Covid-19 – O tecido social vem se esgarçando há anos, mas ainda não regredimos ao “É cada um por si”, por Felipe Costa

Entre esses 20 países, a taxa de letalidade segue em 2,3%. A taxa brasileira está em 2,5%.

Covid-19 – O tecido social vem se esgarçando há anos, mas ainda não regredimos ao “É cada um por si”.

Por Felipe A. P. L. Costa [*].

RESUMO. – Este artigo atualiza as estatísticas mundiais a respeito da pandemia da Covid-19 divulgados na semana passada (aqui). No caso específico do Brasil, atualiza ainda as médias semanais das taxas de crescimento (casos e mortes). Entre 22 e 28/3, essas médias ficaram em 0,63% (casos) e 0,86% (mortes). A taxa de casos permaneceu estacionária, mas a de mortes escalou. Foi a quinta escalada consecutiva. No ritmo atual, o país irá contabilizar 14.931.329 casos (em vez dos 14.940.219 previstos anteriormente) e 396.797 mortes (em vez das 387.654 previstas anteriormente) até o último domingo de abril (25/4). A situação é crítica. Mas ainda não regredimos ao estágio do “É cada um por si”.

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1. UM BALANÇO DA SITUAÇÃO MUNDIAL.

Levando em conta as estatísticas obtidas no início da tarde de hoje (29/3) [1], eis um quadro da situação mundial.

(A) Em números absolutos, os 20 países [2] mais afetados seguem a concentrar 78% dos casos (de um total de 127.319.002) e 81% das mortes (de um total de 2.785.838) [3].

(B) Entre esses 20 países, a taxa de letalidade segue em 2,3%. A taxa brasileira está em 2,5%. (Outros três países da América do Sul que estão no topo da lista têm taxas de letalidade equivalentes ou ainda piores: Argentina, 2,4%; Colômbia, 2,6%; e Peru, 3,4%.)

(C) Nesses 20 países, 75,1 milhões de indivíduos receberam alta, o que corresponde a 75% dos casos. Em escala global, 95,6 milhões de indivíduos já receberam alta.

2. O RITMO ATUAL DA PANDEMIA NO PAÍS.

Ontem (28/3), de acordo com o Ministério da Saúde, foram registrados em todo o país mais 44.326 casos e 1.656 mortes. Teríamos chegado assim a um total de 12.534.688 casos e 312.206 mortes [4].

Em números absolutos, as estatísticas registradas na semana passada (22-28/3) foram ainda mais assombrosas que as da semana anterior.

Foram registrados 536.455 novos casos – um novo recorde e um salto em relação ao total da semana anterior (514.863, entre 15 e 21/3). Foi a 17ª semana com mais de 300 mil novos casos (12 dessas semanas foram registradas em 2021).

Desgraçadamente, atingimos também um novo patamar no número de mortes: 18.164 – 15% a mais que o recorde anterior (15.813, entre 15 e 21/3). Foi a 19ª semana com mais de 7 mil mortes (11 dessas semanas foram registradas em 2021).

3. TAXAS DE CRESCIMENTO.

Mês a mês, desde abril de 2020, tenho usado as taxas de crescimento no número de casos e de mortes para monitorar o rumo e o ritmo da pandemia [5]. E a minha escolha tem se revelado bastante acertada.

Vejamos os resultados mais recentes.

Em comparação com as médias da semana anterior (15-21/3), as médias da semana passada (22-28/3) mostraram tendências distintas (ver a figura que acompanha este artigo).

A taxa de crescimento no número de casos permaneceu estacionária em 0,63% (22-28/3) – é a quarta semana seguida que estamos a patinar entre 0,59% e 0,63% [6].

A taxa de crescimento no número de mortes saltou de 0,79% (15-21/3) para 0,86% (22-28/3) – o maior percentual desde 17-23/8 [6, 7]!

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FIGURA. A figura que acompanha este artigo ilustra o comportamento das médias semanais das taxas de crescimento no número de casos (pontos em azul escuro) e no número de óbitos (pontos em vermelho escuro) em todo o país (valores expressos em porcentagem), entre 28/6/2020 e 28/3/2021. (Valores acima de 2% não são mostrados.) As médias mais baixas das duas séries (casos e mortes) foram observadas entre 11/10 e 8/11, razão pela qual o período é referido aqui como o ‘melhor mês’. Logo em seguida, porém, note como as duas nuvens de pontos experimentaram rupturas e mudaram de rumo. E note como o apagão que houve na divulgação das estatísticas, na segunda quinzena de dezembro, rebaixou artificialmente as duas trajetórias.

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4. CODA.

No ritmo atual, o país irá contabilizar 14.931.329 casos (em vez dos 14.940.219 previstos anteriormente) e 396.797 mortes (em vez das 387.654 previstas anteriormente) até o último domingo de abril (25/4).

A situação é crítica. A ponto de levar um importante observador da cena brasileira, o médico e escritor Drauzio Varella, a sentenciar: “A epidemia fugiu do controle, e só podemos contar com nós mesmos” (ver aqui).

De minha parte, interpreto essas palavras como um desabafo. (Um desabafo compreensivelmente raivoso, diga-se.) Mas não como uma conclusão assentada em evidências estatísticas.

De resto, embora o Palácio do Planalto continue a apostar as suas fichas na confusão e no malfeito, ainda não regredimos ao estágio do “Cada um que se vire” ou “É cada um por si”.

