidade de realizar transferências 24×7 trouxe o risco de indisponibilidade de recursos nos dias e horários de não funcionamento do sistema financeiro.

PIX, liquidez e concentração bancária após a pandemia

por Gabriel Galípolo e Marcello Negro

O advento do PIX, sistema de pagamento instantâneo criado pelo Banco Central (BC) que permite a transferência de recursos entre contas em poucos segundos, a qualquer hora ou dia, pode se revelar em pressão de liquidez e caixa, especialmente para os bancos médios, após a pandemia.

A possibilidade de realizar transferências 24×7 trouxe o risco de indisponibilidade de recursos nos dias e horários de não funcionamento do sistema financeiro. Os Bancos podem ter de deixar liquidez excedente, sem remuneração, nos períodos de não funcionamento do mercado para enfrentar esta demanda ainda desconhecida, dado a anormalidade do período pandêmico.

O PIX foi lançado oficialmente no dia 5 de outubro de 2020, com início de funcionamento integral em 16 de novembro de 2020. A demanda pelo sistema de pagamentos, portanto, ainda não foi verificada em um período sem restrições de circulação e funcionamento de estabelecimentos, particularmente a motivada pelo consumo de bens e serviços após as 18h e aos finais de semana.

Sábado à noite o cliente do Banco A vai ao restaurante que tem sua conta no Banco B.  O cliente decide pagar via PIX, que checa automaticamente a disponibilidade de recursos e faz a transferência da conta de seu banco para a conta e banco do restaurante. Imbuído da certeza que tem dinheiro em sua conta, o cliente não está preocupado. Mas o dinheiro não está parado na conta do banco, está provavelmente aplicado em algum título público ou até dado em crédito.

Se essa pressão por liquidez acontecer em um dia e horário normal de funcionamento do mercado, a instituição financeira pode, por exemplo, recorrer ao mercado interbancário e levantar os recursos necessários rapidamente. Frente um grande volume de transações no final de semana, sem funcionamento do mercado, se o banco não tiver liquidez disponível, o cliente não conseguirá pagar, ainda que “tenha dinheiro na conta”. O problema pode unir bancos em torno da proposta dos depósitos remunerados no Banco Central.

O principal instrumento de política monetária no Brasil se dá pela atuação diária do Banco Central, por meio de operações de mercado aberto – comprando e vendendo títulos públicos federais – para estabelecer a taxa básica de juros (Selic) no patamar definido pelo Copom. As atuações realizadas pelo BC para fazer com que a taxa de remuneração conhecida como overnight convirja para a taxa Selic são denominadas como operações compromissadas.

A operação compromissada é uma forma de empréstimo de curto prazo lastreado em títulos do governo. Pode ser realizada entre agentes privados, mas no caso em questão, o BC toma dinheiro, com o intuito de reduzir a liquidez no sistema financeiro, vendendo um título público, por acordo entre as duas partes que será comprado de volta, remunerado por taxa equivalente à Selic para o período. O dinheiro dado em operações compromissadas está indisponível, pois está alocado em títulos públicos.

Na alternativa do depósito remunerado, prática usada pelos maiores bancos centrais do mundo, entre eles o Federal Reserve americano e o Banco Central Europeu, a liquidez é depositada no Banco Central recebendo a mesma remuneração, mas sem a necessidade de emissão de títulos que impactam a dívida mobiliária pública. Atualmente as operações compromissadas respondem por 30% da dívida pública. A solução poderia, simultaneamente eliminar o custo de oportunidade do dinheiro parado nos bancos, sem remuneração, para fazer frente às possíveis obrigações no final de semana pela demanda do PIX.

A potencial restrição de liquidez só constrange transferências de um banco para outro. Quando realizada entre clientes de um mesmo banco, a operação pode ser creditada/debitada e devidamente liquidada no futuro. A operação pode gerar vantagem competitiva aos grandes bancos. A concentração bancária é um dos principais problemas do mercado financeiro brasileiro. Os cinco maiores bancos concentraram mais de 80% dos empréstimos e depósitos em todo o país.

Novos entrantes no mercado financeiro surgiram e cresceram graças às possibilidades de acesso remoto e virtual, pelo avanço nas redes de comunicação, transmissão de dados e dispositivos eletrônicos que reduziram significativamente os custos. Passou a ser possível o acesso a clientes sem agências físicas espalhadas por todo o país e menor número de funcionários, proporcionando maior escalabilidade pelo autoatendimento, padronizado e automatizado.

Este é um padrão de arranjo operacional adotado por empresas que se destacaram no mercado financeiro nos últimos anos. A revolução consolidada nos serviços oferecidos a investidores ainda precisa avançar na concessão de crédito. A autoridade monetária brasileira priorizou esta agenda, como registra o BC+. Melhorar a experiência para os clientes e reduzir spreads dependem do aumento da competitividade das mais de cem instituições financeiras que detêm hoje menos de 20% do mercado e de novos entrantes.

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