
O coordenador e professor na Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Alexandre Ramos Coelho, defende que o Brasil está em posição privilegiada para liderar uma agenda de integração regional após o tarifaço imposto sobre produtos de origem brasileira pelo presidente norte-americano Donald Trump.
Para tanto, o país tem de articular cooperação com Chile, Argentina, Bolívia, Colômbia, Peru e Uruguai, o que pode resultar na estruturação de cadeias regionais de valor em áreas estratégicas como transição energética, semicondutores e inteligência artificial.
Ainda assim, a relação com os EUA continuará central para o Brasil. No entanto, um relacionamento mais equilibrado depende de pragmatismo, diversificação de parcerias e fortalecimento de uma base regional sólida. A crescente presença da China oferece oportunidades, mas também riscos de substituição de uma dependência por outra.
“Somente uma estratégia proativa, que alinhe diplomacia, inovação tecnológica e sustentabilidade, permitirá ao Brasil e à América do Sul se posicionarem como atores influentes na governança dos recursos críticos que moldarão a economia e a geopolítica global nas próximas décadas”, observa o professor.
Histórico
As relações entre Brasil e Estados Unidos, que completaram 200 anos em 2024, atravessam uma fase marcada por tensões geoeconômicas. O que começou no século XIX com um vínculo baseado na exportação de commodities evoluiu para uma agenda diversificada — que hoje inclui tecnologia, segurança, meio ambiente e cadeias globais de valor. Mas a assimetria entre os dois países permanece, e ganhou novos contornos no segundo mandato de Donald Trump.
Nas décadas de 1990 e 2000, a interdependência econômica era vista como motor de integração global. Hoje, sob a lógica da chamada geoeconomia, tornou-se ferramenta de pressão política. Tarifas, sanções, restrições a investimentos e controle de fluxos financeiros são usados pelos EUA para moldar o ambiente internacional de acordo com seus interesses estratégicos.
No caso brasileiro, essa política se traduziu em tarifas unilaterais sobre aço, alumínio, produtos do agronegócio e bens industriais. Baseadas em legislações como a Seção 232 do Trade Expansion Act de 1962 e a Seção 301 do Trade Act de 1974, essas medidas se intensificaram na atual gestão de Trump, elevando custos para setores cruciais da economia nacional.
Empresas brasileiras ligadas à siderurgia, ao agronegócio e à indústria de transformação foram obrigadas a buscar mercados alternativos, renegociar contratos e absorver prejuízos. O impacto, segundo analistas, foi profundo: perda de competitividade, redução de arrecadação e ameaças a empregos em cadeias produtivas estratégicas.
Parceiros?
A postura de Washington não se limitou ao Brasil. Em 2025, Trump desconsiderou compromissos do USMCA (United States – Mexico – Canada Agreement), impondo tarifas sobre aço, alumínio e automóveis do Canadá e do México. A medida expôs a vulnerabilidade dos parceiros mais próximos dos EUA e consolidou o poder norte-americano sobre cadeias regionais de valor, reposicionando setores-chave em benefício de suas próprias indústrias.
Para o Brasil, os efeitos vão além das perdas comerciais imediatas. Coelho aponta a necessidade de uma política geoeconômica mais consistente, que alinhe diplomacia e política industrial, fortaleça cadeias produtivas internas e diversifique mercados.
Mas a fragmentação latino-americana ainda é um obstáculo. Enquanto a China expande investimentos em infraestrutura, energia e minerais, e os EUA intensificam tarifas e sanções, os países da região continuam disputando espaço entre si, sem coordenação estratégica.
*Com informações do The Conversation.
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