A força do conhecimento. IV. O que é cultura, afinal?, por Felipe A. P. L. Costa

Diz-se que uma espécie é dotada de cultura quando os seus integrantes são capazes de transferir informações por meios comportamentais.

A força do conhecimento. IV. O que é cultura, afinal?

Por Felipe A. P. L. Costa [*].

O que estamos a chamar aqui de cultura não é nenhum traço exclusivo ou distintivo da espécie humana, diferentemente do que imaginam alguns.

Nas palavras de Bonner (1983, p. 20-1):

“Existem provavelmente poucas palavras que tenham tantas definições quanto ‘cultura’. Recordo-me de que, quando era aluno do Professor William Weston, em Harvard, havia uma grande sala em frente ao seu gabinete, do outro lado do corredor, onde produzíamos diversas condições ambientais e de nutrição para cultivar fungos e mixomicetos. Foi aí que aprendi a hoje esquecida arte de como produzir gelatina (ágar) de batata a partir de batatas de verdade. Do lado de fora da porta de vidro dessa sala de uso comum dos estudantes, havia uma placa com uma palavra gravada em grandes letras douradas: CULTURA.

“No outro extremo, há os que usam a palavra num sentido que associo a Matthew Arnold e ao Oxford English Dictionary: cultura é um refinamento de gostos e de juízos artísticos; é o ponto máximo na purificação e no aprimoramento intelectual.

“Afortunadamente, as definições em ciência são arbitrárias e eu definirei a palavra num sentido que se situa algures no enorme espaço entre os dois extremos da palavra acima mencionados. Entendo por cultura a transferência de informação por meios comportamentais, sobretudo pelo processo de ensino e aprendizagem [nota 1]. É usada num sentido que contrasta com a transmissão de informação genética, passada de uma geração à seguinte pela herança direta de genes. A informação transmitida de forma cultural acumula-se como tradição e conhecimento, mas a ênfase desta definição recai sobre o modo de transmissão e não sobre o seu resultado.

“Nessa definição simples, tomei o grande cuidado de não a limitar ao homem, visto que, tal como foi enunciada, existem muitos exemplos bem-conhecidos de cultura entre outros animais, especialmente entre aqueles que, como os primatas, praticam amplamente a cooperação. […]

“Há uma tendência para contrastar as palavras biológico e cultural, mas Marion Levy [nota 2] fez-me ver que isso é deveras lamentável. A cultura, tal como a defini, é uma propriedade adquirida por organismos vivos. Portanto, nesse sentido, é tão biológica quanto qualquer outra função de um organismo – por exemplo, a respiração ou a locomoção. De vez que estou enfatizando o modo como a informação é transmitida, poderíamos chamar uma delas de evolução cultural e a outra de evolução genética, entendendo-se que ambas são biológicas na medida em que uma e outra envolvem organismos vivos.”

Compare a opinião acima com o comentário de alguém de fora da área científica, como este, do influente filósofo estadunidense Allan [David] Bloom (1930-1992) (Bloom s/d, p. 259-60):

“Todos sabemos, com algum grau de precisão, o que é comércio, mas eu não entendo o que é ‘cultura’, palavra que nunca uso. ‘Cultura’ de alguma forma se refere às coisas ‘mais altas’, à ‘espiritualidade’, e, como esses termos, também é uma palavra vaga, sem conteúdo. Pertence à família de outras noções amorfas como ‘gênio’, ‘personalidade’, ‘intelectual’, ‘criatividade’, todas inventadas com uma intenção nobre, embora falha, e têm sido, ao longo de dois séculos, inevitavelmente, como moedas que se desvalorizam com o tempo. […]

“A ideia de ‘cultura’ formou-se como resposta ao aparecimento da sociedade comercial. Tanto que eu saiba, Kant foi o primeiro a usar a palavra no seu sentido moderno. (Claro, toda mudança importante na linguagem remonta a uma mudança profunda no pensamento.) Kant usa a palavra num contexto no qual discute a contribuição de Jean-Jacques Rousseau à articulação do problema humano. Os primeiros trabalhos de Rousseau, os discursos sobre Ciências e Artes e Origem da Desigualdade tinham, de acordo com Kant, revelado a verdadeira contradição que faz o homem incompleto e infeliz: a oposição entre natureza e civilização, as necessidades animais do homem e felicidade, de um lado, e seus deveres sociais e ciências e artes adquiridas, de outro.

“Mas, ainda de acordo com Kant, Rousseau, nos seus trabalhos derradeiros, Emílio, Do Contrato Social e Nova Heloísa, propôs uma possível unidade que harmonizasse as baixas exigências naturais com as altas responsabilidades da moralidade e da arte. A esta unidade Kant chamou de ‘cultura’. Suas três Críticas [nota 3] eram uma tentativa de sistematizar a ‘cultura’. A primeira delineia os limites da natureza como revelada pela ciência, terreno da matéria móvel no qual toda causa é mecânica. A segunda estabelece a possibilidade de um terreno da liberdade no qual vontade e, portanto, responsabilidade são concebíveis. E a terceira encontra um terreno totalmente novo, o estético, no qual a imaginação pode jogar livremente, e os anseios do homem pela beleza e felicidade podem ter substância.

