4 de junho de 2026

As razões da esquerda, por Marcelo Miterhof

Da Folha

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

As razões da esquerda

Marcelo Miterhof

Assisti no final de 2013 a uma apresentação de um economista heterodoxo em um centro de estudos liberal, numa ocasião incomum de debate econômico plural. Não cito nomes porque o evento foi restrito.

Um competente professor ortodoxo destacou que o baixo desemprego atual não é novidade nem surpreende. Como o mercado de trabalho brasileiro é muito flexível, essa é a regra. A exceção foi a década de 1990, graças à conjugação da abertura comercial ampla (e abrupta, acrescento) com baixo crescimento.

O objetivo era destacar que nos últimos 11 anos não houve um grande feito. Involuntariamente, porém, o comentário ilustrou um dos motivos do sucesso eleitoral do PT: a comparação com os anos 1990, época que em termos de emprego foi pior até que os 1980, a “década perdida”.

Vale explorar a ironia da situação.

O Brasil tem, sim, vivido algo novo. Não houve só queda do desemprego, mas distribuição de renda, elevação do salário mínimo e da formalização do trabalho. Ao contrário do que marcou a industrialização no século 20, a lógica foi distribuir para crescer, o que permitiu começar a eliminar o abismo social do país.

Contudo, deve-se dar certa razão ao referido professor. Além da desaceleração dos últimos três anos, tais mudanças ainda são limitadas. Por exemplo, o Bolsa Família, um dos símbolos do período, é uma iniciativa de origem liberal, que visava ser alternativa ao Estado de Bem-Estar Social: garanta uma renda mínima e deixe o mercado resolver o resto. O estrondoso sucesso do programa e a resistência que até hoje enfrenta em parte da elite brasileira são sintomas do atraso nacional.

Por isso, as colunas de 25/7 e 1º/8/2013 tentaram estabelecer diferenças e pontes entre crenças e pensamentos da esquerda e da direita. Hoje, o intuito é aprofundar as razões da esquerda, expor por que o avanço ocorrido é insuficiente.

O objetivo é ter uma sociedade mais igualitária. Os salários precisam crescer mais que os lucros e as rendas. Também precisa despencar o desnível de rendimentos entre trabalhadores braçais e com curso superior. Operários, prestadores de serviços, peões etc. precisam ganhar 40%, 50% ou 60% do que recebem médicos, engenheiros ou economistas, em vez dos atuais 5% ou 10%.

Se é desejável ter incentivos para quem produz conhecimentos ou traz inovações para a sociedade, também é certo que nada no mundo funcionaria não fosse a massa de trabalhadores da base da força produtiva. Assim, grande parte do PIB deve ser partilhada igualmente.

No capitalismo, o esforço igualitário foi feito por meio de instrumentos do Estado de Bem-Estar Social, que incluem a prestação de serviços públicos, como educação, saúde e mobilidade urbana, e uma rede de proteção social associada à previdência e a um robusto seguro-desemprego, além da renda mínima.

Há nisso poderosos efeitos expansivos e econômicos em geral: o consumo massivo induziu novos padrões produtivos e tecnológicos. Mas essa foi uma construção eminentemente política, baseada em ideais progressistas ou premida pelo temor de revoltas socialistas.

Há questões pertinentes quanto à sustentação do modelo. Por exemplo, Letícia Guedes, filha de um amigo diplomata que serviu em Estocolmo, disse que não sabia por que alguém estuda medicina na Suécia, se não vai ganhar muito mais que um atendente de loja. O pai respondeu que não se estuda só por dinheiro.

Claro que se pode discutir e calibrar aspectos do Estado de Bem-Estar Social. No entanto, numa avaliação geral, é certo que isso não tem atrapalhado a igualitária e rica Suécia, que com somente 10 milhões de habitantes criou várias empresas globais: Volvo, Scania, Ericsson, Electrolux etc. (evoé, Myrdal!).

No Brasil, nem de longe se verificam desincentivos ao trabalho. Inibiu-se, sim, a exploração, como a de empregados domésticos, que passaram a poder deixar de aceitar remunerações irrisórias porque precisam obter minimamente a subsistência. Uma sociedade menos desigual favorece as liberdades individuais.

