Ucrânia: nacionalismos e o desmoronar da União Soviética, por Carlos Vianna

Desde estas priscas eras, a Ucrânia foi objeto de constantes invasões, quer bárbaras quer de seus vizinhos mais poderosos

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Ucrânia: nacionalismos e o desmoronar da União Soviética

por Carlos Vianna

O professor Osvaldo Coggiola, no excelente artigo “Ucrânia-Rússia: uma história conturbada”, que pode ser lido no “A Terra é Redonda”, faz um resumo indispensável da História dos países em conflito. De sua leitura fica claro que sem o conhecimento desta história milenar não é possível compreender o conflito e, em particular, três fenômenos a ele relacionados, de natureza histórica, política e ideológica que estão na essência do conflito: os nacionalismos, a guerra fria entre as duas grandes potências (1945-1991) e o desmoronar da União Soviética.

Procurarei aqui valorizar as causas endógenas do conflito, sem descurar de seu enquadramento na crise de poder no mundo atual, tendente a criar mediante muitas situações de tensão, um mundo multipolar ou, no mínimo bipolar.

O artigo do professor Coggiola mostra, à exaustão, a importância da História para entender não só o conflito, mas o suceder de guerras territoriais e imperialistas, no sentido de expansão dos territórios de uma dada potência, que marcou a Europa, há vários séculos. Esclarece o professor e perdoem-me a extensa citação:

“Historicamente, contrariando Putin, poderia se dizer que foi a Rússia a que emanou da primitiva Ucrânia, não o contrário. O primeiro Estado eslavo (ou “russo”) na região foi o Rus’ de Kiev: ele esteve a partir do século X na órbita de Bizâncio, com seu cristianismo “místico” (chamado de ortodoxo) e sua liturgia em língua grega, diferenciado do cristianismo “neoplatônico” e latino de Roma. Pouco tempo depois foi introduzido o primeiro código de leis da região, o Russkaya Pravda.”

Desde estas priscas eras, a Ucrânia foi objeto de constantes invasões, quer bárbaras (mongóis em 1240) quer de seus vizinhos mais poderosos, Polônia, Lituânia (século XIV) e Rússia, não só a tzarista como a soviética. As guerras camponesas nos atuais territórios da Ucrânia e Bielo-Rússia (século XVI), que afrontaram a dominação polaca, também marcaram a história de toda a região.

Esclarece o professor:

“A comunidade camponesa era constituída por ucranianos e bielorrussos que fugiam da opressão dos senhores, dos dvoryane e seus funcionários. Por volta de 1640-1650 rebentou por toda a Ucrânia e Bielorrússia uma revolta popular em larga escala. Os camponeses, chefiados por Bogdan Khmelnitsky, tiveram o apoio dos cossacos e dos habitantes pobres das cidades; a guerra começou na primavera de 1648. Os camponeses começaram a ajustar contas com os nobres polacos e com os proprietários ucranianos locais: em breve a revolta se espalhou por toda Ucrânia e Bielorrússia. Depois de algum tempo, o Estado russo apoiou a luta camponesa ucraniana contra os suseranos polacos. Destacamentos de cossacos do Don e habitantes das cidades tomaram parte nela.

“No final do século XVIII, entre 1793 e 1795, ficou definida a partilha da Polônia entre a Prússia, a Áustria e a Rússia, que ficou com os territórios situados à leste do rio Dniepre, enquanto a Áustria ficou com a Ucrânia Ocidental (com o nome de província da Galícia). Em 1796, a Rússia passou a dominar também territórios a Oeste do Dniepre, a “Nova Rússia”. Os ucranianos tiveram um papel importante no Império Russo, participando das guerras contra as monarquias europeias orientais e o Império Otomano, assim como ascendendo aos mais altos postos da administração imperial e eclesiástica russa. Posteriormente, o regime czarista passou a executar uma dura política de “russificação”, proibindo o uso da língua ucraniana nas publicações e publicamente. No século XIX, o “pan-eslavismo” se desenvolveu em toda a Rússia como ideologia de uma “modernização conservadora”, favorecida pelo czarismo em suas relações com o Ocidente.”

Todas estas informações, ainda que incompletas, em relação a tantas invasões, guerras, anexações e desanexações de muitos territórios na Europa a leste da Alemanha, são ilustrativas da inconstância e da violência da dominação ou intervenção dos impérios mais fortes, russo, turco, austríaco, inglês (guerra da Criméia) nos territórios da Ucrânia, Bielo-Rússia, Moldávia e outras zonas dominadas. Volto aqui a recomendar a leitura completa do artigo do Prof. Coggiola.

