22 de junho de 2026

Rosebud, por Felipe Bueno

Longe de mim querer a morte do cinema dos Estados Unidos, longe de mim acreditar que isso um dia possa acontecer.
Cidadão Kane - Divulgação

Rosebud

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por Felipe Bueno

O desejo de recontar a História – a do passado e a do futuro – é claro em Donald Trump, que, longe de ser um navegante solitário, é apenas um, obviamente um dos mais poderosos do momento, a cultivar esse tipo de devaneio. Histriônico e agressivo, ele passou os primeiros meses de sua nova gestão apontando o dedo indicador ao mundo, no mais puro estilo Tio Sam.

Chegou a vez do cinema. Trump bradou que filmes produzidos fora do país serão taxados com tarifas de 100%, um remédio para tentar reverter o quadro de “morte muito rápida” da indústria local.

Me pergunto porque nós, estúpidos, não tínhamos percebido até outro dia que há um “esforço conjunto” internacional com o objetivo de invadir econômica e ideologicamente o território dos Estados Unidos da América pela via cinematográfica, ameaçando a pobre sociedade nativa com “mensagens e propaganda”. Não tardará para que as palavras de Trump sejam avalizadas e ecoadas por estudiosos da chamada sétima arte que, admitamos, já teve dias melhores.

Ainda que há anos exista na verdade um movimento inverso de fuga, fazendo com que nos lembremos de que às vezes o que impressiona mesmo não é quando os ratos entram, mas sim quando tentam fugir do navio.

Mas, obviamente por má-fé, essas mesmas vozes vão omitir o que foi nas últimas décadas a invasão de “mensagens e propaganda” perpetrada por Hollywood. Fiquemos, por exemplo, com o que ocorreu nas salas de cinema da Europa antes, durante e depois da 2a Guerra Mundial.

E quando analisamos o universo do soft power, qualquer “commodity” do gênero traz em si muito mais que o valor individual do produto: junto vêm a transferência ideológica, a produção de influência comportamental e estética, a construção de necessidades, a geração de expectativas, o estabelecimento de futuras memórias afetivas e muito mais.

De Orson Welles a Woody Allen, de Stanley Kubrick a Quentin Tarantino, de Robert Altman a David Lynch, e que o deus dos 35 mm não me permita esquecer de Martin Scorsese e tantos outros nomes; longe de mim querer a morte do cinema dos Estados Unidos, longe de mim acreditar que isso um dia possa acontecer. Mas deixo a pergunta: se as Big Five fechassem suas portas amanhã para sempre, por quantos séculos ainda consumiríamos o que elas nos venderam durante todo esse tempo?

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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  1. Rui Ribeiro

    7 de maio de 2025 9:08 am

    É o universo uma grande ilusão?
    Eu já tive essa sensação por um instante. Foi quando minha Mãe morreu e fomos devolver seu corpo ao pó. Quando a colocaram na sepultura e a enterraram, a sua irmã estava em torno da sepultura e começou a falar. Como eu olhava para a sepultura e não a vi de imediato falando, pensei que era a voz da Minha Mãe e que tudo não passava de uma grande ilusão. Então a ficha caiu definitivamente.

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