Para dar um novo salto, o país precisa que a distribuição de renda ocorra pelo trabalho. Não bastam desemprego baixo e um bem-sucedido programa de renda mínima. É preciso que se reforcem mutuamente a prioridade política à igualdade e um crescimento robusto, que torne a mão de obra relativamente mais escassa, favorecendo seu poder de barganha.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

17 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. carlos batista

    16 de janeiro de 2014 5:53 pm

    Isto é balela. A vida real é

    Isto é balela. A vida real é muito diferente destas teses de igualdade. Se voce não premiar pelo desempenho e capacidade o futuro é um país de iguais e miseráveis. Tem uma estória que gosto muito. Vou citar abaixo:

     

    Em uma universidade americana os jovens que frequentavam uma sala eram quase todos socialistas e o professor era liberal.  O professor propos socializar as notas dos alunos e todos passariam ou todos seriam reprovados.

    Os alunos toparam e na primeira prova os que tiravam A continuaram, os que tiravam B tambem mantiveram as notas e a média foi B.

    Na segunda prova os que tiravam A estudaram menos,pois a nota final de todos era B e não repetiram o desempenho, os que tiravam B tbem começaram a relaxar pois já estavam com B.

    O resultado final é que todos foram reprovados.

     

    Isto é o reflexo da sociedade, se não há premio pelo desempenho…. Pra que se esforçar tanto?????? Pra manter uma minoria burocrática que está no poder e vivendo bem diferente da população????

    1. pôla1

      16 de janeiro de 2014 6:14 pm

      citação e contexto

      batista, citação e contexto, por favor, em respeito à seriedade do poste.

      desse jeito seu argumento só serve p/ vc mesmo.

      tipo eu chegar aqui e mandar:

      ‘ih, já vi falarem isso que o batista falou, num site americano, e esse papo foi destruído na hora pelos caras lá…’

      sacumé?

    2. Jefferson Castro

      16 de janeiro de 2014 6:16 pm

      Esse mesmo professor depois

      Esse mesmo professor depois aplicou o modelo capitalista, no qual só os melhores seriam premiados. O método foi definir entre os 50 alunos uma quantidade de notas A, apenas 5, de notas B, apenas 7, notas C, apenas 12 e todo restante teria as notas D e E.

      Quando foi aplicada, não importava o quanto cada aluno havia estudado ou sabia do conteúdo ao qual estavam sendo testados, pois, apenas 24 dos 50 alunos da sala obtiveram uma nota azul e todos os outros foram contemplados a injustiça do sistema capitalista.

      1. carlos batista

        16 de janeiro de 2014 8:35 pm

        Meus Caros
         
        A vida real é

        Meus Caros

         

        A vida real é bem diferente.

        O ser humano por natureza não quer se mover, a necessidade de alimentação,saúde,transporte, bem estar, faz o homem sair da inercia. Desde os primordios os homens só desceram das arvores quando foi necessário.  É muito bonito e acredito que muito mais justos o sistema socialista e igualitário, mas na prática o modelo fracassou. Os países que optaram por sistemas com grandes interferencias governamentais e grandes distribuições de renda fracassaram.  Os países socialistas criaram de certa forma os amigos do partido e o resto da população o que não deixa de ser uma desigualdade. Como voces acham que vivem os Castros em Cuba, Voces acreditam que esles vivam com a ração distribuida para a população e que não dá pro mes inteiro.

         

         

        Vejam só a situação do serviço público onde as pessoas tem estabilidade e não podem ser demitidas….. vejam a qualidade dos serviços….

         

         

    3. Luis S

      16 de janeiro de 2014 6:48 pm

      E’ questao de valores

      Experiencia sem nenhum valor.

      Entende-se facilmente o problema. O professor acha que socialismo e’ apenas dividir o resultado e quer provar que isso da’ errado. Comecando com um entendimento errado, que exagera apenas um pedaco e esquece o resto, e predisposto a provar uma tese, qualquer experiencia da o resultado que queremos.

      Vejamos melhor este exemplo. Ele pega gente acostumada, treinada a exaustao a viver de “premios por desempenho”, e de uma hora para a outra nao apenas tira este premio e “divide” com o resto da classe, como ainda nao coloca nenhum sistema de apoio. Ele nao discute as questoes morais e psicologicas do processo de “desempenho / premio”, nem reforca o premio de verdade do processo educativo (que e’ o conhecimento obtido e nao a nota). Depois, alardeia o resultado negativo!

