4 de junho de 2026

A hiperinflação do Estadão

O Estadão tem dois ótimos colunistas econômicos, Celso Ming e José Paulo Kupfer; dois editorialistas econômicos de peso, Rolf Kunt e Marco Antonio Rocha. E, em geral, uma cobertura sóbria dos temas econômicos.

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Por tudo isso, é incompreensível a primeira página de hoje. Nem se diga o “furo” de que a inflação foi maior para as classes de menor renda – consumidores de menor renda gastam um percentual maior da renda com alimentos, logo é óbvio que sejam os mais afetados por uma inflação de alimentos.

O que causou pasmo foi a chamada, na nobílissima primeira página do jornal, de que “os consumidores já adotam táticas da época da hiperinflação (…) como substituir marcas e produtos”.

De onde tirou isso? A própria chamada menciona inflação de 6,5% ao ano e diz que, com a redução da pressão dos alimentos, a tendência é de queda!

Substituir marcas e produtos é comportamento típico de economias estabilizadas, nas quais os preços das diversas marcas se estabilizam em seus respectivos níveis. Tanto assim que a própria metodologia de cálculo da inflação prevê o efeito-substituição.

Além disso, esse movimento dos consumidores é extremamente salutar para segurar altas. Onde há troca de marcas e produtos, há competição e, com ela, limites às altas de preços.

Nunca houve hiperinflação no país. Ela se caracteriza por mudanças diárias nos preços, até horárias, como foi o caso das hiperinflações na Alemanha e em Israel.

Na superinflação brasileira, quando os índices iam de 7% a 12% AO MÊS, não se recorria à troca de marcas nem de produtos, pela simples razão de que não havia estabilidade nos preços no decorrer do mês. Um mesmo produto podia ter preços diferentes em cada supermercado, dependendo apenas do tempo transcorrido da última remarcação.

Se um supermercado demorava uma semana a mais para reajustar os preços, já havia defasagem em relação ao supermercado concorrente. No período mais pesado, antes dos códigos de barra, havia remarcação diária. O que as donas de casa faziam na época – conforme inúmeras matérias do Jornal da Tarde – era troca de informações sobre qual o supermercado que, naquele momento, estava vendendo mais barato determinados produtos.

O que causa pasmo, na nota, é o tiro no pé. Esse tipo de alarmismo, quando disseminado, atrapalha os negócios, suspende planos de investimento e reduz a publicidade das empresas. Que o jornal coloque a notícia acima dos interesses de seus anunciantes, justifica-se nos casos em que o jornalismo se curva ao “senhor fato”. Mas qual a definição a se dar a uma atitude que atropela os próprios fatos em detrimentos dos interesses de anunciantes e do próprio veículo?

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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