Jornal GGN – Os cientistas políticos Aldo Fornazieri, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP), e João Feres Júnior, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da UERJ, participam da mesa de análises da primeira rodada de resultados das eleições 2020 na TV GGN.
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Os cientistas políticos Aldo Fornazieri e João Feres Júnior discutem junto com Luis Nassif os primeiros resultados parciais das eleições 2020. Sobre o significado das eleições, Aldo Fornazieri diz que algumas coisas podem ser apontadas, como o fortalecimento do DEM e uma derrota muito grande do PT – “em que pese ir para o segundo turno em Recife e, talvez em Vitória”
“(O PT) Teve uma votação muito baixa, em São Paulo foi aquém do que se esperava, em Belo Horizonte teve uma votação até espantosa, em torno de 1%”, diz Aldo.
As pesquisas de boca-de-urna em Recife destacam a surpresa com a votação de Marília Arraes, que deve ir para o segundo turno contra seu primo, João Campos. Outras capitais ainda estão com um percentual baixo de apuração, e a cidade de Porto Alegre ainda não começou.
Aldo Fornazieri destaca o fortalecimento do DEM – que deve ganhar até cinco prefeituras – o fracasso no PT nas principais capitais e a vitória de Guilherme Boulos (PSOL) em São Paulo, “independente do resultado”.
João Feres Junior destaca outros fatores: “o fracasso do apoio do Bolsonaro. Não um fracasso, diria a falta de empenho do Bolsonaro de fazer um jogo político esperado por todos os políticos que querem se manter no poder”
“Depois, no que se refere ao PT, é preciso esperar o resultado para julgar se o PT fracassou nas eleições. A comparação a se fazer é com 2016, na qual o PT mostrou uma queda vertiginosa”.
“Para um partido como o PT, que é o principal partido do país em termos de identificação popular, a estratégia de longo prazo tem que estar certa. Ou seja: o PT tem que lançar candidatos na maior quantidade de cidades possíveis”, diz Feres Junior. “O PT tem que estar com suas propostas presentes em todas as eleições, inclusive para criar recall, para criar a possibilidade do eleitor confiar que sempre vai ter aquela opção do PT para representar uma posição de políticas sociais, de esquerda, uma esquerda viável do ponto de vista institucional.
Para Feres, isso também é fundamental como estratégia de longo prazo para a desconstrução do antilulismo e do antipetismo. “Por outro lado, o partido não tem uma estratégia para desmontar isso a não ser a eleitoral. É preciso criar outras coisas para acelerar o processo”.
Sobre a volta do DEM, Feres diz que o partido cresceu já nas eleições de 2016. “O DEM, na verdade, é a direita que vai competir inclusive com os votos de Bolsonaro. Para 2022, coloca esse campo da direita em um conflito bem antecipado”
Com relação à renovação da política à esquerda e à direita, Aldo Fornazieri diz que a direita tem se renovado mais do que a esquerda. “Isso ficou evidente nas eleições, principalmente nas eleições parlamentares de 2018, e também vem projetando novos candidatos a prefeito”.
“A esquerda, principalmente o PT, ficou meio parado no tempo (…) O PT, quando você joga você tem que saber quais os seus adversários e o PT, na verdade, entrou na defensiva em 2015/2016 e de lá não saiu”, explica. “O PT tem uma direção fraca, não tem uma boa comunicação e não pode se lamentar pois tem a maior verba partidária do país. O que ele faz com uma verba partidária que ele não consegue estruturar uma comunicação para os militantes e para a base eleitoral?”, diz Fornazieri
“Se você for olhar o discurso político do PT nos últimos três/quatro anos, é um discurso defensivo, nostálgico, voltado para o passado, um discurso de lamentação e de lamúrias. Política não se faz assim”, destaca Aldo Fornazieri. “O Boulos é uma projeção de liderança significativa, e tem que trabalhar essa liderança. E existe uma possibilidade dele vencer as eleições em São Paulo”, diz Fornazieri
Feres Junior concorda com Fornazieri, ressaltando que, do ponto de vista da renovação, a renovação do PT é a pior renovação possível. “Um partido que tem dificuldade de produzir novas lideranças (…) Em grande medida, porque a figura do Lula é muito forte e acaba eclipsando o surgimento de muita gente. Ou mesmo a procura do partido por outras pessoas que se destaquem”, diz João Feres Junior.
“Mesmo o (Fernando) Haddad. que está sendo ungido como a próxima grande liderança do PT. Mas precisa de mais gente, criar competição dentro do partido pela liderança, uma competição saudável, que você tenha mais gente surgindo com capacidade de liderar”
“Os candidatos de direita, por um lado, eles se renovam mas a linguagem é muito parecida com o que sempre foi. Não sei se o sucesso relativo de partidos como DEM e PSD se deve a alguma renovação.
Para Feres Junior, partidos como DEM e PSD acabaram por preencher um vácuo: o dos eleitores que viram que o Bolsonaro “é completamente lelé da cuca”, mas que também não votam na esquerda. “O Bolsonaro capturou esses votos, mas ele não cria nenhuma outra liderança. Ele trai todo mundo a não ser os filhos dele (…)”, diz João Feres Junior.
Aldo Fornazieri destaca a boa votação de candidatos do PSOL, como em Porto Alegre, Belo Horizonte e em Belém do Pará. “Acho que o PSOL está adotando uma estratégia correta de projetar lideranças”.
