A política de austeridade do presidente argentino Javier Milei reduziu a inflação e ajudou a recuperar a atividade econômica, mas aprofundou a precariedade social e deixou milhões de trabalhadores sem perspectivas de emprego formal.
A avaliação é do historiador Jeremy Adelman, diretor do Global History Lab da Universidade de Cambridge, em análise publicada pelo Project Syndicate.
Quase três anos após assumir a Presidência, Milei consolidou-se como uma das principais referências da extrema direita internacional. Seu programa econômico, conhecido como Plano Motosserra, tornou-se inspiração para aliados políticos na região e recebeu elogios do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que considera o argentino seu presidente favorito.
O modelo também ganhou relevância geopolítica. Milei ocupa uma posição estratégica na iniciativa de Trump para ampliar a influência norte-americana na América Latina, região vista por Washington como fornecedora de recursos naturais e parceira para conter a presença de potências rivais.
A recuperação argentina, porém, esconde contradições. Segundo Adelman, o ajuste fiscal e a redução da inflação vieram acompanhados de cortes no setor público, deterioração das condições de trabalho e aumento da vulnerabilidade de famílias que recorrem ao endividamento para cobrir despesas básicas.
Austeridade derruba inflação e reduz o Estado
O Plano Motosserra foi concebido para combater a inflação e reduzir o peso do Estado na economia. Ao assumir o governo, Milei reduziu pela metade o número de ministérios, congelou obras públicas e promoveu demissões em massa no setor público.
De acordo com os números apresentados por Adelman, foram eliminados 51.218 postos de trabalho federais, além de outros 23 mil em empresas estatais. O governo também reduziu gastos sociais e ampliou incentivos fiscais para investidores privados.
A estratégia ajudou a transformar déficits fiscais crônicos em superávits e contribuiu para a desaceleração da inflação, que havia alcançado aproximadamente 250% e recuou para cerca de 30%, segundo o artigo.
O programa também favoreceu investimentos em setores como lítio, no norte argentino, e hidrocarbonetos, na Patagônia. Essas atividades reforçam a posição do país como exportador de matérias-primas, mas não necessariamente geram empregos em quantidade suficiente para absorver os trabalhadores deslocados pelo ajuste.
A retração dos investimentos públicos atingiu ainda a ciência. Adelman afirma que cortes orçamentários e reduções salariais levaram mais de 10% dos cientistas e técnicos do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet) a deixar a instituição em direção ao setor privado.
Informalidade e endividamento expõem o custo social
O custo do ajuste aparece especialmente no mercado de trabalho. Sem encontrar vagas formais, muitos argentinos recorrem a atividades informais, como comércio ambulante, entregas, transporte por aplicativo e trabalho doméstico.
Segundo os dados citados pelo autor, entre 40% e 50% da força de trabalho depende de ocupações precárias. Entre os jovens de 18 a 25 anos, quase 70% trabalham na informalidade, sem acesso regular a direitos trabalhistas, seguro-desemprego ou contribuições previdenciárias.
A situação também se reflete nos indicadores de pobreza. No início de 2026, a pobreza urbana chegou a 32,3%, enquanto mais de 7% da população enfrentava privação extrema, conforme os números apresentados na análise.
Outro sinal de fragilidade é o endividamento das famílias. Aplicativos financeiros, carteiras digitais, empréstimos emergenciais e cartões de crédito passaram a funcionar como instrumentos para complementar a renda insuficiente. O resultado, segundo Adelman, é o crescimento da inadimplência: quase seis milhões de argentinos estavam com pagamentos de dívidas atrasados havia pelo menos 90 dias.
A combinação entre renda baixa, trabalho precário e crédito caro ameaça comprometer a própria recuperação econômica. Embora a inflação menor represente uma mudança importante em relação à crise anterior, a estabilidade de preços não garante, por si só, melhoria duradoura nas condições de vida.
Modelo de Milei enfrenta teste eleitoral em 2027
Com as eleições presidenciais previstas para 2027, a sustentação política do programa dependerá também da capacidade de responder às dificuldades cotidianas da população.
Para Adelman, a estratégia econômica argentina enfrenta limites cada vez mais evidentes. A continuidade da desinflação exige novos cortes, mas o espaço para reduzir despesas diminui. Ao mesmo tempo, os setores exportadores que impulsionam o crescimento não criam empregos suficientes para compensar a retração do setor público.
O presidente argentino também enfrenta uma incerteza política: a possibilidade de contar novamente com apoio financeiro de Trump para conter turbulências cambiais. Em 2025, o governo norte-americano estendeu à Argentina uma linha de swap cambial de US$ 20 bilhões, em meio à pressão sobre a moeda argentina, antes das eleições legislativas. O apoio ajudou a estabilizar o cenário e antecedeu a vitória eleitoral do partido de Milei.
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