Desolação e Dissolução, por Marilza de Melo Foucher

Os resultados das eleições europeias, mesmo levando em conta o avanço da extrema direita ainda não é dominante no parlamento europeu

Reprodução vídeo Euronews

Desolação e Dissolução

por Marilza de Melo Foucher

Diante da televisão, como todos os franceses, assistimos com desolação a vitória da extrema direita na França. Depois de uma hora de discussões sobre as eleições e a fala dos candidatos, o Presidente da República Francesa interrompe os debates para anunciar solenemente a dissolução da assembleia e convocar novas eleições! Apenas 3 semanas para organização, o primeiro turno 30 de junho e o segundo 7 de julho! Tudo isso em período de início das férias de verão na França e a organização dos jogos olímpicos! Macron brinca de piromaníaco e pode incendiar a 5°. República francesa! Estas eleições legislativas podem ter como resultado uma coabitação com a extrema direita que pode desestabilizar a democracia francesa.

Os resultados das eleições europeias, mesmo levando em conta o avanço da extrema direita, felizmente, ainda não é dominante no parlamento europeu. Apesar destes avanços sobretudo em países como a França, Itália, Áustria, a extrema direita não consegue desestabilizar o parlamento europeu. A coligação de moderados composta pelo PPE de direita, – uma espécie de centrão europeu – os sociais-democratas e os liberais do Renew mantêm uma maioria de cerca de 489 assentos em 720. Todavia, sua progressão representa um sinal de alerta! Se fosse maioria seria uma catástrofe sobretudo em relação à luta contra as alterações climáticas e o colapso da biodiversidade.  Quando um país como a França vota 37% na extrema-direita trata-se, indiscutivelmente, de   um fracasso e um perigo real, em relação não somente aos retrocessos sociais adquiridos na área de direitos fundamentais como no campo específico das políticas ambientais.

Segundo dados oficiais do Ministério do Interior a extrema direita do R.N (Rassemblement National) obteve 31,4% dos votos, enquanto a lista da maioria presidencial “Renascença” (partido do Macron) registou 14,60% dos votos. O Partido Socialista/Praça Publica 13.8%; A França “Insoumise” (insubordinada) 9,9%; Os Republicanos 7.2%; Europa Ecologia, Verde 5,5%; a Reconquista 5.5% (extrema direita).

Basta hoje verificar o mapa eleitoral da França que ele aparece, em sua maioria, em cor azul marinho. O RN ocupa o primeiro lugar em mais de 29.000 dos 35.000 municípios franceses e realizou avanços espetaculares em 18 regiões importantes como a Bretanha, Haute Marne, Pyrenees, Pas de Callais, dentre outros. Jordan Bardella, o candidato da extrema direita, domina amplamente nas áreas rurais e periféricas. Ele foi de longe o candidato com maior exposição mediática e, infelizmente, na grande maioria dos casos, os jornais raramente se referem às suas frequentes mentiras e comentários falaciosos. Uma grave falha mediática, uma escolha deliberada de meios de comunicação que preferem o “buzz” à verdade, obviamente não vendo qualquer problema com a tomada do poder pela extrema-direita em França. Aliás, nesses últimos anos a mídia francesa banaliza a extrema direita que passou a ser “limpinha e cheirosinha”. Nesse processo, Marine Le Pen deixa de ser a filha de Le Pen negando, assim, a herança da extrema direita nazista de seu pai. Uma tática política para conquistar novos eleitores que vem funcionando, com êxito, ao longo dos anos. Assim, a extrema direita, vai paulatinamente afastando-se do seu legado nazista e fascista o que certamente contribui para o aumento de sua popularidade.

Além desse fator, acrescente-se ainda a crescente despolitização na França sobretudo com a entrada de canais de informações permanentes, pertencentes aos grandes grupos econômicos, subordinam o jornalismo, ao mesmo tempo que “enterram” o direito ao   contraditório, característica dos grandes embates de ideias na França. Nesse cenário, as fake-news da extrema direita são naturalizadas pelos meios de comunicações tendo como consequência imediata um processo crescente de desinformação.