      Ora, nao prova nada. Rigorosamente, a unica licao que eu vejo nesta historia e’ como este sistema (mal desenhado) de “premios por desempenho” (notas, no caso) deturpa e destroi os valores realmente importantes. Estudar e aprender dao (ou deveriam dar) prazer e satisfacao muito maior que a nota tirada. Mas os coitados aprenderam desde pequenos que o que importa e’ nota, ate quando vc nao aprendeu nada. Quando voce tira isso deles, nao e’ de surpreender que a motivacao va embora.

      Mas o que teria acontecido se eles tivessem desde crianca vivido numa sociedade em que o “premio” pelo estudo fosse a satisfacao pelo conhecimento adquirido, o reconhecimento de pais e colegas, a possibilidade de ajudar aos alunos mais atrasados e fazer uma diferenca nas vidas das outras pessoas?

      Que tal se eles, ao inves de ganhar uma “nota”, ganhassem mais responsabilidades?

      E, alem disso, que tal se os alunos “nao tao bons” ao inves de receberem notas baixas, recebessem mais atencao dos professores e dos alunos mais adiantados? Se percebessem que a sociedade, a escola nao iria apenas puni-los com a nota baixa, mas tambem nao iria desistir deles, nao iria deixa-los para tras e iria fazer os esforcos possiveis para que eles, se quisessem, pudessem acompanhar o ritmo dos demais?

      E’ facil ser cetico ou cinico a respeito disso, mas a verdade e’ que as poucas experiencias que ja existem deste tipo tem dado resultados excelentes. Infelizmente, porem, sao de alcance reduzido, ja que a sociedade como um todo ainda nao mudou.

      O paralelo com o campo do trabalho e dos negocios pode ser feito com facilidade. Nao se trata de que todos tenham o mesmo salario. Trata-se de criar uma sociedade humanizada, que reconheca que a necessidade de dar oportunidade, valor e suporte a cada ser humano e’ mais importante que o direito de uns poucos se tornarem bilionarios. Que aqueles que estao mais “a frente” se sintam dignificados, satisfeitos nao apenas com suas contas bancarias melhoradas, mas com o bem que podem fazer para o mundo como um todo. Que as pessoas sejam reconhecidas pelo bem que fazem, nao pelo dinheiro que tem.

      A proposito, para quem acha que estou pregando altruismo, nao estou nao. Isso e’ o que eu chamo de “egoismo inteligente”: construir uma sociedade melhor, para poder usufruir de uma sociedade melhor.

       

    4. Luiz C

      16 de janeiro de 2014 8:13 pm

      Ainda bem que você trouxe uma

      Ainda bem que você trouxe uma história verídica e real que circula no facebook para a discussão. Me sinto muito mais enaltecido com ela. Tenho certeza que deve ter sido ou o Luis Fernando Veríssimo, ou a Clarice Lispector, ou ainda o Olavo de Carvalho, que presenciou e transcreveu este grande ensinamento.

  2. aliancaliberal

    16 de janeiro de 2014 5:59 pm

    “o baixo desemprego ” o que

    “o baixo desemprego ” o que definia desemprego em 1980 era uma coisa o que define desempregado em 2014 é outra coisa.Por exemplo desemprego na faixa etária de 14 a 25 anos no Brasil passa de 45%.

     Mercado de trabalho: “Parabéns! Eu aumentei o salário mínimo!”

     

    1. Klaus BF

      16 de janeiro de 2014 7:18 pm

      14 anos???

      Colocar adolescentes saindo da infância na estatística é sacanagem AL. Não que não possam trabalhar, aliás, acho até que devem. Mas um trabalho/estágio condizente com a idade física e mental.

      1. aliancaliberal

        16 de janeiro de 2014 9:31 pm

        Klaus antes era 10 anos, e a

        Klaus antes era 10 anos, e a estatistica não é minha é do governo brasileiro.

        Como afirmei as definições de “desempregado” mudam a cada momento, e sempre para beneficiar o governo.

        O desemprego “bruto” sem maquiagens atual deve estar em torno de 25% a 35%, o que esta dentro do normal para uma economia com baixo indice de desenvolvimento, baixa produtividade, e leis trabalhaitas antigas.