A outra face da moeda da dominação é a resistência que podemos chamar, com alguma liberdade de expressão, de nacionalista e de defesa dos interesses das classes subalternas, em especial, dos camponeses. Há, ao longo de séculos, um caráter de classe, às vezes difuso, na afirmação de valores e símbolos nacionais (a língua, a religião, os costumes e cultura) dos ucranianos, face aos seus muitos dominadores, em especial a Polônia seguida da Prússia e Áustria, a oeste e da Rússia Czarista no século

XIX. A história da Europa é marcada até hoje pelo ideário difuso do Nacionalismo e os exemplos ainda atuantes são vários (Escócia, Catalunha, Irlanda do Norte, Kosovo, Tchechênia, Geórgia…).

No século XIX e no início do XX a questão nacional se colocava como uma das mais importantes, a par do crescimento das lutas operárias e dos ideários socialistas disseminados no século XIX. O nacionalismo, a luta pela criação ou afirmação de Estados Nacionais e democráticos em territórios que eram dominados por potências estrangeiras, estranhas e hostis à maioria dos habitantes, estavam na ordem do dia. Basta lembrar que foi a ação de um nacionalista sérvio, executor do príncipe herdeiro do império austro- húngaro, o estopim da I Guerra Mundial. A dominação na Europa a leste da Alemanha, sobre vastos territórios e nações sem Estado por parte dos grandes impérios (russo, turco, austro-húngaro, Prússia depois alemão, após a unificação de Bismark) marcou estes anos e suscitou, já nos primeiros anos do século XX um intenso debate sobre a “Questão Nacional”. Lênin debateu duramente com Rosa Luxemburgo, que desprezava a dita questão e as ambições de muitos povos, inclusive parte das elites econômicas no campo democrático-nacionalista. Um intelectual marxista australiano, Paul Mattik, escreveu em 1935:

“A maneira de Kautsky, que em muitos aspectos foi seu mestre espiritual, Lênin estava convencido do caráter progressista dos movimentos de independência nacional, atendendo a que – dizia – “O Estado nacional oferece incontestavelmente melhores condições ao desenvolvimento do capitalismo”. Sustentando contra Luxemburgo que a palavra de ordem da auto-determinação dos povos é revolucionária, porque se trata de “uma reivindicação que em nada difere das outras reivindicações democráticas”, Lênin proclamava: “Em todo o nacionalismo burguês de uma nação oprimida existe um conteúdo democrático e é esse conteúdo que apoiamos sem restrições”… “Seria um erro capital acreditar que a luta pela democracia é suscetível de desviar o proletariado da revolução socialista, eclipsar esta, esbatê-la, etc. Pelo contrário. Do mesmo modo que é impossível conceber um socialismo vitorioso que não realize a democracia integral, também o proletariado não pode preparar a vitória sobre a burguesia se não fizer uma luta geral sistemática a revolucionária pela democracia”.

Vê-se assim claramente que, segundo Lênin, movimentos e guerras de tendências nacionalistas têm por único objetivo instaurar a democracia, devendo o proletariado participar nelas visto que, ainda seguindo Lênin, “a democracia é uma etapa obrigatória na luta pelo socialismo”. “Se a luta pelo socialismo é uma luta justa, diz, a guerra pela democracia é justa também” e, por consequência, “numa guerra verdadeiramente nacional as palavras “defesa da pátria” não são de modo algum um engano”. Eis porque Lênin é de opinião que em tal caso e “desde que a burguesia de uma nação oprimida lute contra a nação que a oprime, nós estaremos sempre do lado daquela e mais decididamente do que quem quer que seja”. E acrescenta: “porque nós somos o inimigo mais encarniçado e mais consequente da opressão”[1]

Lenin escreveu textos sobre a auto-determinação dos povos, que defendia, ao contrário de Rosa Luxemburgo, que só via uma saída para o êxito da revolução russa, o desencadear de revoluções proletárias em outros países europeus, em especial, na Alemanha. Tal não aconteceu, apesar de algumas tentativas heróicas. Rosa Luxemburgo foi assassinada brutalmente por milícias de direita em 1919. A Rússia ficou isolada e terrivelmente pobre depois de um suceder de guerras civis apoiadas por grandes potências. Mas as venceu e estendeu o modelo soviético às regiões do Leste, do Cáucaso, dos Urais, principalmente pela força do Exército Vermelho liderado por Trotski. A revolução russa foi um assalto ao poder ousado e bem sucedido, dirigido por um partido com ligações e prestígio às massas trabalhadoras de algumas poucas cidades e parte dos soldados do exército czarista derrotados na I Guerra Mundial. O poder do partido e do novo exército em formação cresceu no calor da guerra civil e espraiou-se a outras regiões além da Rússia europeia. Frente ao seu isolamento e à não extensão da onda revolucionária para o oeste, os seus interesses nacionais e a necessidade de sobrevivência e reerguimento econômico passaram a estar no centro de sua política, em detrimento dos antigos ideias internacionalistas da geração dos marxistas de princípio do século. O internacionalismo defendido por Lenin apenas se concretizou na criação da URSS, sob o domínio do Estado mais forte.

