Em campanha, Igrejas criticam governo e negacionismo na pandemia

CNBB e Conic lançaram hoje a campanha da fraternidade 2021, com críticas de diversos representantes da Igreja católica e cristãs

Secretário-geral da CNBB, Dom Joel Portella, critica negacionismo contra a Covid-19, em abertura da Campanha da Fraternidade - Foto: Reprodução

Jornal GGN – A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic) lançaram, nesta Quarta-feira de Cinzas, 17, a campanha da fraternidade 2021, recheada de críticas aos negacionismo do combate à Covid-19, à vacina e à negação da ciência.

Com críticas indiretas ao governo de Jair Bolsonaro, representantes das instituições religiosas e vídeos de divulgação falaram em “mundo dividido pelo ódio e polarizado por mentiras”, sobre a “violência banalizada” e “lideranças políticas que não se entendem”.

O vídeo da campanha, lançado nesta quarta, traz em poucos minutos as críticas de forma sutil. Em uma atuação, uma senhora aparece afirmando que em 2020, ano de pandemia, “as lideranças políticas não se entendiam, houve muita briga, muita discórdia, muita morte”, enquanto imagens de protestos nas ruas eram transmitidas.

“Foi muito difícil, pois as lideranças políticas, com as brigas, eles deixaram de se preocupar com o país. Aí veio o desemprego, onde as pessoas pobres ficaram mais pobres. As ricas enriqueceram mais, sabe? (…) Os povos indígenas, que foram nossos ancestrais, foram perseguidos, expulsos de suas terras e até mortos. (…) E agora, meus netos, vamos dar as mãos, para vencer esse mal e fazer um país melhor”, continuou a personagem.

“Em um mundo dividido pelo ódio e polarizado por mentiras. Um mundo onde a violência de todas as formas foi banalizada e muita gente não se choca e nem se espanta. Onde as pessoas e grupos constroem muros e bolhas, ao contrário de levantar pontes que aproximam”, trouxe a mensagem introdutória.

Na sequência, por volta das 11h, teve início a abertura oficial da Campanha de Fraternidade. Nela, diversas lideranças da Igreja Católica e Cristã aparecem com  críticas ao enfrentamento da pandemia feito pelo atual governo Bolsonaro. “Saúdo a memória dos mais de 235 mil irmãos e irmãs que o coronavírus levou do nosso convívio”, iniciou o secretário-geral da CNBB, Dom Joel Portella.

“É verdade, não podemos negar, que o vírus tão letal em si mesmo encontrou aliados na indiferença, no negacionismo, no obscurantismo, no desprezo pela vida. Sejamos, portanto, aliados na responsabilidade, na lucidez e na fraternidade. Reforçamos o coro dos lúcidos a clamar, cada vez mais, pela vida”, completou o representante.

Segundo Portella, “é triste ver que nosso país vem trazendo a marca das radicalizações” e defendeu que o mundo não pode ser organizado a partir “da destruição, nem muito menos da morte”. “A fé nos ensina de onde vem a divisão, ela nos mostra quem é o divisor”, seguiu, em clara referência ao presidente da República.

“Diante da pandemia do coronavírus, o mundo busca vacinas. Diante dos impasses da vida, onde as radicalizações e polarizações se manifestam, vacinámo-nos com o diálogo”, continuou, de forma explícita.

Também participante da abertura, o presidente do Conic, Pr. Inácio Lemke, falou que muitas mortes da Covid-19 foram vítimas da “negligência”.

“[Devemos ser] solidários de forma especial com os que choram as vítimas do coronavírus e muitas vitimadas por negligência e sufocadas por falta de insumos e é bem aqui que somos desafiados como igrejas, unidas no Conic, para desejarmos a paz”, afirmou.

De forma protocolar, como todos os anos, o Papa Francisco também deixou a sua mensagem aos católicos brasileiros pela Quarta-Feira de Cinzas. Sem criticar diretamente Bolsonaro, falou que para superar o “narcisismo” é preciso diálogo.

“De fato, quando nos dispomos ao diálogo, estabelecemos um paradigma de atitude receptiva, de quem supera o narcisismo e acolhe o outro”, afirmou.

As mensagens na transmissão do evento ao vivo ocorrem, ainda, após a divulgação do texto-base da ação, na semana passada, que criticou diretamente os “discursos negacionistas sobre a realidade e fatalidade da Covid-19”, “a negação da ciência” e a “cultura de violência contra as mulheres, as pessoas negras, os indígenas, as pessoas LGBTQI+”.
Polêmicas da campanha

Sendo recebido com críticas pelo setor mais conservador da Igreja Católica, nem a CNBB, nem a Conic recuaram da mensagem clara. Em uma sequência de artigos divulgados em sua página, bispos e arcebispos da CNBB questionaram o tom de polêmica à campanha.

“Creio que nenhuma das Campanhas da Fraternidade teve 100% da aprovação da sociedade, pois os temas refletidos são para que nos posicionemos ou a favor de Cristo e de seu Reino ou contra”, posicionou-se o Bispo de Registro, Dom Manoel Ferreira dos Santos Junior.

“No texto base da Campanha da Fraternidade, são citados diversos grupos de pessoas marginalizadas em nossa sociedade. Neste mesmo texto, são colocadas estatísticas de violência contra estas minorias. A única coisa que o Conselho das Igrejas Cristãs (CONIC) pede é o diálogo, o amor e a vida para os que são diferentes”, continuou.

Sobre o trecho tornado polêmico por alguns representantes católicos, o Arcebispo de Palmas, Dom Pedro Brito Guimarães, escreveu que “às vezes, tenho a impressão de que eles querem palanques e mídias, já que não possuem altares”. “Tenho pena deste tipo de pessoa. Soube que os textos básicos desta polêmica são os números 67 e 68. Você sabia que o Texto Base da Campanha da Fraternidade é escrito, à luz do método ver, julgar e agir? E que estes números polemizados fazem parte do ver? E são citações de documentos que dizem que são estas pessoas as mais atingidas pelos sistemas de violência?”, questionou.

“Existem alguns grupos, ministros ordenados, pessoas que não querem aceitar a linha desta Campanha da Fraternidade Ecumênica. Mas é preciso ler os textos, se inteirar da realidade em que vivemos e buscar soluções na unidade com Cristo Jesus, porque Ele é a nossa paz. (…) A sociedade brasileira viveu e vive ainda tensões por causa das desigualdades econômicas e sociais, opiniões diferentes, de ataques às instituições. As pessoas e comunidades de fé não estão separadas do mundo”, expôs o Bispo de Marabá, Dom Vital Corbellini.

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