10 de junho de 2026

Regulação deve levar stablecoins ao núcleo do sistema financeiro

Para economista, integração das moedas digitais estáveis dependerá do modelo regulatório adotado por EUA e União Europeia
Foto de Pierre Borthiry - Peiobty na Unsplash

1. Economista prevê que stablecoins serão integradas ao sistema bancário, seguindo histórico do mercado de eurodólares.

2. EUA propõe supervisão semelhante à de bancos para emissores de stablecoins, enquanto UE adota modelo de dois níveis.

3. Com amadurecimento do mercado, reguladores podem exigir regras equivalentes para bancos e stablecoins, levando a uma possível convergência.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

As stablecoins (criptomoedas lastreadas em ativos reais) devem seguir o caminho adotado por outros mecanismos ao longo da história financeira, ao nascer na periferia do sistema e ser incorporada ao núcleo regulado conforme sua relevância aumenta.

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A afirmação é da economista Lucrezia Reichlin, professora da London Business School e ex-diretora de pesquisa do Banco Central Europeu, em artigo publicado no site Project Syndicate.

Segundo a economista, o paralelo histórico mais emblemático remonta ao surgimento do mercado de eurodólares, na virada dos anos 1950.

Criado para suprir a demanda global por liquidez em dólares fora do alcance direto das regras americanas, o sistema inicialmente foi visto com desconfiança — inclusive por Washington. Pouco depois, contudo, passou a ser supervisionado parcialmente pelos EUA e se tornou uma engrenagem indispensável da arquitetura financeira internacional.

Na visão de Reichlin, inovações que criam “quase-moedas” costumam enfrentar riscos de corrida e colapso quando não estão sob a proteção do banco central. Foi o que ocorreu em 2008, quando instituições do chamado “shadow banking” precisaram virar holdings bancárias para acessar liquidez do Fed.

Regulação será decisiva

Hoje, o futuro das stablecoins depende de qual modelo regulatório vai prevalecer:

Estados Unidos – Querem que emissores relevantes funcionem sob supervisão semelhante à de bancos, com padrões rígidos de liquidez e capital, mesmo sem que se tornem bancos formais. A Circle, emissora do USDC, apoia a ideia.

Já a União Europeia (MiCA) criou um sistema de dois níveis:

 – Instituições de Dinheiro Eletrônico (EMIs), que devem manter reservas 1:1 e não podem emprestar.

 – Bancos, que podem emitir stablecoins diretamente sob licença bancária tradicional.

O modelo europeu tem mais clareza institucional, mas pode avançar mais lentamente por causa da inércia tecnológica dos grandes bancos.

Riscos e convergência

À medida que os mercados amadurecem, a linha entre depósitos bancários e stablecoins tende a desaparecer. Se ambos disputarem os mesmos recursos, reguladores podem exigir regras equivalentes — criando possivelmente os bancos de reservas integrais (narrow banks).

Reichlin lembra que qualquer passivo usado como dinheiro corre risco de “run”. Se stablecoins forem sistêmicas, bancos centrais provavelmente terão de oferecer algum tipo de proteção, direta ou indireta.

No cenário mais provável, diz a economista, o sistema bancário será “reencarnado” em versão digital: stablecoins circulando em blockchains públicas, mas totalmente lastreadas por reservas mantidas em instituições conectadas ao banco central. O garantidor final, portanto, seguiria sendo o Estado.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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  1. Mauro

    27 de novembro de 2025 3:34 pm

    Boa tarde Tatiane Correia,

    Agradeço pela atenção ao assunto das Stablecoins e por pontuar importantes aspectos das reflexões de Lucrezia Reichlin. Gostaria de também pontuar alguns aspectos que tenho levantado em minhas pesquisas sobre essa nova classe de ativos digitais.
    Em primeiro lugar, salta aos olhos a intrincada relação entre as Stablecoins e a família do atual presidente dos EUA, Donald Trump. Alguns analisam que as ações de Trump visam fortalecer um dólar cada vez mais enfraquecido, outros que é uma ação para enriquecimento pessoal e com grandes conflitos de interesse. Seguem alguns links de interesse:
    https://edition.cnn.com/2025/09/03/politics/crypto-trump-bitcoin-wlfi-stablecoin-analysis
    https://www.cnbc.com/2025/11/18/senator-probe-warren-trump-crypto-world-liberty-financial-usd1-wlfi-ties-north-korea-russia-iran.html
    https://www.pbs.org/newshour/show/trump-familys-cryptocurrency-ties-raise-concerns-as-administration-loosens-regulations
    https://www.project-syndicate.org/onpoint/trump-s-stablecoin-gamble