Assim os interesses e necessidades da Mãe-Rússia sobrepuseram-se ao desenvolvimento de uma verdadeira união de estados soviéticos soberanos. À grandeza exaltada nos séculos XVII a XIX do império czarista seguiu-se a exaltação da Mãe-Rússia e de seu dirigente máximo, enfim, um outro tipo de nacionalismo. No plano das liberdades e da construção do poder do PCUS, o diagnóstico profético que Troski escreveu em 1904, realizou-se:

“… a organização do partido (sua liderança) coloca-se a princípio no lugar do partido como um todo; em seguida, o Comitê Central coloca-se no lugar da liderança; finalmente, um único “ditador” coloca-se no lugar do Comitê Central”. Trotski e Rosa Luxemburgo criticamente a concepção de partido defendida por Lenin em “Que Fazer?”.

Outro dirigente revolucionário destes tempos, preso e depois fuzilado por Stálin em 1941, escreveu: “Diante de nossos olhos, se formou uma grande classe de governantes que tem seus próprios interesses internos e que cresce mediante uma cooptação bem calculada, através de promoções burocráticas e de um sistema eleitoral fictício. O elemento aglutinador dessa classe original é uma forma singular de propriedade privada: o poder estatal”. ( Rakovsky e outros da oposição de esquerda do PCUS, 1930)

À par da crescente burocratização e centralização de poder dos bolcheviquess, depois PCUS, os outros partidos de esquerda existentes em 1917 foram ilegalizados, os soviets foram perdendo sua força revolucionária e a ditadura dos soviets logo confundiu-se com a ditadura do PCUS, do seu comitê central e nos fins dos anos 20 e em especial nos anos seguintes, na ditadura de Josef Stálin, o “guia genial dos povos”, tal como aclamado e messmo venerado pelos comunistas em todo o mundo, naqueles tempos.

Na lógica dos “interesses nacionais russos em primeiro lugar” compreende-se a decisão do ditador de expropriar as colheitas de grãos na fértil Ucrânia em 1932/33, o que causou a Grande Fome, o Holodomor. As estimativas variam mas é certo que 3 a 4 milhões de ucranianos morreram à fome, além outros 2 a 3 milhões em outros estados soviéticos. A péssima gestão agrícola de coletivização forçada de Stálin custou a vida de muita gente na União Soviética. O Holodomor é uma das causas básicas, além de outras, do nacionalismo anti-russo de muitos ucranianos, o que levou até que alguns apoiassem a invasão dos alemães na II Guerra Mundial. Mas logo se viram frente à brutalidade do exército alemão. Hitler desprezava todos os eslavos, considerados úteis apenas como “escravos/slaves”. Milhões de ucranianos morreram na II Guerra Mundial.

Mais tarde, nos anos 50 e 60, similares erros na política agrícola custaram também a vida de milhões de chineses.

O modelo econômico coletivista soviético, apesar de extraordinários avanços da indústria e da ciência&tecnologia revelou-se inferior ao desenvolvimento capitalista nos setenta anos de competição entre os dois sistemas.

A URSS e seus países satélites na Europa do Leste desmerengaram-se (na ironicamente amarga expressão de Fidel), como um castelo de areia, evidendenciando que a economia soviética tinha pés de barro e que a dominação política e ideológica do PCUS não ficava por menos. Derrota que manchou o sonho generoso do Socialismo.

Sendo certo que os Estados Unidos caracterizaram-se em todo o séculos XX e já neste como uma potência imperialista, no sentido de marcar sua influência no mundo e sua dominação através da diplomacia, da ação militar e da disputa ideológica, não menos certo é que o capitalismo sobrepôs-se ao socialismo real, ao fim de quase um século de disputa em todos os níveis. Econômica, política e ideologicamente.

Quando falamos da vitória do capitalismo, não podemos deixar de caracterizar a economia chinesa também como capitalista, pelo menos em grande parte. Mesmo as grandes empresas estatais competem no mercado mundial e se regem pelas regras do capitalismo. Na China temos o paradoxo de um regime há 74 liderado pelo PCCh, fruto de uma verdadeira revolução popular, nacional e anti-imperialista, que promove há décadas uma verdadeira revolução capitalista e de culto à riqueza e ao consumo, mas que não abdica do poder político sobre a economia.

