Jornal GGN – A vacina indiana contra a Covid-19 da Bharat Biotech estava sendo negociada para a compra pública do governo brasileiro, antes mesmo de clínicas privadas mostrarem interesse. E o sinal verde para o setor privado avançar sobre a compra desses imunizantes foi dado pela própria Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

O alerta de que clínicas particulares estavam negociando a compra de 5 milhões da vacina Covaxin, produzida na Índia e até então pouco mencionada – entenda mais abaixo, gerou críticas de especialistas pela velocidade com que as instituições privadas estavam se articulando, enquanto que o Plano Nacional de Imunização do Brasil para a vacinação pública e gratuita pelo governo Bolsonaro ainda está imerso em incertezas e sem confirmação de datas.

Os questionamentos variavam entre se a vacina, até então pouco falada no meio científico, era segura e, caso positivo, como instituições privadas tiveram acesso a esta negociação e, da mesma forma, por que o governo federal e outros países não tinham dado entrada, até então, nas tratativas para a aquisição do imunizante.

O GGN mostra, abaixo, que a vacina indiana estava no rol dos interesses do governo brasileiro, as razões de não ter sido tão mencionada, até então, e o que significa a decisão da Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC) de avançar para a contratação do imunizante pelo sistema de saúde privado brasileiro.

Produzida na Índia pelo laboratório Bharat Biotech, a Covaxin estava sendo acompanhada pelo Ministério da Saúde brasileiro, até que as clínicas privadas atuassem, antes, para a sua aquisição. Trata-se de uma das seis vacinas que o governo brasileiro estava dialogando para a aquisição dentro do Plano Nacional de Imunização. Entre suas características, é uma das poucas que tem como componente o vírus inativado: o mesmo método de produção foi usado somente pelas chinesas Sinopharm e Sinovac, que no Brasil fechou parceria com o Instituto Butantan.

Mesmo o governo agora omitindo as informações, o Brasil chegou a firmar um memorando de entendimento com a Bharat Biotech. A indiana entrou para o seleto grupo de 6 farmacêuticas que o país contatou, mostrando o interesse para a aquisição de vacinas.

Os acordos do governo

Além da indiana, foram fechados os memorandos com a Pfizer, Butantan, Janssen, Moderna e Gamaleya. Das seis opções, a que avançou mais rápido foi a da Pfizer, do qual o governo brasileiro conseguiu o compromisso de entrega de 70 milhões de doses em 2021 – a primeira remessa tinha o prazo estimado de entrega até junho deste ano.

Depois da Pfizer, a vacina produzida pela Janssen – farmacêutica ligada ao conglomerado da Johnson & Johnson – também obteve uma resposta deste primeiro acordo fechado pelo governo brasileiro: o laboratório poderia entregar um total de 38 milhões de doses em 2021, mas o primeiro envio poderia ocorrer somente no segundo trimestre do ano. Por isso, o governo brasileiro incluiu em sua estratégia adicionar a empresa associada da J&J no segundo plano de vacinação nacional.

Reprodução primeiro Plano de Vacinação do governo federal

A vacina chinesa CoronaVac, produzida em parceria com o Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo, estava no mesmo nível de interesse que a da Bharat Biotech listado pelo Ministério da Saúde. Aos dois laboratórios foram solicitadas informações de preços, estimativas, cronogramas de disponibilização de doses e os dados científicos.

“No que diz respeito aos demais acordos em andamento(Instituto Butantan e as farmacêuticas: Bharat Biotech, Moderna, Gamaleya) para programação logística faz-se necessário retorno das empresas sobre o quantitativo de doses disponíveis e cronograma de entrega”, expôs a pasta, na primeira versão do plano de vacinação divulgado no dia 12 de dezembro.

Mas, como amplamente divulgado pela Secretaria de Saúde de São Paulo, as doses da CoronaVac começaram a chegar no estado antes mesmo da Pfizer, a opção número 1 do governo. E, desde então, o Ministério da Saúde não divulgou as respostas de quantas doses e cronograma a indiana Bharat Biotech detinha capacidade de ofertar ao Brasil.

Curiosamente, as clínicas do setor privado obtiveram estas respostas e acompanharam, com maior agilidade, o avanço dos testes da vacina indiana no país. No dia seguinte à aprovação do imunizante pela agência regulatória da Índia, a associação já estava em contato com a farmacêutica, comprando passagens para fechar o acordo, presencialmente, esta semana.

