A teoria do valor em Marx e a educação, por Michel Aires de Souza Dias

Para Marx, as ideias dominantes em uma sociedade são as ideias da classe dominante. Desse ponto de vista, a escola torna-se uma instituição estratégica para a classe burguesa.

A teoria do valor em Marx e a educação.

por Michel Aires de Souza Dias[1]

Na segunda metade do século XIX, Karl Marx avaliou que “a riqueza das sociedades onde rege a produção capitalista aparece como uma imensa acumulação de mercadorias” (MARX, 2016, p. 57).  Em sua opinião, a mercadoria é a pedra angular sobre a qual se desenvolve toda a estrutura do modo de produção capitalista. É a célula econômica da sociedade burguesa, que reveste o produto do trabalho humano como valor, que apesar de ser imaterial, surge como expressão de relações sociais tornando-se uma força que conduz e governa toda a sociedade. A grande consequência disso é que todas as esferas da vida social passam a ser determinadas pela lógica do capital. As forças abstratas do mercado funcionam como uma entidade absolutamente independente dos agentes. O mercado torna-se uma entidade que ninguém controla individualmente, mas é ele que regula e controla o comportamento de todos os indivíduos.

Marx analisou a sociedade capitalista procurando compreender profundamente as relações de produção e de circulação de mercadorias. Ele buscou apreender dialeticamente as relações materiais que os homens estabelecem entre si e o modo como produzem seus meios de vida.   Assim, ele pensou as condições materiais de existência em seu movimento real, analisando suas formas de desenvolvimento e a conexão íntima que há entre elas.  Nesse processo, ele concluiu que as formas de consciência surgem a partir das condições materiais de existência dos homens, determinando, fundamentalmente, o modo como eles se organizam em sociedade.

A sociedade capitalista surge estratificada pela lógica do capital, como um campo de forças entre grupos e classes sociais em que a classe dominante, por deter os meios de produção, coloca-se em posição dominante.  Com isso, a partir da estrutura econômica a classe burguesa impõe suas ideias a todo o corpo social. Para Marx (1998), as ideias dominantes em uma sociedade são as ideias da classe dominante.  Desse ponto de vista, a escola torna-se uma instituição estratégica para a classe burguesa. A educação surge no capitalismo como reflexo das relações econômicas, uma vez que ela é parte da superestrutura que determina a direção moral e intelectual do corpo social. A escola torna-se, portanto, o local privilegiado da reprodução da cultura e dos valores da burguesia.

Em Marx o ser humano não é algo acabado, pronto, estável, não é uma idealidade autossuficiente e incondicional. O indivíduo não tem um fundamento ou uma essência previamente determinada. Ele torna-se o que é a partir de suas condições materiais de existência, a partir do seu ser social, ou seja, a partir do seu trabalho. É por meio do trabalho que o indivíduo constrói sua existência e sua identidade. “A maneira como os indivíduos manifestam a sua vida, reflete exatamente o que eles são. O que eles são coincide, pois, com a sua produção, isto é, tanto com o que eles produzem como com a maneira como produzem” (MARX, 1998, p.11). 

Marx (2016) define o trabalho como toda atividade orientada a um fim. Ao modificar a natureza para a sua manutenção, o homem transcende o reino da necessidade,   transformando a si mesmo.  É por meio do trabalho que ele se humaniza, torna-se sujeito de sua própria história, fomentando sua própria individualidade.  O trabalho é condição de sua liberdade.   Contudo, na sociedade capitalista o trabalho  surge como exploração. Para ter acesso aos meios de produção e poder produzir sua própria existência material, o trabalhador tem de submeter às regras do capital, realizando um trabalho forçado, que não serve ao trabalhador, mas ao capitalista. A separação entre o trabalhador e o produto de seu trabalho provocou uma cisão no próprio homem, uma vez que aquilo que ele produz constitui parte de sua humanidade (PARO, 1999).

