A independência do Banco Central tem sido um fator relevante na formulação das políticas econômicas em diversos países ao longo das últimas décadas (contando inclusive com a participação política para a adoção de medidas potencialmente dolorosas), mas os limites de tal princípio deverão ficar mais claros nos próximos anos.
“A razão não é que houve erros catastróficos de política monetária, ou que os governos queiram administrar a política monetária eles mesmos. Os bancos centrais geralmente fizeram um bom trabalho, e os governos estão felizes em deixá-los fazer isso”, explica Stefan Gerlach, economista-chefe do EFG Bank em Zurique.
Em artigo publicado no site Project Syndicate, Gerlach explica que o recente aumento da inflação visto nos mercados foi gerado por diversos choques expressivos e inesperados, como a pandemia de covid-19 e a invasão da Ucrânia pela Rússia.
“Então, por que o princípio da independência do banco central está se tornando mais vulnerável? A principal preocupação é o crescimento dos balanços dos bancos centrais – devido a anos de flexibilização quantitativa (QE) – que agora estão levando a grandes perdas”, diz o articulista.
Embora a independência do Banco Central seja considerada favorável pelos governos, as perdas que terão efeitos de primeira ordem são outra questão, o que é ainda mais expressivo se as perdas estiverem acontecendo em meio ao aumento da demanda por gastos públicos, puxados pelos gastos com defesa, competitividade estratégica, adaptação e mitigação de mudanças climáticas.
Além disso, Gerlach destaca que os defensores da independência dos BCs “quase certamente” superestimaram o papel da autoridade monetária como garantidor de baixa inflação.
“O que mais importa para a estabilidade de preços é a capacidade do banco central de definir taxas de juros e outras alavancas de política como achar adequado. Apoio político firme para o objetivo de manter a inflação baixa é essencial; mas independência legal completa não parece ser uma condição necessária para alcançá-la”, diz o economista.
Os governos possuem o poder de selecionar os formuladores de políticas monetárias, e por conta disso eles vão escolher funcionários – normalmente ex-funcionários do Tesouro – “que sejam surtos sobre os interesses e prioridades do governo”.
“Os bancos centrais fariam bem em ser mais sensíveis às consequências que suas ações podem ter sobre as finanças públicas. Em última análise, essa pode ser a única maneira de proteger sua liberdade de alinhar a política monetária com seu mandato de estabilidade de preços”, finaliza Stefan Gerlach.
José Carvalho
3 de agosto de 2024 3:20 pmAssim como um governo não tem como estar independente do país que administra, também o banco central não pode ser independente. Seu grau maior ou menor de independência em relação às políticas de governo, devem ser preservados. A atuação de forma completamente independente, vai criar uma separação do restante da sociedade, resguardando apenas os que poderão participar dessa representação. As relações econômicas afetam vários tipos de interesses internos e externos; quanto menor for o nível de desenvolvimento de uma economia, mais complicada ficará a atuação do banco central numa condição de independência. Se empresas não conseguem ter apropriado desenvolvimento com o contexto de desigualdade brasileiro, diante de um BC que seja independente e olhe apenas alguns interesses, o que dirá o conjunto do País. Por falta de crescimento suficiente a dar ao País trajetória firme, o orçamento público não consegue atender o básico, o que vai ser caso o BC não tenha preocupações com tudo o que gera a riqueza no País.