        A maneira mais rápida de mudar isso é melhorar a produtividade da mão de obra, coisa que o governo ate esta fazendo mais de forma muito timida do meu ponto de vista ele pode mais, e a oposição não oferece concorrência, não oferece alternativa deve se por isso. 

        1. Walker

          16 de janeiro de 2014 10:35 pm

          (Sem título)

      2. Ulisses s

        17 de janeiro de 2014 12:35 pm

        O Bolsa Família e o Próuni

        Não tem a unção extamente de retirar o jovem do mercado de trabalho e dar condições de estudo? Não é assim que aumenta-se o percentual de tempo de escola de uma geração? O que o Liberou Geral tá reclamando? Devia estar batendo palma para o governo PT

  3. aliancaliberal

    16 de janeiro de 2014 6:02 pm

    Salário mínimo

    (Por Peter Schiff) 
     

    Quando algum encanamento da nossa casa entope, qual o procedimento padrão que normalmente seguimos? Fazemos um levantamento de preços com vários bombeiros hidráulicos e contratamos aquele que tem o melhor preço. Se todos os preços forem altos, a maioria de nós irá preferir pegar uma chave inglesa e uma soda cáustica, e fazer o serviço por conta própria. O mercado de trabalho funciona da mesma forma. Antes de contratar outro empregado, o empregador precisa estar certo de que esse novo empregado irá trazer um acréscimo de produtividade que exceda esse custo suplementar (o qual inclui não apenas o salário, mas todos os encargos sociais e trabalhistas, que já não são poucos, veja aqui) Assim, se um trabalhador pouco qualificado for capaz de contribuir com apenas $6 por hora em termos de aumento de produtividade, tal indivíduo estará desempregado caso o salário mínimo seja fixado em $7,25 a hora.
    Os trabalhadores pouco qualificados precisam lutar pelo dinheiro do empregador. E para isso eles têm de disputar tanto com os trabalhadores qualificados quanto com o capital (o maquinário). Por exemplo, se um trabalhador qualificado cobra $14 a hora para fazer um serviço que dois trabalhadores menos qualificados cobram $6,50 cada, seria economicamente sensato um empregador contratar a mão-de-obra menos qualificada. Entretanto, se o governo aumentar o salário mínimo para $7,25 a hora, esses trabalhadores menos qualificados serão “precificados para fora” do mercado de trabalho. É exatamente por causa dessa dinâmica que os sindicatos são ferrenhos defensores das leis do salário mínimo. Embora nenhum de seus membros receba o salário mínimo, a lei ajuda a protegê-los da concorrência dos trabalhadores menos qualificados. (Sindicato nada mais é do que isso: um cartel protegido pelo estado e que expulsa do mercado de trabalho aqueles trabalhadores menos qualificados – ao mesmo tempo em que utiliza a retórica da proteção aos desfavorecidos.) Os empregadores também têm a opção de empregar máquinas ao invés de pessoas. Por exemplo, um empregador pode contratar uma recepcionista ou investir em um sistema de atendimento automatizado. Ele fará o que for menos custoso. Assim, da próxima vez que você estiver gritando obscenidades ao telefone enquanto tenta dialogar com um computador, você já sabe em quem colocar a culpa por sua frustração. Há vários outros exemplos de empregadores que substituem a mão-de-obra humana pelo maquinário simplesmente porque o salário mínimo deixou os trabalhadores menos qualificados pouco competitivos. Por exemplo, nos aeroportos, os carregadores de mala foram substituídos pelos carrinhos de mão (embora aqueles ainda existam informalmente). A principal razão por que os restaurantes fast-food utilizam pratos de papel e utensílios de plástico é para não ter de contratar pessoas para lavá-los. Como resultado, muitos daqueles trabalhos que exigiam pouca qualificação e que costumavam ser o primeiro degrau da escada do mercado de trabalho foram exterminados do mercado. Você consegue se lembrar da última vez que um lanterninha o conduziu até seu assento em um cinema escuro? Qual foi a última vez que alguém – além do indivíduo que fica no caixa – não apenas empacotou suas compras no supermercado, mas também as levou até seu carro? Por falar nisso, não demorará muito para que os próprios caixas sejam “precificados para fora” do mercado e substituídos por scanners automáticos, fazendo com que você tenha de empacotar suas comprar sem qualquer ajuda. Você pode até ser capaz disso, mas e as pessoas de mais idade? O desaparecimento desses empregos traz consequências econômicas e sociais mais amplas. Os primeiros empregos que conseguimos são um meio de aperfeiçoarmos nossas habilidades, de modo que trabalhadores menos habilidosos possam adquirir experiência e, com isso, oferecer maior produtividade para seus empregadores atuais ou futuros. À medida que suas habilidades aumentam, o mesmo ocorre com sua capacidade de obter salários maiores. Entretanto, remova o degrau mais baixo da escada do mercado de trabalho e muitos nunca mais terão a chance de subir nela. Portanto, quando você mesmo tiver de abastecer seu carro em um posto sob chuva, não pense apenas naquele adolescente que poderia estar fazendo isso pra você; pense também no mecânico que ele poderia ter se tornado, caso as leis do salário mínimo não lhe tivessem negado um emprego. Vários mecânicos de automóveis aprenderam segredos de seu ofício quando trabalhavam como frentistas. Entre uma abastecida, uma lavagem e uma calibragem de pneus, eles passavam boa parte de seu tempo auxiliando os mecânicos e aprendendo com eles. Isso vai acabar. Como o salário mínimo impede que muitos jovens (inclusive um número desproporcional de minorias) consigam empregos básicos, eles nunca poderão desenvolver as habilidades necessárias para aspirar a empregos que paguem melhores salários. Como consequência, vários recorrem à criminalidade, enquanto outros recorrem ao assistencialismo governamental. Defensores do salário mínimo argumentam que é impossível sustentar uma família quando se vive apenas com um salário mínimo. Sim, é verdade. Mas isso é totalmente irrelevante, pois os empregos que pagam salário mínimo não foram feitos para sustentar uma família. O certo seria que as pessoas optassem por não iniciar uma família até que estivessem ganhando o suficiente para sustentá-las. Empregos de baixos salários servem para capacitar os trabalhadores a, com o tempo, adquirirem as habilidades necessárias que os permitirão ganhar salários altos o suficiente para sustentar uma família. Será que alguém realmente acha que um adolescente que trabalha como entregador de jornal deveria ganhar um salário capaz de sustentar uma família? A única maneira de se aumentar salários é aumentando a produtividade. Se os salários pudessem ser aumentados simplesmente por decreto governamental, poderíamos determinar o salário mínimo em $10.000 por mês e todos os problemas estariam resolvidos. Já deve estar claro para todos que, nesse nível, a maioria da população perderia seus empregos, e a mão-de-obra remanescente seria tão cara que os preços dos bens e serviços iriam disparar. Este é exatamente o fardo que as leis de salário mínimo impõem aos trabalhadores pobres e pouco qualificados – e, em última instância, a todos os consumidores.