“Juntas, as Críticas fornecem a base filosófica da ‘cultura’, e a vida por elas informada poderia ser realmente culta. Este sistema considera todas as possibilidades da alma em sua riqueza e profundidade. O anúncio de uma nova clareza sobre a verdadeira articulação do potencial humano prometia realizações de um nível anteriormente nunca atingido.”

Neste livro, abraçamos o primeiro ponto de vista: Diz-se que uma espécie é dotada de cultura quando os seus integrantes são capazes de transferir informações por meios comportamentais. É o que acontece, por exemplo, quando uma mãe educa os filhotes a respeito dos itens que eles podem ou não ingerir, como ocorre entre os bugios (primatas do gênero Alouatta) [nota 4].

Cultura, utensílios, indústrias.

Estudiosos que lidam com pesquisas arqueológicas estão acostumados a identificar tipos característicos de utensílios – e.g., pontas de flecha, machados, vasilhames de barro e urnas funerárias, além de instrumentos musicais, roupas, tintas e adereços [nota 5].

Tudo isso é cultura.

Ou melhor, há muita cultura por trás de tudo isso.

Um dos objetivos da pesquisa arqueológica é identificar o tipo de indústria que caracterizaria diferentes grupos humanos – de onde veio a cerâmica ou a indústria lítica (e.g., ferramentas e outros utensílios feitos de pedra lascada) encontrada, digamos, na ilha de Marajó (PA) ou no alto rio Negro (AM)?

Algumas dessas indústrias mudaram pouco (no tempo e/ou no espaço), razão pela qual podem ser usadas como um tipo de marcador cultural [nota 6]. O que, para os nossos propósitos, significa dizer que a presença de um tipo específico de utensílio indicaria que dois ou mais sítios (próximos ou distantes) foram outrora ocupados por grupos que partilhavam de uma mesma cultura ou de uma mesma ancestralidade cultural.

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Notas.

[*] O presente artigo (assim como três anteriores – ver Livros, lentes & afins, Por que a Terra é esférica? e Revolução Agrícola, a mãe de todas as revoluções), foi extraído e adaptado do livro A força do conhecimento & outros ensaios: Um convite à ciência (em processo de finalização). Há uma campanha de comercialização envolvendo os livros anteriores do autor – ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para mais informações ou para adquirir os quatro volumes (ou algum volume específico), faça contato pelo endereço [email protected].com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Na opinião de alguns estudiosos (e.g., Bronowski 1979), as pinturas pré-históricas seriam testemunhas de que os humanos de outrora vivenciaram relações de ensino e aprendizagem de modo deliberado.

[2] O biólogo estadunidense John Tyler Bonner (1920-2019) está a se referir a um colega de universidade, o sociólogo Marion J. [Joseph] Levy Jr. (1918-2002).

[3] Bloom alude a três obras do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) que foram publicadas entre 1781 e 1790 – em port.: Crítica da razão pura (1781), Crítica da razão prática (1788) e Crítica do juízo (1790).

[4] Não estudo os primatas, mas eu mesmo já flagrei um episódio desses no campo. Sobre o estudo do comportamento animal, ver Dawkins (1989); sobre a vida interior dos primatas, Cheney & Seyfarth (1990).

[5] Para exemplos, ver Bronowski (1979); para exemplos brasileiros, Tenório (1999) e Silva & Rodrigues-Carvalho (2006).

[6] Para um exemplo, envolvendo a comparação da cerâmica produzida por duas culturas distantes, Valdívia (Equador) e Jomon Médio (Japão), ver Meggers (1979, p. 55).

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Referências citadas.

+ Bloom, A. s/d [1990]. Gigantes e anões: Ensaios (1960-1990). SP, Best Seller.

+ Bonner, JT. 1983 [1980]. A evolução da cultura nos animais. RJ, Zahar.

+ Bronowski, J. 1979 [1973]. A escalada do homem. SP, Martins Fontes & Editora UnB.

+ Cheney, D & Seyfarth, RM. 1990. How monkeys see the world. Chicago, UCP.

+ Dawkins, MS. 1989 [1986]. Explicando o comportamento animal. SP, Manole.

+ Meggers, BJ. 1979 [1972]. América pré-histórica. RJ, Paz e Terra.

+ Silva, HP & Rodrigues-Carvalho, C, orgs. 2006. Nossa origem: O povoamento das Américas. RJ, Vieira & Lent.

+ Tenório, MC, org. 1999. Pré-história da Terra Brasilis. RJ, Editora UFRJ.

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