5 de junho de 2026

Estados Unidos e o risco-zero, terão eles dado um mal passo?, por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Será que a aprovação das sanções pelo congresso, autorizando o calote, não será, por si só, um aumento do risco soberano dos Estados Unidos?
Xinhua

Estados Unidos e o risco-zero, terão eles dado um mal passo?

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Quando uma pessoa comete um equívoco irrecuperável, diz-se que ela cometeu um ato falho. Antigamente, quando uma moça tinha relações sexuais antes do casamento, dizia-se que a moça tinha dado um mal passo, pois nada traria sua virgindade de volta e, principalmente, deixaria de ser aceita pelas “famílias de bem”. Governos podem dar maus passos também, quando deixam de ter seus papéis como de risco-zero.

A literatura sobre a tipologia dos riscos é vasta. Dá mesmo para traçar uma taxonomia bem consistente acerca do tema. Eu costumo resumir o risco em quatro  tipos soberano, de negócio, de crédito e moral.

O risco soberano é aquele sobre o que não temos atitude alguma a tomar. É, geralmente, ligado ao Estado. Pode ser uma mudança de legislação, ou mesmo a instabilidade política. Quando se trata de investimentos em terras alheias, esse risco pode ser chamado de risco-país. Quando se trata de negócios interno, esse  risco recebe inúmeros nomes diferentes, consoante à escola do pensamento econômico a que o profissional está inserido.

O risco de negócio é o inerente à atividade econômica exercida. Para a agricultura, pode ser uma supersafra, que joga os preços para baixo, impedindo que façam face aos custos. Na indústria, pode ser a não aceitação de um modelo, ou mesmo a falta de um componente que impeça a entrega do produto.

O risco de crédito é o de se emprestar dinheiro e o cliente não ter recursos para pagar. Isso inclui desde um carnê até o cartão de crédito, passando pela emissão de duplicatas. O risco moral é a possibilidade de o devedor ter recursos mas não querer pagar, seja pelo uso de artimanhas legais, seja pela aposta no fato consumado, seja pela imposição do medo. Sim, a imposição do medo. Suponhamos que Fulano empreste recursos a Cicrano, pretensamente muito mais rico e poderoso que o primeiro. Fulano sabe que, se não  receber seus títulos, não poderá reclamar a ninguém, na suposição de que a justiça esteja influenciada pelo devedor. É o calote da forma mais sofisticada e cruel que existe. Tivemos inúmeros exemplos de  calote por imposição de poder em nossa História, como o da correção monetária de 80% no mês que antecedeu a posse de Collor, enquanto os bancos pagaram somente 40% de reposição sobre as cadernetas de poupança. Isso gerou intermináveis processos e uma enormidade de imóveis, dos que “peitaram” os bancos, foram tomados e, como castigo, arrematados em leilões altamente discutíveis.

Aí voltamos à máxima de que, na Economia, há que se considerar o medo de perder como mais forte do que a vontade de ganhar. É justamente isso que faz com que, a qualquer perspectiva de abalo na normalidade econômica, os agentes econômicos corram para os títulos da dívida americana. Parte-se de princípio de que seja impossível os Estados Unidos deixarem de honrar suas dívidas e que o dólar seja uma moeda forte. Pelo lado monetário, considerando que a moeda fiduciária seja uma confissão de dívida, quanto menor for o risco de um país não honrar suas dívidas, mais forte será sua moeda, no que tange ao seu poder de compra, não necessariamente no seu valor nominal perante outras moedas. É o que podemos chamar de um ciclo virtuoso que atrai investidores em momentos de expectativa de crise.

Com a invasão da Ucrânia, até por antecipação, vieram sanções à Rússia. Entre elas, o bloqueio das reservas em títulos da dívida americana. Em outras palavras, os títulos detidos pela Rússia não terão liquidez, até que as sanções sejam suspensas, ou seja, até que a Rússia faça o que os Estados Unidos querem. Cabe então perguntar, serão os títulos americanos de risco-zero? Será que a aprovação das sanções pelo congresso, autorizando o calote, não será, por si só, um aumento do risco soberano dos Estados Unidos?

Se houver uma campanha difamatória do devedor contra o credor, o que se costuma chamar de opróbrio, daí usar argumentos jurídicos, como a alegação de o credor estar em vias de desrespeitar, simultaneamente, o território alheio e o direito de autodeterminação dos povos, tudo na crença de ser-se inatacável, o risco moral não será mais zero. Sempre vai pairar uma nuvem negra na mente de quem empresta dinheiro a um devedor mais forte. É o risco de que, se o credor não obedecer, não terá seu dinheiro de volta.

Para qualquer efeito, não importando quem esteja certo nesse imbróglio, mesmo porque não há mocinhos aí, resta saber por quanto tempo os títulos da dívida dos Estados Unidos serão considerados como de risco zero. Então saberemos se o Estado americano terá dado ou não um mal passo.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. José de Almeida Bispo

    3 de março de 2022 10:04 am

    “Se houver uma campanha difamatória do devedor contra o credor, o que se costuma chamar de opróbrio, daí usar argumentos jurídicos, como a alegação de o credor estar em vias de desrespeitar, simultaneamente, o território alheio e o direito de autodeterminação dos povos, tudo na crença de ser-se inatacável, o risco moral não será mais zero. Sempre vai pairar uma nuvem negra na mente de quem empresta dinheiro a um devedor mais forte. É o risco de que, se o credor não obedecer, não terá seu dinheiro de volta.”
    BATATA!
    Na mosca.

    Quanto à moral do último parágrafo… há controvérsias. QUEM PERDEU, PERDEU!
    A economia ocidental vai se esfacelar por si mesma mediante a jogatina em que se resumiu. Talvez o Brexit tenha sido a salvação da Europa, especialmente da Alemanha. Se se afastar mais e mais da toxidez anglo-americana, obviamente. A Rota da Seda junto com a remontagem da Liga Hanseática.

Recomendados para você

Recomendados