
A relação comercial entre Estados Unidos e União Europeia ganhou um novo componente de tensão por conta das ameaças do presidente norte-americano Donald Trump aos países que adotam regulações e tributações digitais.
Os europeus contavam com uma previsibilidade maior nas negociações com os EUA após o acordo comercial fechado em julho, mas Trump indicou que pode impor novas tarifas em retaliação à multa de US$ 3,5 bilhões aplicada ao Google pela Comissão Europeia.
Em artigo publicado no Project Syndicate, os especialistas Moreno Bertoldi (Instituto Italiano de Estudos Políticos Internacionais) e Marco Buti (Instituto Universitário Europeu) afirmam que a União Europeia tem falhado em responder à altura contra as ameaças norte-americanas.
Por conta dessa tensão, volta a ganhar a força a possibilidade de uso do Instrumento Anticoerção (ACI), considerado a “bazuca econômica” da UE para retaliar medidas de coerção comercial.
Além disso, a disputa em torno da regulação digital – que envolve o Digital Services Act e o Digital Markets Act – tornou-se campo central da batalha comercial entre EUA e Europa, e uma decisão efetiva por parte de Bruxelas agora será um teste da real disposição do bloco em se afirmar no cenário geopolítico global.
“Se mantiver o ACI engavetado, a UE corre o risco de deixar sua ferramenta mais poderosa contra pressões econômicas enferrujar até a obsolescência”, alertam os articulistas.
O ACI permite à UE impor tarifas, cotas, suspender direitos de propriedade intelectual e até restringir acesso a contratos públicos de países que adotem práticas coercitivas. Para Bertoldi e Buti, apenas a ameaça de aplicá-lo já seria suficiente para sinalizar firmeza diante da escalada de Washington.
O economista Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu, também já havia advertido que ceder novamente à pressão americana significaria abrir mão da ambição europeia de se tornar uma potência geoeconômica.
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