10 de junho de 2026

A morte de Cláudio Bardella, um industrialista, por Luís Nassif

Uma das últimas lideranças industriais do país, Bardella ajudou a consolidar indústria de base brasileira no período pós-ditadura
Fachada da Indústrias Barella. Foto: Reprodução - Crédito: ARQUIVO Jornal Cruzeiro do Sul (25/1/2019)

A morte de Cláudio Bardella significa o fim de uma das últimas lideranças industriais pós-ditadura.

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O período de Ernesto Geisel, especialmente o I e II Plano Nacional de Desenvolvimento, permitiu a consolidação da indústria de base no país. 

Ainda nos estertores da ditadura, surgiu uma brava liderança democrática entre esses capitães-de-indústria. Foi o caso de Cláudio Bardella, Severo Gomes, entre outros.

Quando a ditadura terminou, o país tinha indústrias do porte da Máquinas Bardella, Cobrasma, do ex-presidente da FIESP Luiz Eduardo Vidigal, as Indústrias Romi, a Lorenzetti, ao lado de grandes multinacionais, perfeitamente integradas à economia brasileira.

A Indústrias Bardella foi fundada em 1911, e forneceu equipamentos para importantes projetos de infraestrutura, como as refinarias da Petrobras e as hidroelétricas de Santo Antônio e Jirau.

Assim como outras indústrias de base, a crise das Indústrias Bardella foi causada por uma combinação de fatores, incluindo a piora da economia brasileira, a redução de investimentos em infraestrutura e os efeitos da Operação Lava Jato. 

A empresa também foi afetada pela concorrência de empresas estrangeiras, que passaram a oferecer produtos e serviços mais competitivos, especialmente devido ao profundo processo de apreciação do câmbio, iniciado com o Plano Real e mantido nos governos FHC e Lula.

A empresa entrou em recuperação judicial em 2019.

À medida que o setor foi desmoronando, Bardella se recolheu. Sempre foi um líder influente, mas discreto. Sua participação política se dava no âmbito da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e das reuniões empresariais fechadas.

Nos últimos tempos, a Bardella começou a reconquistar alguns contratos.

Não se sabe qual o destino da indústria de transformação brasileira. Mas Cláudio Bardella não viveu para saber.

Por José Amaro Ramos

Atrás do mito da mão invisível do mercado, do mito do poder criativo da livre concorrência a verdade é que as grandes empresas modernas do Ocidente e do Oriente sâo fruto da soma de dois fatores:
-a vontade nacional no exercício de alcançar um status de Grandeza (como enunciou DeGaulle no aforisma “Ils sont grand parce que ils l’ont voulu devenir grand”, citado hoje num artigo de Bolivar Lamounier no Estadão)

A mão do Estado, incorporado do princípio acima, e gerando os meios para o desenvolvimento tecnológico que assegure essa grandeza…

E isso é feito sem que os arautos do capitalismo bursístico o percebam.

Na década de 60 os Estados Unidos deram dinheiro a jovens para que desenvolvessem tecnologias que gerariam meios para a primazia nacional: os ” meninos” que receberam fundos públicos para desenvolver softwares que vão gerar a Microsoft, a Google e a Apple.

Na Europa DeGaulle incentiva o Estado a botar dinheiro na Thales ( exThomson CSF), na Dassault ( dando pedidos vultosos ao Eng Marcel Dassault, desde o jatinho Paris aos modelos Mystere, Mirage e Rafale).

Aqui, fora a persistência de Montenegro e FAB com com Embraer, e o esforço de Álvaro Alberto e Othon Pinheiro (sempre perseguidos por misteriosas forças que o Estado brasileiro procurava não perceber e não contrar…) na Marinha nada mais teve continuidade. Empresas como Cobrasma, Mafersa, Bardella Boriello, ade Mathias Machline e tantas investiram e se viram desamparadas pelo mesmo Estado que os incentivou a se endividarem em busca da grandeza nacional. Getulio, JK e Geisel estabeleceram objetivos nacionais na busca dessa grandeza, para verem tais objetivos se esboroarem na mediocridade de Dutra, na pirotecnia vazia de Janio e nos esbulhos nacionais de Sarney, Collor e Temer.

