Por Marco Antonio L.
De The New York Times / O Povo
Paul Krugman
Questionário rápido: qual é a palavra de cinco letras, que é uma descrição de Chris Christie, o governador republicano de Nova Jersey, e que a palavra termina em “y”? A resposta óbvia, é claro, é “bully”. Mas, como revela um recente debate sobre o orçamento estadual, “phony” (um farsante) seria uma resposta igualmente válida. E o partido de Christie segue o mesmo caminho que ele próprio.
Até agora, o ataque dos farsantes fiscais vem sendo uma questão mais nacional do que estadual, tendo como grande exemplo Paul Ryan, o presidente do Comitê de Orçamento da Câmara. Como os leitores regulares desta coluna sabem, Ryan de alguma maneira adquiriu a fama de falcão fiscal intransigente, apesar de fazer propostas orçamentárias que, longe de focarem na redução do déficit, tratam principalmente de reduzir os impostos dos ricos e cortar a ajuda dada aos pobres e desafortunados. Na realidade, quando você retira os “asteriscos mágicos” de Ryan – as declarações de que ele, de algum modo, vai aumentar a receita e reduzir os gastos de maneiras que ele se nega a especificar -, o que resta são planos que, se implementados, elevariam a dívida federal, em vez de reduzi-la.
O mesmo pode ser dito de Mitt Romney, que afirma que vai equilibrar o orçamento, mas cujas propostas reais consistem principalmente em enormes reduções nos impostos (das grandes empresas e da riqueza, é claro), mais a promessa de não reduzir os gastos com a defesa.
Tanto Ryan como Romney, então, são falsos falcões do déficit. E a prova da falsidade não é apenas o fato da aritmética deles não dar certo – é o fato de que, apesar de toda a suposta preocupação profunda com o déficit do orçamento, essa preocupação não é o bastante para induzi-los a abrir mão de nada que eles e os patrocinadores financeiros dele querem.
Eles se dispõem a tirar comida da boca de crianças (literalmente, pelos cortes em programas cruciais de assistência nutricional), mas isso é positivo, do ponto de vista deles. Ryan diz que a rede de segurança social não deve “reduzir pessoas saudáveis e aptas a vidas de dependência e complacência”. Mas manter os impostos baixos sobre os lucros e os ganhos de capital, e, na realidade, a redução ainda maior desses impostos, são objetivos sacrossantos.
Ryan e Romney estão jogando para agradar a um público nacional. E os governadores republicanos, que precisam lidar com limitações orçamentárias reais, são diferentes? Bem, já foram feitas muitas afirmações quanto a isso; Christie, em particular, vem sendo amplamente citado, inclusive por ele mesmo, como exemplo de um político que está disposto a fazer escolhas difíceis.
Mas, na semana passada, pudemos vê-lo enfrentando uma escolha difícil de fato – e, deixando de lado o fato de ter gritado com muita gente, ele provou que é mais um farsante fiscal. Eis a história: há algum tempo, Christie vem alardeando o que afirma ser a “volta por cima de Nova Jersey”. Antes mesmo das explosões mais recentes dele, era difícil entender do que ele falava: sim, o estado dos subúrbios dos ‘novos ricos’ teve algumas melhoras no índice de emprego desde que Christie chegou ao poder, mas os avanços foram menores que os do país como um todo e os de Nova York e Connecticut, os pontos óbvios de comparação.
Mesmo assim, Christie afirma que Nova Jersey já iniciou o caminho de recuperação, e que isso cria espaço para (adivinhe!) reduções nos impostos que beneficiarão a riqueza de maneira desproporcional.
Na semana passada, a realidade chocou: David Rosen, o analista orçamentário estadual, independente e não ligado a partidos políticos, disse aos legisladores que as contas de Nova Jersey não batem; falta US$ 1,3 bilhão. Como o governador reagiu?
Primeiro, atacando o mensageiro. De acordo com Christie, Rosen – funcionário público veterano cujo escritório geralmente faz previsões orçamentárias mais precisas do que as do governo estadual – é “o Dr. Kevorkian dos números”. Que civilidade!
A propósito, mesmo os subordinados do governador estão prevendo um déficit de grandes proporções – apenas um pouco menor do que o previsto. E as duas grandes agências de classificação de crédito, Moody’s e Standard & Poor’s, lançaram recentemente avisos sobre a situação orçamentária de Nova Jersey, que a S&P descreveu como “estruturalmente desequilibrada” devido às suposições otimistas do governador com relação à receita.
Nova Jersey, portanto, está em uma forma fiscal muito má. E nosso governador de discurso intransigente está disposto a reconsiderar o corte de impostos que defende? Não mesmo. Em vez disso, ele quer cobrir a diferença com artifícios orçamentários diversos; dentre eles, renegar sobre a promessa de reduzir a contração de empréstimos para investimentos em transportes e desviar recursos de programas de energia limpa. É muito para a responsabilidade fiscal.
A explosão do temperamento de Christie em relação ao orçamento vai jogar cal sobre as especulações acerca da possível inclusão dele como vice de Romney? Não tenho ideia. Mas isso realmente não importa. Seja quem Romney escolher, ele ou ela vai concordar alegremente com as políticas de Robin Hood invertido, do tipo que acabam com o orçamento, que sabemos que estarão pela frente se o ex-governador vencer.
Isso ocorre porque a direita norte-americana moderna não se preocupa com o déficit nem nunca se preocupou. Aquela conversa toda sobre a dívida foi apenas desculpa para atacar o Medicare, o Medicaid, a Previdência Social e o auxílio-alimentação. Quanto a Chris Christie, bem, ele é mais um farsante fiscal, diferenciando-se apenas pela sua inclinação à invectiva.
Tradução: Daniela Nogueira
[email protected]
Paul Krugman – Professor de Economia da Universidade de Princeton é articulista do New York Times. Recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2008
Deixe um comentário