    No Brasil, o uso das Stablecoins é ligado a sua falta de regulação, tornando-as um canal para a evasão tributária:

    https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/10/stablecoin-e-usada-como-alternativa-para-turista-driblar-iof-no-exterior.shtml

    Como alerta para o possível uso nocivo das Stablecoins em nosso país, basta verificar a ofensiva de dois parlamentares ligados intimamente com a extrema-direita bolsonarista para defender as Stablecoins e evitar que o BC as regule. São os deputados Julia Zanatta (PL-SC) e Rodrigo Valadares (União-SE), além de parlamentares do Partido Novo:

    https://braziljournal.com/opiniao-quem-tem-medo-da-regulacao-das-stablecoins/
    https://br.tradingview.com/news/cointelegraph:1f90cfcdebc81:0/
    https://livecoins.com.br/novo-se-une-para-barrar-regras-big-brother-das-criptomoedas-querem-controlar-cada-satoshi/

    Os criptoativos, como Bitcoins e Ethereum, nasceram com a promessa de finanças descentralizadas. São pilares de um discurso anarco-capitalista, a não intromissão do Estado nas finanças dos indivíduos, porém ultimamente vemos o controle que o governo dos EUA tem sobre esses ativos, já que realizaram a maior apreensão de ativos de sua história por meio do arresto de contas de Bitcoins, com poucos detalhes técnicos divulgados:

    https://dailytrust.com/15b-bitcoin-seizure-a-warning-about-crypto-security/
    https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/10/24/maior-apreensao-de-criptomoedas-da-historia-saiba-quem-e-chen-zhi-o-magnata-cambojano-acusado-de-comandar-megafraude-cibernetica.ghtml

    A visão de Reichlin não leva em conta a visão asiática sobre o assunto das Stablecoins. Percebe-se que duas economias de peso na região, China e Índia, são arredias a seu uso. A China permite sua utilização controlada por meio de regulações em Hong Kong, canal financeiro com o Ocidente, mas recentemente barrou planos para sua emissão por grandes empresas continentais:

    https://finance.yahoo.com/news/chinas-pause-stablecoin-projects-not-093000232.html
    https://www.reuters.com/world/india/being-cautious-about-cryptocurrencies-stablecoins-india-cenbank-chief-says-2025-11-20/
    https://amro-asia.org/stablecoin-implications-for-the-asean3-region/

    A China e outros países asiáticos, alternativamente, têm construído o projeto MBridge, uma plataforma de pagamentos de moedas digitais soberanas, alianda a flexibilidade dos ativos digitais com a segurança regulatória dos Bancos Centrais:

    https://www.ledgerinsights.com/uae-officially-launches-mbridge-cbdc-platform-with-payment-to-china/

    Assim, minha visão Tatiane, é que a tecnologia blockchain e as Stablecoins podem ser grandes avanços tecnológicos e serem de suma importância para o avanço das finanças globais, porém não podemos nos deixar seduzir pelo “fetichismo” tecnológico e não atentarmos para os riscos desses ativos e tecnologias, principalmente sabendo de suas ligações com os EUA e seus interesses de novamente submeterem a América Latina a seus desígnios, inclusive financeiros.
    Apesar de toda a regulação, estamos testemunhando o escândalo do Banco Master, que se desenrolou sob os olhos do BC de Campos Neto por alguns anos, sendo que grande parte do mercado sabia da podridão de seus ativos e abandonou seu financiamento aos sardinhas e instituições estatais.

    Grande abraço, espero ter contribuído para a reflexão sobre o assunto!

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