A armadilha do PIB potencial na política econômica, por Luis Nassif

Por trás dessa política, havia a fé cega em teorias econômicas mainstream, por parte de uma geração de economistas incapazes de analisar empiricamente o quadro econômico

No governo FHC, após grandes crises – em geral cambiais -, seguia-se uma política fiscal extremamente restritiva, que prolongava a recessão.

Era um enorme contra-senso. Após uma grande crise, há enorme capacidade de recuperação da economia, devido ao fato de haver capacidade ociosa, os ativos ainda não estarem depreciados, os trabalhadores desempregados ainda estão com habilidades de produção intactas.

Então, a troco de quê prolongar a recessão com políticas fiscais restritivas.

Por trás dessa política, havia a fé cega em teorias econômicas mainstream, por parte de uma geração de economistas incapazes de analisar empiricamente o quadro econômico.

Essa loucura ocorreu após a crise cambial do início de 1995, em fins de 1998 e, mais recentemente, com o pacote Joaquim Levy, em 2015.

A (i)lógica por trás disso está no chamado cálculo do PIB potencial.

Trata-se de um modelo econométrico do chamado PIB potencial. Isto é, de quanto se poderia crescer sem afetar a inflação e a taxa de emprego “natural”. A tal taxa de emprego “natural” segue um dos grandes pilares da análise econômica das últimas décadas, a curva de Phillips – um estudo que correlaciona nível de desemprego com inflação (quanto menor o desemprego, maior a pressão inflacionária dos salários), e define o que seria uma “taxa natural” de emprego.

Historicamente, o tal PIB potencial é revisto periodicamente, mostrando o grau de incerteza que o cerca. Mas o problema maior é o que ocorre com esse cálculo depois de uma crise profunda. 

O PIB potencial depende exclusivamente da duração da recessão. Se a recessão for profunda, há deterioração do ativo fixo, desatualização do nível de aprendizado dos desempregados, reduzindo o PIB potencial. Isto porque, com ativos deteriorados, qualquer aumento de produção gera fricções de preços; e com a mão-de-obra de reserva desatualizada, haverá redução da oferta de emprego e, por consequência, aumento de salários.

Justamente por isso, desvios do desemprego real e do PIB potencial valem apenas para uma base temporária. Ou seja, não podem ser utilizados em uma base temporal mais prolongada. 

O vício de pensamento de parte dos economistas leva ao seguinte círculo vicioso:

  1. Há uma crise profunda e uma recuperação parcial, com pressões localizadas de custos.
  2. Para evitar essas pressões, impõe-se uma política fiscal e monetária restritiva, prorrogando a recessão.
  3. A cada dia a mais de recessão, menor fica o cálculo do PIB potencial – pela não renovação das fábricas, pela perda de habilidades do emprego.
  4. Com PIB potencial menor, amarram-se todas as políticas posteriores anticíclias.

Esse quadro explica muito do que ocorreu com a economia mundial pós crise de 2008.

Aí se chega ao dilema atual dos economistas americanos: combater a inflação ou a recessão, eis a questão.

Confira os conceitos acima com o que está acontecendo atualmente na economia americana.

Houve um aumento de 4,2% na taxa de inflação anual fechada em abril. Os cabeças de planilha analisam os números em si, sem nenhuma preocupação em detalhar o que ocorre no mundo real.

Segundo o Instituto de Política Econômica, há escassez de mão de obra e de oferta de commodities, mas – e esse mas é relevante – em setores específicos.

No caso da mão de obra, a pressão se dá exclusivamente em cima de setores muito afetados pela pandemia, especialmente lazer e hospitalidade. Houve enorme desemprego e, agora, uma pequena recuperação leva à recontratação, aumentando obviamente os custos do trabalho em relação ao período anterior.

Já as altas se resumem a itens e setores específicos, como carros usados, aluguel, passagens aéreas e algumas commodities como cobre e madeira serrada. E alguns gargalos de oferta devido a movimentos lógicos: setores que se desestruturaram na crise inicial e que tem dificuldades de recompor a produção na recuperação.

O que ocorre é que economistas como Lawrence Summers tratam os dados de forma agregada e defendem a redução dos impulsos monetários para toda a economia. Ora, o que prolonga a queda do PIB potencial é justamente a demora em recuperar o PIB real.

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