No modo de produção capitalista, o trabalho como produtor de valor de uso, que visa a produção de objetos úteis ao bem-estar dos indivíduos, é substituído pelo trabalho como produtor do valor de troca, que visa o acúmulo de capital, expandindo a riqueza do capitalista.   Em toda história da civilização o fim último do trabalho humano era a produção do valor de uso. O objeto produzido deveria ter uma utilidade. O que se buscava era a satisfação de uma necessidade, seja ela física ou psicológica. Contudo, Marx chega à conclusão de que, no modo de produção capitalista. o valor de troca passa a ser mais importante que o valor de uso, pois ele é imprescindível para a reprodução do capital. A substituição do valor de uso pelo valor de troca, como critério de intercâmbio material entre os homens, lançou as bases para a exploração do trabalho humano e, consequentemente, para a expansão do capital.

Ao investigar mais profundamente as relações materiais entre os homens, Marx percebeu que, apesar de parecer relativo e acidental o valor de troca das mercadorias, há algo que as torna comparáveis e comensuráveis. O que há de comum entre todas as mercadorias é o fato de elas serem produtos do trabalho humano. É o trabalho humano que determina o valor das mercadorias. Contudo, não se trata de qualquer trabalho concreto, útil, que produz valor de uso; mas do trabalho médio, socialmente necessário para a sua produção, ou seja, trabalho abstrato.

No modo de produção capitalista, as relações de troca só podem existir a partir de uma complexa divisão social do trabalho. Desse modo, toda mercadoria surge como expressão social do trabalho humano.  A mercadoria é a objetivação de uma relação social. Apesar disso, essa característica não aparece na mercadoria. O valor da mercadoria aparece como se fosse algo intrínseco à sua natureza. Como se fosse algo dado a priori.   No supermercado, por exemplo, não temos como saber se determinado produto foi produzido por trabalhadores assalariados ou por trabalhadores informais sem direitos trabalhistas; não sabemos se foi produzido por imigrantes filipinos numa fábrica insalubre em Los Angeles ou se foi produzido por bolivianos miseráveis em São Paulo.  Quando compramos um produto não precisamos saber quem o produziu e em que condições ele foi produzido. Os indivíduos não percebem as relações de exploração que estão por trás dos produtos. O valor surge como algo natural.  A mercadoria torna-se misteriosa por encobrir as características sociais do trabalho humano. É esse ocultamente que produz o fetichismo da mercadoria.

Segundo Rubin (1980), a teoria marxista do fetiche consiste em Marx ter visto relações humanas por trás das relações entre coisas, revelando a ilusão da consciência humana, que se origina da economia mercantil e atribui às coisas características que têm sua origem nas relações sociais entre as pessoas no processo de produção. Desse modo, o valor surge como um fantasma na mercadoria, como um espírito que comanda todas as relações humanas. As mercadorias aparecem como se tivessem uma vontade independente de seus produtores. Elas se humanizam, enquanto os indivíduos que as produzem se desumanizam. É nesse sentido que as relações sociais entre os homens assumem a forma “fantasmagórica” de relações entre coisas. 

Para Marx, o poder da classe burguesa não se restringe apenas ao âmbito da produção econômica e do mercado. Seu poder atinge todas as esferas da vida social.  Desse modo, a burguesia possui também grande poder sobre os rumos do Estado.  Na concepção marxista, o Estado não é uma instituição neutra, capaz de resolver e apaziguar as lutas de classes, promovendo a justiça e o bem-estar social.  Desde sua origem foram os comerciantes, banqueiros e homens de negócio que tiveram maior influência sobre o Estado. Marx, em seu livro A Ideologia alemã, viu a origem do Estado como resultado da divisão social do trabalho e da propriedade privada, sendo expressão jurídica e política dos interesses da classe dominante.  Com isso, as formas de Estado assim como as relações jurídicas não surgiram espontaneamente como produtos do espírito humano, mas como consequências do modo como os homens produzem suas condições materiais de existência. Nesse sentido, a aparência democrática do Estado esconde claramente sua natureza de classe, que em essência seria uma instância para administrar os negócios comuns de toda a classe burguesa. Como observa Bresser Pereira (1995, p. 90), a classe burguesa  “é dominante não apenas porque controla os fatores de produção, ou porque detém a propriedade dos meios de produção e de comunicação, mas também porque controla o próprio Estado”