    O salário mínimo, como toda regulamentação, é uma proibição. Especificamente, é proibido contratar uma pessoa para realizar qualquer trabalho por menos que aquele valor. Isto nada mais é do que uma proibição clara e direta do trabalho. 

    Dado que nossos líderes não conseguem compreender sequer este simples conceito econômico, por que ainda há pessoas que acreditam que eles irão solucionar os problemas econômicos bem mais complicados que nos assombram atualmente?

  4. Barbalho

    16 de janeiro de 2014 6:09 pm

    Muito interessante o texto.
    O

    Muito interessante o texto.

    O exemplo da Suécia é paradigmático do que se pode alcançar numa sociedade que preza pela equidade. O DCM mostra com grande frequência várias situações dos países nórdicos em que isso se revela de forma cristalina.

    Eu creio que talvez seja o momento de recuperar os escritos de Mauss e sua teoria da dádiva. É possível que a valorização de outros símbolos possa ser um elemento para se tornar mais sistêmico e supra-cultural as alternativas de premiação dos esforços para além do capital econômico. 

  5. ArthurTaguti

    16 de janeiro de 2014 7:23 pm

    Bem, o texto é interessante

    Bem, o texto é interessante porque, ao passo que é constantemente repetido que “o PT roubou a bandeira social-democrata do PSDB”, o articulista traça um roteiro bem simplório para se chegar a um Welfare State a la Suécia.

    Primeiro ponto interessante: Bolsa Família não é um início de Estado de Bem-Estar Social, mas um sintoma de sua negação. Segundo ponto: aproximação dos salários entre profissão especializadas e não especializadas. Esqueceu o último e terceiro ponto (aumento da carga tributária, tributação focalizada no patrimônio, renda e herança, principalmente dos mais ricos), talvez por trabalhar onde trabalha, mas tudo bem.

