Quase candidato, Moro deveria se aconselhar com Luciano Huck, por Ion de Andrade

Seja como for, seremos brindados nessa campanha de 2022, que, aliás, já começou, com um primeiro turno impiedoso.

Agência Brasil

Quase candidato, Moro deveria se aconselhar com Luciano Huck

por Ion de Andrade

Há muitas maneiras de interpretar a “volta” de Sérgio Moro à política.

A primeira é defensiva, ou seja, futuros processos por sua conduta oficialmente suspeita à frente da Lava Jato poderão, a partir de agora, ser considerados de inspiração política, feitos com desvio de finalidade, apenas para prejudicar a sua campanha, o que lhe daria alguma blindagem moral.

A segunda, que não anula a primeira, poderia se dever a um projeto gestado não somente no Brasil, mas também nos Estados Unidos, no qual ele emergiria como representante desses segmentos ligados ao capital exportador brasileiro e aos interesses externos.

A terceira, que não pode ser excluída, é que seja um ato de loucura, de um personagem ferido por uma vaidade e um delírio de grandeza imensos e incuráveis.

A questão central nisso tudo é que Moro só tem chances de chegar à presidência se Bolsonaro for defenestrado desde logo, afinal ele só poderia herdar o seu eleitorado num segundo turno que parece ser muita areia para o seu caminhãozinho… Portanto está inaugurada uma luta de tudo ou nada entre os dois, e quem tiver artilharia vai usar. Bolsonaro, obviamente, tem; a começar pela canetada dos 75 desembargadores (anti lavajatistas) que irá nomear…

A quarta possibilidade a cogitar seria que Moro possa ter se movido apenas para ser apresentado ao eleitorado nessa eleição, numa estratégia em que poderia se posicionar melhor na próxima campanha. 2022 seria, assim, uma espécie de primeira vez de outras futuras… (risos)

Convenhamos que a sua vaidade e a sua falta de senso crítico sobre si mesmo não são normais e que ele, mesmo ao arrepio das normas, não tem perfil de quem entra para perder. Portanto parece excluída a hipótese de uma candidatura de apresentação ao grande público com vistas ao futuro, até porque esse futuro é incerto para ele.

Por outro lado, se estiver entrando num plano que inclua um alinhamento aos interesses americanos, o esquema teria que se acompanhar de artilharia pesada, incluamos aí a contribuição diplomática dos nossos irmãos do norte à abertura de um processo contra Bolsonaro em Haia ou a montagem de alguma desmoralização externa de grande monta…

Então Moro, ou por delírio, ou por ser o candidato do esquema estadunidense, estaria entrando para ser o candidato sim dos bolsonaristas e no primeiro turno, o que exigira destroçar as chances de Bolsonaro desde já e, claro, herdar o seu eleitorado no segundo turno. Ora, sendo Bolsonaro o personagem que comanda a máquina mais pesada do Poder no Brasil de hoje, essa hipótese parece delirante. Ao mesmo tempo a estratégia incorpora uma dificuldade: se bater muito forte em Bolsonaro não herdará o seu eleitorado no segundo turno…

Se se tratar de um ato de razão e não de loucura, Moro só poderia ter aceito o páreo com a garantia de uma artilharia pesada e decisiva a seu favor de um terceiro e não dele, justamente para não se incompatibilizar com quem deveria votar nele próprio no segundo turno… haja malabarismo.

Se existe tal artilharia garantida, não sabemos, mas ou ela entrou no cálculo ou Moro será triturado pela máquina bolsonarista, sem dó, nem piedade. Nesse caso, a sua participação nas eleições terá sido o desatino de um Napoleão de hospício.

Tudo isso posto, Bolsonaro, estando na presidência da República, terá todos o interesse e os recursos para esmagar um desafiante amador cujas chances só existem em caso de total derrocada de sua própria candidatura….

O jogo, como já tivemos a oportunidade de acompanhar noutros capítulos, costuma ser bruto nas hostes da extrema direita.

Seja como for, seremos brindados nessa campanha de 2022, que, aliás, já começou, com um primeiro turno impiedoso.

E esse é apenas metade do problema de Moro.

A outra metade é o poder de fogo do campo democrático e, menor, mas não nulo, o da dita terceira via… Não lhe adiantará de nada o seu discurso contra Lula. Ao contrário, cada vez que pronunciar o nome Lula a sua condição de juiz suspeito será reforçada. Não ganhará votos na esquerda e perderá votos no eleitorado de direita perante o qual essa vergonha pública será intensamente explorada, como já tem feito Ciro Gomes…

Acrescente-se a isso que se houver artilharia pesada americana no combo da candidatura Moro, o que não é impossível, ela poderá beneficiar outro candidato da dita terceira via, como Mandetta ou Ciro Gomes, afinal, para não ser suspeita essa artilharia terá que parecer não relacionada a sua campanha, o que abre o flanco para que beneficie outro(s) candidato(s) que não ele…

A política no Brasil se estabilizou como ocorreu na primeira guerra mundial, num extenso campo de trincheiras. Nada passa.

Talvez ele devesse pedir instruções ao apresentador Luciano Huck que tem invejável experiência em quase candidaturas…

Diz o velho adágio que o esperto cai na rede que ele próprio tece.

Ion de Andrade é médico epidemiologista e professor e pesquisador da Escolas de Saúde Pública do RN, é membro da coordenação nacional do Br Cidades e da executiva nacional da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela democracia

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