Gramsci (1982), ao pensar as relações superestruturais entre Estado e sociedade civil, evidenciou que a classe dominante não mantém seu poder apenas pela coerção, mas também pelo consentimento.  O Estado é o âmbito da sociedade política, que faz de suas instituições instrumento de coerção para assegurar o equilíbrio e a ordem social. Por sua vez, a sociedade civil é o conjunto de organismos chamados privados, como a igreja, a escola, a mídia e os sindicatos.  Ela é o âmbito do consentimento, da persuasão, cujo objetivo é estabelecer a hegemonia social através do consenso espontâneo das grandes massas da população.   O que Gramsci faz é ampliar o conceito de Estado procurando torná-lo mais preciso. “Com isso, a estrutura do Estado ganha nova complexidade, porque deixa de agir apenas com base na coerção e passa a incluir e a dar importância crescente aos elementos de persuasão” (PARO, 2012, p.111).

A sociedade civil foi vista por Gramsci como local de conflitos de projetos políticos e visões de mundo em busca da hegemonia para conquistar a adesão das classes dominadas. Desse modo, na sociedade capitalista, a classe burguesa exerce a direção moral e intelectual das classes subalternas. Toda relação de hegemonia é uma relação de aprendizagem, é uma relação pedagógica. Assim, a escola torna-se o lugar privilegiado para disseminar a ideologia burguesa. Mas não se trata de ideologia como falsa consciência, mas como visão de mundo, que se manifesta na arte, na política, na economia, na cultura e em todas as manifestações da vida social (Paro, 2012). 

No mundo capitalista,  a escola é o principal instrumento do Estado para  reproduzir as ideias, os valores e as formas de comportamento da burguesia.  Como aponta Saviani (1987), a classe burguesa, detentora do capital financeiro e a determinante da cultura vigente, não tem interesses na transformação da escola. Desse modo, ela cria mecanismos que impedem essa transformação, fazendo com que a escola reproduza as formas de domínio social e a divisão em classes, para que tudo permaneça como está. A escola torna-se, portanto, o âmbito da persuasão e da dominação simbólica.

Em síntese, a teoria de Marx procura mostrar que a educação surge como reflexo de um sistema de relações de força e de sentido entre grupos ou classes sociais de uma determinada formação social. Na formação social determinada pelo modo de produção capitalista, a classe burguesa torna-se a classe dominante, impondo através da ação pedagógica a dominação simbólica, assegurando o monopólio da consciência legitima. É desse modo que ela procura obter o consentimento espontâneo dos indivíduos, preparando-os para o trabalho alienado. Com isso, reforça o aspecto segundo o qual os sujeitos são determinados em si como instrumentos de produção em relação ao aspecto de que os sujeitos devem encontrar autonomamente em si mesmos sua própria finalidade. (MATOS, 2003).

Bibliografia

BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Estado, sociedade civil e legitimidade democrática. São Paulo, Lua Nova: Revista de Cultura e Política, no. 34, 1995: 85-104.

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da Cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. 

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

MARX, Karl e FRIEDRICH, Engels. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

MATOS, O. Filosofia: A polifonia da Razão. In: Filosofia e Educação. Ed. Scipione, 2003.

PARO, Vitor Henrique. Administração Escolar: introdução crítica. São Paulo: Cortez, 2012.

RUBIN, Isaak  Illich. A teoria marxista do valor. São Paulo: Brasiliense, 1980.

SAVIANI, Demerval.  Escola e democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre a educação e política. São Paulo: Cortez, 1987.


[1] Doutorando em educação pela Universidade de São Paulo. E-mail: [email protected]

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