    A questão é: o PT hoje, no governo federal, abraça um projeto verdadeiramente social-democrata? Me parece, a toda evidência, que não.  

    O “lulismo”, de fato, já foi caracterizado como um modelo político que visa a distibuição da renda, mas sem confrontar o grande capital. Ou seja, abandonou-se o “crescer o bolo, depois distribuir”, o que é um grande avanço, mas por outro lado inviabiliza o caminho a um Estado de Bem-Estar Social. 

    Isto porque, não só na Europa, mas em tudo quanto é canto onde houve algum tipo de conquista social, não se prescindiu de sindicatos e movimentos sociais fortes. Houve também o dado essencial, do medo do “fantasma do comunismo”, o que levou certas elites a entregarem aneis para não perderem dedos.

    Já no lulismo, com o sindicalismo e os movimentos sociais abrigados sob o guarda-chuva dos cargos estatais, o único espaço de negociação que restou, ao governo, para implementar políticas progressistas, foi um Congresso majoritariamente controlado pelos grandes gupos econômicos. Conforme o Frei Betto bem disse, se em seu início o governo dispunha da base parlamentar E dos movimentos sociais como ponto de apoio, o cenário atual aponta para uma dependência excessiva de alianças com setores que jamais preteririam o capital no confronto com o trabalho.

    Assim, creio que, menos por ideologia, e mais pelas circunstâncias políticas, o PT se inclina muito mais para um projeto de caráter liberal. Liberal mesmo, nos moldes dos EEUU: não há um Welfare State, isto é óbvio, mas há um PIB per Capita muito alto o que, mesmo com uma distribuição de renda fraca (comparada com os países europeus), as migalhas que caem da mesa dos ricos dão para a população um padrão de vida relativamente razoável.

    Isto para mim parece um tanto óbvio pois, se a política de valorização do salário mínimo, atrelado ao crescimento do PIB, é uma das principais bandeiras do PT, QUANDO e SE o país tiver um desenvolvimento econômico estupendo, a renda do brasileiro pobre poderá chegar a um patamar em que um salário mínimo será o suficiente para bancar um bom plano de saúde, um colégio privado para os filhos, uma viagem de vez em quando..

    O problema de seguir a risca este modelo é que os EEUU conservam um desenvolvimento econômico desta magnitude por ser um campeão mundial de criatividade/inovação, com instituições voltadas a este fim, com um capitalismo muito mais avançado que nosso semi-feudalisdo de Estado e, principalmente, faz parte do clube de “lá”, qual seja, nações altamente industrializadas que exploram e arrancam o couro de países como o Brasil, eterno exportador de matéria prima.

    Para dar certo o Brasil como Estado liberal a la EEUU, o que parece ser o objetivo do atual governo, seria preciso romper este ciclo vicioso para nosso país adentrar também no clube das nações que produzem e exportam bens de alto valor agregado, o que é muito difícil de ocorrer quando tanto a melhoria do ensino básico quanto um projeto de nação soberana não estão no topo das prioridades de nossos governantes e congressistas.

    Seja pretendendo a implantação de um Estado de Bem-Estar Social, seja pretendendo que a política de valorização do Salário Mínimo se torne a solução mágica de todos os nossos problemas, o caminho é árduo e demanda políticas públicas e reformas que não conseguem espaço no horizonte próximo. 

  6. LC

    16 de janeiro de 2014 8:01 pm

    O problema é a produtividade, e não a dignidade

    O objetivo é ter uma sociedade mais igualitária. Os salários precisam crescer mais que os lucros e as rendas. Também precisa despencar o desnível de rendimentos entre trabalhadores braçais e com curso superior. Operários, prestadores de serviços, peões etc. precisam ganhar 40%, 50% ou 60% do que recebem médicos, engenheiros ou economistas, em vez dos atuais 5% ou 10%.