Há como estancar e reverter as tendências macabras observadas nos últimos meses. (O comportamento da taxa de crescimento no número de casos ao longo das últimas quatro semanas pode ser um sinal incipiente de que as medidas adotadas por prefeitos e governadores estariam a surtir algum efeito.)

Não há qualquer mistério. É uma questão essencialmente política: Basta seguir o exemplo de cidades, estados ou países que venceram ou estão a vencer a pandemia. Neste sentido, reitero o que escrevi em artigos anteriores: Tomar as rédeas da situação (e sair da crise) depende sobremaneira da adoção de medidas efetivas de proteção e confinamento [8].

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NOTAS.

[*] Há uma campanha de comercialização em curso envolvendo os livros do autor – ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para mais informações ou para adquirir (por via postal) os quatro volumes (ou algum volume específico), faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Vale notar que certos países atualizam suas estatísticas uma única vez ao longo do dia; outros atualizam duas vezes ou mais; e há uns poucos que estão a fazê-lo de modo mais ou menos errático. Alguns países europeus (e.g., Suécia, Suíça e Espanha) insistem em não divulgar as estatísticas em feriados e fins de semana. A julgar pelo que informam os painéis, o comportamento da Suécia tem sido particularmente surpreendente e vexatório. Acompanho as estatísticas mundiais em dois painéis, Mapping 2019-nCov (Johns Hopkins University, EUA) e Worldometer: Coronavirus (Dadax, EUA).

[2] Os 20 primeiros países da lista podem ser arranjados em cinco grupos: (a) Entre 30 e 32 milhões de casos – Estados Unidos; (b) Entre 12 e 14 milhões – Brasil e Índia; (c) Entre 4 e 6 milhões – França, Rússia e Reino Unido; (d) Entre 2 e 4 milhões – Itália, Espanha, Turquia, Alemanha, Colômbia, Argentina, Polônia e México; e (e) Entre 1,5 e 2 milhões – Irã, Ucrânia, África do Sul, Peru, Tchéquia e Indonésia.

[3] Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março, em escala mundial e nacional, ver os cinco volumes da coletânea A pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

[4] Números horrorosos, mas previsíveis e evitáveis – ver o artigo ‘No ritmo atual, o país irá contabilizar 291 mil mortes até 28/3’, publicado neste GGN, em 1/3.

[5] Arrisco dizer que a pandemia chegará ao fim sem que a imprensa brasileira (grande parte dela, ao menos) se dê conta de que está monitorando a pandemia de um jeito, digamos, desfocado – além de burocrático e bastante superficial. Para capturar e antever a dinâmica de processos populacionais, como é o caso da disseminação de uma doença contagiosa, devemos recorrer a um parâmetro que tenha algum poder preditivo. Não é o caso da média móvel. Mas é o caso da taxa de crescimento – seja do número de casos, seja do número de mortes. Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março, em escala mundial e nacional, ver referência citada na nota 3.

[6] Entre 19/10 e 21/3, as médias semanais exibiram os seguintes valores: (1) casos: 0,43% (19-25/10), 0,4% (26/10-1/11), 0,3% (2-8/11), 0,49% (9-15/11), 0,5% (16-22/11), 0,56% (23-29/11), 0,64% (30-6/12), 0,63% (7-13/12), 0,68% (14-20/12), 0,48% (21-27/12), 0,47% (28/12-3/1), 0,67% (4-10/1), 0,66% (11-17/1), 0,59% (18-24/1), 0,57% (25-31/1), 0,49%(1-7/2), 0,46% (8-14/2), 0,48% (15-21/2), 0,53% (22-28/2), 0,62% (1-7/3), 0,59% (8-14/3), 0,63% (15-21/3) e 0,63% (22-28/3); e (2) mortes: 0,3% (19-25/10), 0,26% (26/10-1/11), 0,21% (2-8/11), 0,3% (9-15/11), 0,29% (16-22/11), 0,3% (23-29/11), 0,34% (30-6/12), 0,36% (7-13/12), 0,42% (14-20/12), 0,33% (21-27/12), 0,36% (28/12-3/1), 0,51% (4-10/1), 0,47% (11-17/1), 0,48% (18-24/1), 0,48% (25-31/1), 0,44%(1-7/2), 0,47% (8-14/2), 0,43% (15-21/2), 0,48% (22-28/2), 0,58% (1-7/3), 0,68% (8-14/3), 0,79% (15-21/3) e 0,86% (22-28/3).

[7] Sobre o cálculo das taxas de crescimento, ver qualquer um dos três primeiros volumes da coletânea citada na nota 3.

[8] É um erro imaginar que a saída para a crise será pavimentada pela campanha de vacinação, mesmo na hipótese de que ela saía do marasmo em que se encontra. Como alertei em artigos anteriores, os efeitos da vacinação só serão percebidos – na melhor das hipóteses – quando mais da metade dos brasileiros tiver sido vacinada. E tal não ocorrerá antes do segundo semestre. E mais: Devemos tomar cuidado com as armadilhas mentais que cercam a campanha de vacinação. Três das quais seriam as seguintes: (1) a imunização individual não é instantânea nem nos livra de continuar adotando as medidas de proteção social (e.g., distanciamento espacial e uso de máscara); (2) a imunização coletiva só será alcançada depois que a maioria (> 75%) da população tiver sido vacinada; e (3) a população brasileira é grande, de sorte que a campanha irá demorar vários meses (mais de um ano, talvez).

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