Fornazieri destaca o avanço do DEM – “penso que o DEM, em certo sentido, ocupou um espaço que era do PSDB (…) – ao assumir o discurso de defesa da democracia e um discurso social, “dando ênfase ao problema da desigualdade no Brasil”
Para Feres Junior, “o prognóstico é que o PSDB vai voltar a diminuir, e o DEM cresceu. Quem lembra do PSDB, tinha presença fortíssima nos municípios, e o DEM não é mais o partido dos coronéis nordestinos”
Sobre o avanço de Crivella, João Feres Junior destaca a estratégia de comunicação adotada pelo prefeito – “ele começou com uma coisa bastante cristã e bolsonarista, tentou fazer uma coisa de propostas, começou a atacar Paes e fechou no bolsonarismo, quando conseguiu aquele vídeo com o Bolsonaro”
A estratégia foi a fidelização do voto evangélico e do voto bolsonarista. “Ao invés de capturar o voto do centro, os evangélicos o levam para o segundo turno – 30% da população é evangélica”
“Agora, ele usou a mesma estratégia e parece que vai conseguir fidelizar o suficiente para ir ao segundo turno, mas o candidato Crivella tem uma rejeição monstruosa, e contra Eduardo Paes que tem uma aprovação muito grande”, diz João Feres Junior.
Sobre a disputa de Porto Alegre, Aldo Fornazieri diz que “dificilmente” Manuela d’Ávila sairá vencedora. “A chance que ela teria seria contra o prefeito, que não foi para o segundo turno. O (Sebastião) Mello saiu com uma vantagem por obter o apoio do (José) Fortunati, e praticamente duplicou a intenção de votos”
Em Fortaleza, destaca-se o avanço de Capitão Wagner, um dos únicos candidatos apoiados por Bolsonaro à frente nas pesquisas. “O capitão Wagner é um bolsonarista moderado, e a greve das polícias foi um fator importante para a ascensão dele. Ele apoiou os motins e se constituiu em uma alternativa. O que teria de se explicar é o declínio do PT”, diz Aldo Fornazieri.
“O PT tem que se preocupar com o Nordeste para 2022, pois algumas lideranças fortes não poderão concorrer e como será a renovação a partir daí?”, diz Fornazieri.
“Em um segundo turno, é bem provável que o Sarto vença”, diz João Feres, e Fornazieri complementa como fator a ser considerado uma eventual aliança entre o PDT de Ciro Gomes e o PT.
O que seria uma comunicação eficiente? Para João Feres Jr, o PT e a esquerda saíram na frente nas redes sociais. “A partir de 2013 e de todo processo que se desenvolveu, a nova direita se profissionalizou – começaram a pagar gente, e isso faz toda a diferença”
“Teve momentos de grande mobilização da esquerda, como a prisão do Lula ou o impeachment, e a esquerda faz frente no pós-2013 nas redes sociais. E em 2013, eles começaram a trabalhar profissionalmente, e a estar presentes nas redes sociais”
“O Bolsonaro, na verdade, foi criado assim. Para se ter uma ideia, no começo do ano de 2018 o Bolsonaro entrou o ano com 4 milhões de seguidores no perfil dele no Facebook, era duas vezes mais do que o Lula”, diz Feres. “O Bolsonaro se constituiu como uma personagem das redes sociais há tempos”
“O que o PT tem que fazer? Precisa ser uma estratégia dupla: no tocante às redes sociais, precisa conjugar profissionalismo com militância. Para isso precisa de muito planejamento. Também é preciso um plano para a grande mídia”, diz Feres Junior.
“A gente sabe o que aconteceu: as grandes empresas de mídia continuam tendo quase o monopólio sobre a produção de informação política. Então, o PT tem que ter uma estratégia para isso também, que é muito difícil, mas não pode abrir mão, inclusive como meio de desmontar o antipetismo”
Para Aldo Fornazieri, é preciso ter uma certa cautela com relação a onda de ódio personficada por Bolsonaro e Donald Trump. “Acho que o trumpismo vai declinar pois não existe trumpismo sem Trump, mas existe evangelismo conservador sem Trump”
“Aqui, o bolsonarismo não é a mesma coisa: era uma militância enlouquecida (…) Tem um bolsonarismo eleitoral, que é uma coisa muito difusa e que a esquerda hostiliza, que é um pessoal que também não é ideologicamente engajado”, ressalta Fornazieri
“O que existe na política brasileira é uma enorme confusão e uma falta de viasualização do que está acontecendo. Acho que o Bolsonaro está em uma situação muito pior do que a do Trump”, diz Fornazieri.
A própria presidente do PT, Gleisi Hoffmann, admitiu em entrevista ao Cai na Roda, conduzido pela redação do Jornal GGN, a existência de falhas na comunicação do partido que precisam ser sanadas. A íntegra pode ser vista abaixo:
Ao analisar a situação da esquerda, João Feres Junior diz que “produzir governabilidade em uma agenda de centro-esquerda, por tanto tempo, é uma coisa que o PSOL nunca fez. Pelo contrário, rejeita de forma doutrinária, o que é preocupante”
“Depois de tantos anos de um governo de centro-esquerda, o PSOL deveria ter aprendido que existem problemas concretos a serem enfrentados quando você é governo”, explica Feres Junior. “Mas os caras caem repetidamente vítimas dessa crítica”
“O Marcelo Freixo é um político, do ponto de vista de marketing, muito sisudo, não dá um sorriso (…) E isso se traduz em uma atitude arrogante, e é um cara que nunca conseguiu voto popular no Rio”, explica Feres Junior. “A agenda é muito preocupada com segurança, mas falta a velha e boa luta de classes, colocar a questão da distribuição como uma questão fundamental”.
ANTONIO JOSÉ LOPES
15 de novembro de 2020 8:47 pmO Aldo diz que o PT tem uma direção burocrática e fraca mas não fala nada para o fato de que Tatto é a expressão desta visão de partido. Um partido como o PT não deveria ter um “dono” de diretório municipal ou coisa do tipo.
Naldo
15 de novembro de 2020 10:24 pmO que tem de cirista enrustido hein seo Nassif….