Além dos meios de comunicações, a direita e centro direita, “aliados de ocasião” do Presidente Macron, se constituem como grupos parlamentares importantes nos processos legislativos favorecendo ao governo em certas reformas que lhes convém. O parlamento é o local privilegiado para normalizar a extrema direita dentro do arco republicano! O partido de Macron e seus aliados marginalizaram o grupo de esquerda – NUPES, (a aliança das esquerdas) que, segundo a presidência da assembleia, estavam “fora do arco republicano”. De modo pejorativo eles foram considerados de extrema esquerda, sem levar em conta sua pluralidade. Nesse contexto, a extrema esquerda passa a ser vista como perigosa e baderneira. Os macronistas zombam e desprezam qualquer proposição advindas dos grupos de esquerda, enquanto os votos da extrema direita são, via de regra, muito bem-vindos! Enquanto isso, a mídia hegemônica passa a imagem da bancada parlamentar da extrema direita com ordeira, justa, bem-comportada!

 Vale ressaltar que o Presidente Macron nunca teve um cargo eletivo. Tecnocrata proveniente do mundo das finanças, Macron entra na cena política alçado ao cargo de Conselheiro Político por intermédio de François Hollande do Partido Socialista. Na sequência, Macron será um dos principais Ministros do governo socialista ao assumir o Ministério de Economia, da Industria e “Numerique” durante o governo do ex-Presidente François Hollande. Posteriormente, quando Hollande sofre uma baixa na sua popularidade, Macron se afasta de seu padrinho político e entra na campanha presidencial como “antissistema”. Em sua autodescrição, Macron afirma não ser nem de esquerda e nem de direita. A posição do famoso “nem nem” representa, na prática, a negação da própria política. A partir de então, forma uma equipe de jovens “raposas” ambiciosos que se dizem, tal como seu mestre, nem de esquerda e nem de direita. Enquanto isso, Macron se projeta na mídia francesa, igualmente cúmplice do curioso processo no qual a desqualificação da política credencia o candidato a adentrar no campo político.  Não por acaso, são esses canais de televisões de “desinformações” permanentes que servem de base de propaganda tendo como “carro chefe” a ideologia neoliberal. Coincidência ou não, são os mesmo que ajudaram a limpar a imagem de Marine Le Pen.

À parte os métodos de conquista e permanência de macroninanos, seria injusto não destacar o papel decisivo dos socialistas nesse processo sobretudo quando renunciaram às conquistas de direitos sociais e se curvaram aos preceitos neoliberais. Por outro lado, a renúncia do papel histórico na defesa das classes    populares, teve como efeito colateral o afastamento progressivo de seu antigo fiel eleitorado. Assim, não seria exagero afirmar que François Hollande foi um dos atores mais importantes na quase destruição do Partido Socialista. Sob a emoção dos atentados em Paris seu governo tentou passar o projeto da perda da nacionalidade para migrantes, abdicando, assim, ao processo de defesa da imigração no projeto coletivo de construção nacional.

Os partidos de esquerda (Partido Socialista, Partido Comunista, Ecologistas e França Insoumise) anunciaram, segunda-feira, 10 de junho, que pretendem “apoiar candidatos únicos no primeiro turno” das eleições legislativas, num comunicado à imprensa também assinado pela “Praça publique”, Gerações. “Em cada circunscrição eleitoral, queremos apoiar candidatos únicos no primeiro turno”, apresentando “um programa de ruptura”, escrevem os partidos signatários. Conjuntamente chamaram seus militantes, eleitores(as) também a “juntar-se às manifestações” planejadas para este fim de semana a pedido da CFDT, da CGT, da UNSA, da FSU e do Solidários e a “manifestar-se amplamente”.

Foi igualmente publicado no jornal “le Monde, assinado por mais de 350 personalidades da sociedade civil francesa, o seguinte manifesto: “Só a união da esquerda e dos ambientalistas pode barrar esta perspectiva terrível [da extrema direita no poder] e abrir esperança para uma vida melhor. Só esta união pode reunir as classes médias e trabalhadoras das cidades e subúrbios, comunas e metrópoles, tal qual foi feito no passado. Só esta união pode agir com seriedade face à tripla emergência climática, social e democrática”.

A negação da política, a banalização do passado nazista e fascista da extrema direita nos deixa perplexos, porém, só uma forte mobilização de todos os cidadãos e cidadãs franceses podem frear a destruição dos valores que nortearam a fundação da república francesa. Fraternidade Igualdade e Liberdade. A negação da política sempre teve resultados nefastos.

Marilza De Melo Foucher – Economista e jornalista. É colaboradora e blogueira do Mediapart em Paris

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