     

    Nenhuma linha a respeito de educação pública, de qualidade e igualitária. Não consigo pensar em União Soviética sem pensar nos velhos livros de matemática e física da Editora Mir, a preços de banana, e muito melhores que os competidores americanos. A lojista sueca não ganha muito menos que o médico por dois motivos: há excassez de pessoas que queiram ser lojistas e, segundo motivo, está muito bem preparada para cumprir a função que se espera de uma lojista. Semana passada fiquei dez minutos para marcar um exame ergométrico porque a atendente não sabia que a Cassi é o plano de assistência do Banco do Brasil. Quem trabalha com a área médica sabe que isso é equivalemte a comprar  um ingresso de futebol, e a pessoa dizer: Flamengo ?  Corinthians ? Desculpe, não sei o que é isso não. Nem preciso dizer que a culpa não é dela, e sim de quem a colocou naquele trabalho. Isso se reflete na produtividade. Podemos discordar da análise do Aliança no curtíssimo prazo, mas no longo prazo a questão se dá como ele colocou.

    A defasagem entre um médico e um trabalhador doméstico se dá no valor agregado que cada um fornece à sociedade, e não porque uma profissão seja mais ou menos digna que a outra.

     

    Claro que se pode discutir e calibrar aspectos do Estado de Bem-Estar Social. No entanto, numa avaliação geral, é certo que isso não tem atrapalhado a igualitária e rica Suécia, que com somente 10 milhões de habitantes criou várias empresas globais: Volvo, Scania, Ericsson, Electrolux etc.

    Novamente uma tentativa de analisar modelos brasileiros a partir de uma perspectiva do norte da Europa, e novamente nenhuma linha a respeito de educação. A Finlândia era um país miserável, quase invadido pela extinta URSS na década de 20. As pessoas catavam lixo p/comer na Coreia do Sul ainda na década de 50.

     

    Acho que o problema principal da atual gestão (além do inacreditável e equipe) não é nem a questão esquerda x direita, mas sim porque na questão principal do país (na minha opinião, disparado a educação básica), nosso governo não tem nada de esquerdista. E sem produtividade pessoal, um abraço p/qualquer sonho de crescimento…

  7. Alexandre Weber - Santos -SP

    17 de janeiro de 2014 12:33 am

    Faltam Empresas para dar emprego

    Cadê as empresas que irão empregar com bons salários?

    É do couro que sai a correia, não dá para começar com bons salários, a ordem não pode ser invertida, é preciso que existam boas empresas com mercado para seus produtos e serviços, os bons empregos serão consequências destas e não o contrário.

    Se bastasse um decreto para criar empregos bem remunerados tava fácil. Mas é preciso que existam as empresas antes, sem elas, nada feito.

    O Brasil precisa acordar o seu espírito animal empreendedor, o empresariado está prostado frente a um administração que não lhe dá as mínimas condições de se estabelecer e prosperar. 

    Cadê o Ministro das Micro e Pequenas empresas?

    Dilma, acorda!

  8. pôla1

    17 de janeiro de 2014 12:40 am

    uma relação interessante entre economia, sociedade e…, drogas

    só aparentemente fora do tópico, segue uma perspectiva, atual, em plenos estados unidos.

    um pesquisador da columbia universty, em entrevista a respeito de suas pesquisas sobre as relações sociais e econômicas c/ o consumo de drogas, responde a uma das muitas e precisas perguntas:

    Amy Goodman: Como você saiu de uma vizinhança violenta em Miami para a Universidade de Columbia ?

    Dr. Carl Hart: Nós tinhamos um Estado de bem-estar social, que servia como uma rede de segurança para famílias como a minha. Eu tenho sete irmãos e hoje somos todos contribuintes, mas nós fomos criados no Estado de bem-estar. Sem isso, eu não estaria aqui (enfase minha). O governo tinha programas em ciência para as minorias, o que me ajudou a conseguir um Ph.D. Além disso, tive muitos mentores: negros, brancos, mulheres. E uma avó forte e cinco irmãs mais velhas que me ajudaram muito.

    antes dessa, diz ele, mais no começo:

    …Se nós estivéssemos de fato preocupados com o vício em drogas, nós estaríamos tentando entender precisamente o porquê as pessoas se tornam dependentes. Mas não é nisso que estamos interessados. Nesta sociedade nós nos interessamos em maldizer as drogas. Dessa forma, não temos de lidar com os problemas sociais mais complexos que transformam as pessoas em dependentes químicos…

    mais aqui: http://www.democracynow.org/2014/1/6/drugs_arent_the_problem_neuroscientist_carl

    via carta maior.

Recomendados para você

Recomendados