O caso do coronel valente – história com final feliz, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Era uma vez um coronel da polícia que era muito valente. Ele comandava 5 mil homens numa cidade com 12 milhões de habitantes

O caso do coronel valente – uma história com final feliz

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Era uma vez um coronel da polícia que era muito valente. Ele comandava 5 mil homens numa cidade com 12 milhões de habitantes. Todavia, ele acreditava que poderia comandar a cidade inteira. E como tinha ligações políticas na capital, ele foi levado a acreditar que participava de um grupo predestinado a conquistar o comando supremo do país.

Aquele país, entretanto, tinha 214 milhões de habitantes e seguia seu curso sem se preocupar com a valentia de um coronel. Afinal, era útil que aquele policial pensasse ser tão poderoso quando na verdade ele era uma pequena peça na engrenagem que mantinha uma cidade viva e ativa.

Acostumado a lidar com subalternos, o coronel nutria um ódio particular por advogados. “Esses malditos advogados defendem bandidos e não obedecem ninguém” – ele dizia aos seus soldados. Os advogados, porém, nem tomavam conhecimento do coronel. Eles sabiam que poderiam facilmente complicar a vida de qualquer um. Mas o coronel tinha um trunfo psicológico que mantinha sua tranquilidade. Ele acreditava que a missão dele era proteger a Justiça e que os juízes teriam obrigação de protegê-lo.

Mas então, um dia, o coronel acabou se desentendendo com um juiz. Não com um juiz qualquer. Mas com um juiz do Tribunal mais importante que ficava na capital. “Escreva na sentença o que eu estou mandando” – disse o coronel em público crendo que um simples coronel poderia ser a longa mão da Justiça que forçaria seu adversário a escrever decisões judiciais.

Assim que desafiou o poderoso juiz, o policial ficou impotente. Ele perdeu seu comando e os 12 milhões de habitantes da cidade em que ele morava nem mesmo tomaram conhecimento do afastamento dele. Outro oficial foi designado para o posto que ele ocupava e a vida seguiu seu caminho.

Aborrecido, o coronel resolveu se vingar de quem havia causado sua punição. Então ele contratou um advogado para defendê-lo. Desde que seja bem pago, um advogado pode perfeitamente defender até um policial. Todavia – e isso precisa ser dito aqui – o coronel tentou dizer ao advogado o que ele deveria fazer. A relação entre eles azedou e o advogado recusou o serviço obrigando o coronel a procurar outro profissional.

“Malditos advogados, eles não obedecem ninguém” – disse o coronel. Benditos os profissionais que fazem isso, dizia a legislação daquele país que garantia total autonomia aos advogados. Após perambular e ser rejeitado em diversos escritórios, o policial com orgulho ferido conseguiu contratar um defensor.

O advogado dele fez o que podia em favor de seu cliente. Mas o pedido do coronel foi rejeitado. O advogado recorreu, nova derrota. Em algum momento, o caso do policial chegou ao Tribunal onde seu inimigo despachava. E lá o caso entrou na fila de espera. A Justiça esperou até o coronel ser aposentado antes de apreciar o processo proferindo uma decisão justa: “o pedido de revogação do afastamento está prejudicado em virtude da aposentadoria do autor da ação.” Caso encerrado.

Moral da história: a valentia de um reles coronel é inútil contra a burocracia judiciária, pois ela sempre encontra um meio de esmagar os adversários dos juízes, especialmente se eles forem policiais.


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