306 x 232: Como e quando a vitória de Biden sobre Trump se tornou previsível, por Felipe A. P. L. Costa

Falar em lerdeza dois dias após a eleição foi um exagero. Ou talvez tenha sido apenas um exercício de retórica visando instigar a audiência ou preencher o vazio criado pela desinformação e pelo desconhecimento.

306 x 232: Como e quando a vitória de Biden sobre Trump se tornou previsível

por Felipe A. P. L. Costa [*].

A votação presencial para escolha do próximo presidente dos Estados Unidos ocorreu no dia 3/11.

Dois dias depois, na falta de resultados oficiais conclusivos, já tinha gente por aqui reclamando que a apuração estava lenta. Cheguei a ouvir jornalista dizendo que o sistema eleitoral dos Estados Unidos estava a anos-luz do sistema brasileiro…

Antes de tudo, não custa lembrar: o pleito envolveu uma porção de coisas, além da presidência do país. (Os eleitores também votaram em candidatos a deputados federais e senadores, por exemplo. Além disso, teve estado que fez consulta sobre temas e problemas locais.)

Falar em lerdeza dois dias após a eleição foi um exagero. Ou talvez tenha sido apenas um exercício de retórica visando instigar a audiência ou preencher o vazio criado pela desinformação e pelo desconhecimento.

Breve recapitulação.

Em artigo escrito na tarde do dia 4, e publicado neste GGN no mesmo dia (ver Os números que levam à Casa Branca), eu já alertava para o fato de que o candidato democrata, Joseph ‘Joe’ Biden, estava virando os resultados iniciais (desfavoráveis a ele) e deveria vender a corrida eleitoral. E tudo indicava que seria uma vitória relativamente folgada.

Eis o que escrevi no dia 4 (no artigo publicado no GGN e/ou em comentário publicado à noite, em outro lugar):

Segundo o The New York Times, seis estados ainda não seriam capazes de apontar um vencedor. (Segundo o britânico The Guardian seriam cinco.) São eles (entre parênteses, o número de delegados a serem eleitos em cada estado): Alasca (3), Nevada (6), Arizona (11), Pensilvânia (20), Carolina do Norte (15) e Geórgia (16).

Joe Biden lidera em dois desses estados (Nevada e Arizona). Caso se mantenha na liderança, obterá mais 17 delegados. Somados aos 253 que já tem, ele alcançaria os 270. Exatamente o número mínimo que precisa para vencer.

Ocorre que Biden está a avançar na Geórgia e na Pensilvânia. E o avanço é suficientemente rápido para levar a uma virada. O que deverá ser verificado (em um ou em ambos os estados) nas próximas horas. Com essa dupla virada, seriam mais 36 delegados. Salvo melhor juízo, portanto, o resultado final seria: 306 (Biden) x 232 (Trump).

Monitorando a Pensilvânia.

Não tenho bola de cristal. Nem foi um mero golpe de sorte. (Embora, a rigor, ainda estejamos longe dos resultados finais.)

O que aconteceu, então? Apenas decidi acompanhar de perto o que estava se passando.

No dia 4, eu passei a monitorar os resultados de dois estados, a Geórgia e, sobretudo, a Pensilvânia [1].

Neste último caso, logo percebi que o percentual de votos destinados ao candidato democrata crescia à medida que aumentava o total de votos apurados (ver a figura que acompanha este artigo). E não era uma relação frouxa ou errática. Ao contrário, era uma relação estreita e consistente, a ponto de permitir que se calculasse como e quando o candidato democrata ultrapassaria o republicano. E não deu outra…

Como diria um vizinho aqui de casa, um miligrama de matemática dissolvido em água costuma ser mais útil do que uma tonelada de conversa fiada e perdigotos.

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FIGURA. A figura que acompanha este artigo ilustra a estreita relação existente entre o número de votos apurados no estado da Pensilvânia (eixo horizontal) e o percentual de votos destinados ao candidato democrata (eixo vertical). Observe como a linha tracejada toca ou passa perto de quase todos os pontos, um sinal de que a relação é bastante significativa e nada tem de aleatória. Joe Biden assumiu a liderança na tarde do dia 6 (ponto em vermelho escuro).

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Coda.

Diante da inevitável derrota, a respeito da qual, aliás, deve ter sido informado já no dia 4 (ou mesmo no dia anterior), restou a Donald Trump fazer beicinho e gerar confusão.

Como já tive chance de escrever em artigos anteriores, ele não quer largar o osso. Está quebrado e endividado. E é um sonegador. Os cães estão esperando por ele do lado de fora e os petiscos acabaram. Tem medo do que o espera: a sarjeta ou o xilindró.

Enquanto isso, os EUA seguem a bater recordes sucessivos no número de novos casos de Covid-19.

O atual presidente dos EUA despreza todo mundo, a começar pelos seus próprios compatriotas. Porém, ainda que a custa de muito fórceps, ele será enxotado de Washington.

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Notas.

[*] Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] Estou a acompanhar os resultados das eleições estadunidenses com base nos números divulgados por dois jornais, The Guardian e The New York Times.

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