
A influência global do dólar continua em debate entre analistas e economistas, muito por conta do aumento da dívida pública dos Estados Unidos, a politização do Federal Reserve e o uso da moeda norte-americana como arma de política externa.
Em meio a tal conjuntura, o governo de Donald Trump coloca nas stablecoins (criptomoedas atreladas ao valor do dólar) uma alternativa para manter sua hegemonia.
Em artigo publicado no Project Syndicate, o economista Barry Eichengreen afirma que a chamada Genius Act, sancionada pelo governo em julho, abre caminho para que empresas privadas emitam suas próprias versões digitais do dólar, com autorização do Tesouro e de órgãos reguladores.
Os defensores da proposta dizem que isso viabilizaria o desenvolvimento de uma rede de pagamentos mais eficiente, além de reforçar a presença do dólar no mercado internacional, uma vez que 99% das stablecoins existentes estão atreladas à moeda americana. Contudo, as suposições por trás dessa aposta são frágeis.
Incertezas
Segundo Eichengreen, o primeiro ponto a se avaliar é a falta de garantias de que as moedas digitais mantenham paridade estável com o dólar, nem de que governos estrangeiros permitirão seu uso livre dentro de suas fronteiras.
Países preocupados com fuga de capitais, evasão fiscal ou perda de controle monetário tendem a restringir tais transações. Um exemplo é a União Europeia, que já apontou a não conformidade da Tether — maior stablecoin do mercado — com o regulamento MiCA, voltado à proteção do consumidor e à integridade financeira.
A China, por sua vez, prepara o lançamento de stablecoins vinculadas ao yuan em Hong Kong, o que cria uma concorrência direta ao projeto americano.
Outro fator é a corrida mundial por moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs). Mais de 100 países desenvolvem seus próprios sistemas, com respaldo institucional e garantia de conversão em dinheiro oficial, algo que não acontece nos EUA por conta do lobby do cripto e da desconfiança com relação aos bancos centrais.
Eichengreen lembra que, ao se analisar o contexto histórico, o dinheiro estatal tende a prevalecer sobre iniciativas privadas. Assim, apostar em stablecoins como pilar da hegemonia do dólar, portanto, pode ser um equívoco — mais ideológico que econômico.
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