A opção indiana não era a primeira da pasta do governo federal porque os testes da fase III da vacina não haviam sido concluídos. O mesmo ocorreu com a chinesa CoronaVac, em parceria com o Butantan – o que não impediu que o laboratório, neste caso, solicitasse o uso emergencial à Anvisa, fixando-se como a aposta mais garantida do estado de São Paulo.

Reprodução primeiro Plano de Vacinação do governo federal

Já a vacina indiana ficou nessa lista não prioritária do Ministério da Saúde, abrindo espaço para que instituições privadas avançassem por um acordo antes mesmo do governo federal.

O sinal verde para clínicas privadas

Mas ainda no início de dezembro, o presidente da Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC), Geraldo Barbosa, negava em entrevista à Rádio Gaúcha que os estabelecimentos privados iriam negociar com outros países a compra dos imunizantes.

Dizia ser “improvável” a vacinação por clínicas privadas ao mesmo tempo que o sistema de saúde público. E já indicava que havia recursos e estrutura para essa aquisição: “Esse não é o limitador para nenhuma clínica privada no Brasil. O difícil é obter o imunizantes para compra”, admitia.

Poucos dias depois, foi a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que deu o sinal verde para a atuação das clínicas privadas. No dia 14 de dezembro, a agência informou à ABCVAC que a permissão para aplicar as vacinas iria ser “simultânea” para o setor público e particular.

Barbosa admitiu que a estratégia era “vantajosa para o governo”, uma vez que as população que se dispussesse a pagar pela vacina tirariam esse custo do governo.

Naquela semana, a associação entrou em contato com os laboratórios que estavam em fase III de testes: a Pfizer, AstraZeneca, Janssen e a Sinovac. Todas as empresas responderam à entidade que a prioridade das remessas para o primeiro trimestre do ano seria à vacinação pública dos países.

Em dezembro, a ABCVAC começou a negociar também com laboratórios não contatados pelo Ministério da Saúde. Mas a resposta positiva veio, pouco depois, justamente do laboratório deixado em segundo plano pelo governo federal: o indiano.

Liberação da vacina: timing calculado

A autorização do uso emergencial do imunizante pela Índia, neste sábado (02), colocando a vacina aos olhos do mundo, pressionou os planos da ABCVAC, que no dia seguinte anunciou que havia fechado um memorando de intenção – introdução para o contrato de importação, e comprou as passagens de Barbosa e outros integrantes da associação para finalizar a negociação no próprio país, o quanto antes.

E, em meio às polêmicas de que a atuação privada ocorrerá concomitantemente com a pública, a estratégia do setor foi justamente garantir o mercado: enquanto que a pasta do governo Bolsonaro está enfocado nos demais laboratórios, a associação que representa 200 clínicas privadas do Brasil adotou a tática de, em nome da Bharat Biotech, não solicitar inicialmente à Anvisa o uso emergencial.

Dessa forma, caso o governo queira manter o compromisso de introduzir a vacinação pública no começo deste ano, precisará se garantir com outros laboratórios que estejam liberados pela entidade reguladora no Brasil.

Como o imunizante da Índia ainda não concluiu os resultados da fase III (abaixo), previsto para ocorrer até o final deste mês, a expectativa é que em fevereiro o laboratório deve entrar com o pedido de registro definitivo na Anvisa. A data, pouco depois do início da imunização pelo sistema público, é favorável para as clínicas privadas.

Estágio do estudo com a vacina Covaxin, do laboratório Bharat Biotech – Reprodução Clinical Trials

Em nota, o presidente da entidade afirmou que a venda do laboratório indiano é “adicional” e não irá “interferir” na imunização pelo sistema público.

“A gente já vem buscando saídas para o mercado privado e surgiu a possibilidade dessa vacina indiana, que é muito promissora. Como o mercado todo já estava comprometido com as demandas do governo – corretamente, porque eu acho que tem que ser prioridade –, a gente tentou uma saída alternativa. E essa indústria indiana se disponibilizou a oferecer parte da produção para o mercado privado brasileiro”, afirmou Geraldo Barbosa.

 

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