#eleNão, por Fernando Horta

#eleNão, por Fernando Horta

A hashtag é forte. O movimento parece mais forte ainda.

A comunidade criada nas redes sociais “Mulheres contra Bolsonaro” já contava com 1,83 milhões de mulheres e mais 1,2 milhão esperando para serem adicionadas. O trabalho de aceitação, ouvi dizer, é minucioso uma vez que há robôs e todo tipo de tentativas de sabotagem característico das redes. Inúmeros atos presenciais já se formam em todas as cidades do Brasil e, se me permitem dizer, o Brasil agradece.

Não é a primeira vez na História que mulheres, cientes de seu papel e sua importância tomam a política das mãos machistas e a viram de ponta-cabeça. Ou seria melhor dizer “colocam a política no lugar”? Na antiga Grécia, Aristófanes escreve “Lisístrata” em que narra a revolta de mulheres contra a Guerra do Peloponeso (V a.C). Segundo o comediante, revoltadas com a situação de tensão social da guerra, as mulheres apelaram para uma greve de sexo para obrigarem os homens a assinarem a paz. A paz foi assinada.

Lisístrata, porém, nada tem a ver com o movimento de hoje. A reunião de mulheres contra Bolsonaro não pressiona homens (tomados como vetores da política) mas, de uma forma fortemente simbólica, tira deles a lança da atitude e se impõe no campo político como uma força própria, coesa e legítima a declararem a não aceitação do fascismo. Não se trata de mulheres que pressionam nada nem ninguém, mas da expressão mais forte de um grupo político toma as rédeas de seu destino, sem pedir licença nem concessão.

O movimento brasileiro está mais para o das mulheres após a primeira guerra mundial. Quando a redução de homens (mortos pela guerra) obrigou a sociedade a aceitar imediatamente as mulheres no mundo da produção. Das fábricas elas exigiram as ruas. Das ruas elas exigiam o voto. Este movimento, na Rússia, iniciou a Revolução de Fevereiro de 1917, com uma enorme marcha de mulheres que não teve nos bolcheviques o seu início. Lênin diria a Clara Zetkin (feminista alemã) que a Revolução de Outubro seria impossível sem as mulheres. Ele tinha razão.

No ocidente, contudo, as mulheres foram esmagas exatamente pelo nazi-fascismo, e o exemplo mais doloroso é o da morte de Rosa de Luxemburgo. Espancada nas ruas Berlim em 1919. Em todo o hemisfério ocidental, os movimentos de mulheres foram atacados com força bruta, e o medo da emancipação delas é um dos combustíveis de fortalecimento do nazismo e do fascismo. Enquanto na União Soviética as mulheres ganhavam as fábricas, o exército e um enorme espaço na vida política (ainda que não numericamente igualitário), na Alemanha, ficavam restritas à “Kinder, Küche, Kirche” (crianças, cozinha e igreja).

Em tempos do ressurgimento de um militarismo indigesto e inaceitável, a caserna lembra com assombro das palavras de Márcio Moreira Alves no parlamento, no dia 02 de setembro de 1968, quando incitava que as mulheres iniciassem um boicote social em nome da democracia. Cincoenta anos depois, as mulheres brasileiras decidem não esperar por um novo golpe. Tomam a grande ágora que se transformou as redes para dizerem em alto e bom tom “#eleNão”.

E sob os pés delas, o Brasil treme.

Um conhecido disse-me, entre machismos e medos, que a comunidade era “o sonho de um vendedor do Avon”. Sugeri que ele dissesse isto diretamente na comunidade, com sua carinha de bom moço, nome, endereço completo e telefone. Por algum motivo, ele fraquejou.

Um novo Brasil parece surgir, e é definitivamente mais mulher.

 

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