Por João Furtado

Este obituário de Claudio Bardella é uma ocasião para pensarmos sobre a indústria brasileira e as suas políticas industriais. O II PND foi um desenho monumental e uma realização catastrófica. Ali ruíram as nossas esperanças de sermos um país de verdade, assente em uma indústria vigorosa e apta aos desafios que vieram logo em seguida, com o advento da microeletrônica. E a ruína não veio da concepção, a meu juízo consistente, mas da execução, desastrosa. Os atrasos sucessivos, os percalços entre a Fazenda (Simonsen) e o Planejamento (Reis Velloso), o esgarçamento das relações entre os entes estatais e destes com os diversos segmentos do setor privado foram fatores que fragilizaram a aposta contra o tempo que estava na base do II PND: aumentar a oferta doméstica de energia, substituir importações e promover novas exportações enquanto o crédito internacional era farto (e barato), evitando a dívida excessiva e a bola de neve dos encargos excessivos dessa dívida. Tivesse o II PND entregado em tempo as suas promessas e os anos 1980 poderiam ter sido diferentes, como também tudo o que veio depois. Talvez a transição para a era eletrônica pudesse ter contado com a presença efetiva de grupos e empresas nacionais a dar-lhe robustez e vigor. Talvez.

A política industrial que empurrou Bardella, Vidigal e Villares para uma expansão gigantesca deixou-os endividados e sem a demanda que fora prometida. Estavam entre os grupos escolhidos para a formação de um setor de bens de capital pujante e ancorado em capitais nacionais e terminaram envolvidos em uma CPI do Programa Nuclear. O deslocamento do eixo duráveis-multinacionais (do “Milagre”) para uma nova etapa lastreada em investimento, bens de capital e grupos nacionais, que era a essência mais delicada do II PND, foi sofrendo erosão e críticas de todos os lados, numa configuração de interesses que não foi de todo esclarecida, apesar de muitos trabalhos da Ciência Política dedicados ao período e à própria indústria.

O ressentimento do empresariado que havia estabelecido aliança com o projeto do II PND tem nesse episódio uma origem que depois se alastrou e intensificou. Logo em seguida houve recuos expressivos de vários outros grupos e a migração para os recursos naturais (agrícolas e minerais) foi se fortalecendo. Desde então, também, as relações entre os capitais industriais e as políticas para o seu desenvolvimento modificou-se e o oportunismo empresarial com relação ao estado aumentou, junto com o cinismo daqueles que dizem seguir orientações ou diretrizes e não o fazem. Se havia percalços importantes nos anos 1970, desde os anos 1980 as descontinuidades tornaram-se a regra. Qual investidor de longo prazo no sistema industrial pode confiar em diretrizes que se mostram sempre erráticas?

Esta reflexão, a propósito do industrial reconhecido como grande por seus pares e por todos aqueles que estudam a indústria brasileira, não tem o propósito da recordação e da reminiscência, para o elogio, mesmo que seja merecido. Talvez o que a memória de Bardella demanda, junto com as tantas manifestações que tem recebido merecidamente, é precisamente a renovação no Brasil dos compromissos que ele teve durante a sua vida com o desenvolvimento industrial.

A política industrial e os investimentos industriais associados, sobretudo quando envolvem algum grau de desenvolvimento tecnológico, não são plantios e colheitas anuais, são mudas delicadas que levam muitos anos para prosperarem, para serem árvores frondosas; e sem continuidade efetiva e garantida por todos não ensejam as ações voltadas para o futuro, mas apenas a busca oportunista de ganhos fáceis. Se queremos ter um país desenvolvido, temos que ter uma indústria desenvolvida de verdade. E para isso precisamos de um acordo mínimo sobre o papel das políticas e dos industriais. O horizonte temporal desse acordo é de 10 anos, pelo menos. Sem ele, vamos fazer de conta. Como fazemos há 40 anos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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  1. Jackson da Viola

    5 de novembro de 2023 2:23 pm

    Talvez um dia, o Brasil canse de perder oportunidades e resolva ser grande…sou da epoca dos “90 milhões em ação, pra frente Brasil”, “Eu te amo meu Brasil” e “Este É Um País Que Vai Pra Frente”…fomos pra frente? Em muitas coisas sim mas em muitas outras, parece que andamos para tras…O mundo esta em periodo de mudanças profundas…esperemos que o Brasil não desperdice mais esta oportunidade…Ninguem tem direito a errar, errar de novo e persistir no erro, o Brasil tem sorte de ser um pais continental “onde se plantando, tudo da” é rico em muitas coisas…O povo brasileiro tem que “cair na real” e entender que a riqueza deste pais é dele…simples assim.Espero estar vivo para ver essa tomada de conciencia mas na verdade as minhas esperanças não são muitas…

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