É neste contexto que se deve encarar o tão propalado mundo multipolar. No contexto da disputa de mercados, tipicamente capitalista, onde “chora mais quem pode menos”, no contexto da disputa de zonas de influências para…garantir mercados e fornecedores confiáveis, para a disputas das moedas de troca comercial. A China tem sido mestre nisto, são sábios, “comem o mingau pelas beiradas”, suas empresas, seu poder econômico e militar, seu extraordinário investimento e desenvolvimento científico e tecnológico e sua diplomacia abrem portas no mundo inteiro. São fortes sem serem arrogantes como os Estados Unidos desde há muitos anos. Aprendeu com os erros da URSS, com quem sempre tiveram más relações e a quem nunca se submeteram. Aprendeu também com os acertos do capitalismo e mandou seus melhores estudantes para as melhores universidades ocidentais, há decênios. São o Império do Meio, tem 3 mil anos de História.

A NOVA ORDEM MUNDIAL E A GUERRA NA UCRÂNIA

O nacionalismo está muitas vezes relacionado com o fascismo e o nazismo. Os atuais partidos de extrema- direita na Europa dizem-se “nacionalistas”. Putin, mais que nacionalista, cultiva a ideia da “Mãe-Rússia”, da “Rússia de todas as Rússias”, da grandeza do império tzarista e da Rússia soviética, não se coibindo de fazer elogios a Stálin. Não por acaso considera o fim da URSS como “a maior tragédia geo-política do século XX”. A missão de sua vida é reverter esta “tragédia”, pelo menos em parte. Assim se explica que a perda da Ucrânia para o Ocidente foi a gota d’água para desencadear uma resposta militar, uma “operação militar especial” à insidiosa penetração do mundo ocidental naquele enorme país, sempre considerado desde há muitos séculos como extensão natural mas também berço da Rússia., a “Rus de Kiev”.

Esta nova ordem mundial multipolar não dispensa a militarização crescente um pouco por todo o mundo. Praticamente todos os países europeus têm aumentado seus orçamentos militares. Seria ingênuo não considerar a Rússia como uma ameaça, em particular na Europa do Leste. Resultado: mais OTAN/NATO, mais economia de guerra. Seria igualmente ingênuo acreditar que a vasta aliança ocidental venha a aceitar uma humilhante derrota em seu empenho de apoio à Ucrânia. Cresce na cabeça dos líderes europeus a vontade de aproveitar a oportunidade para induzir a queda de Putin e a ascensão de um regime mesmo ameaçador. Uma jogada arriscada, pois acuar autocratas pode gerar reações perigosas. Mas viver a medo já é aceitar a derrota.

A invasão da Ucrânia não foi a única durante o período pós-soviético. Na Tchechênia, pequeno Estado integrante da Federação Russa, a mão de ferro de Moscou, em especial na 2ª guerra, logrou esmagar as tentativas separatistas e impôr um governo pró-Moscou em 2007. Outros países e regiões do Cáucaso também sofreram intervenções militares e criação de regiões autônomas pró Federação nos útimos 20 anos. Mas o Ocidente fechou os olhos aos conflitos e assistiu de longe estas manifestações do centralismo putinista, que entende que os seus vizinhos próximos têm que alinhar-se e submeter-se à Mãe-Rússia.

Na Ucrânia, em 2022, os cálculos de Putin foram por água abaixo. O líder russo e muito “povo de esquerda”, um pouco em todo o mundo, acreditava que mais uma vez o Ocidente “decadente” acataria, ainda que a contragosto, a estratégia russa de dominar de uma forma ou de outra os seus vizinhos, considerados como parte do seu “espaço vital”. Tal como aceitou a anexação da Criméia em 2014 e o apoio aos separatistas em Donestk e Lugansk, alimetando um conflito armado regional, a partir da queda do presidente pró-russo Ianukóvytch, depois das revoltas da Praça Maidan em 2013/2014. Ao contrário das expectativas de Putin, Kiev não caiu, a Ucrânia não capitulou, como a toda poderosa França em 1940, nem seu governo desmoronou-se como os governos fantoches dos americanos no Vietnam do Sul e no Afeganistão, quando as tropas norte-americanas fugiram com o rabo entre as pernas.

Para Putin o tiro saiu pela culatra e o Ocidente tomou a invasão como um desafio inaceitável. Os objetivos proclamados pela FR, “desnazificar” a Ucrânia, isto é, derrubar o governo eleito de Zelenski com a tomada ou o cerco de Kiev, anexar os 4 Oblasts fronteiriços (leste e sul da Ucrânia), desmilitarizar o que restaria da Ucrânia e impedí-la de vir a fazer parte da OTAN/NATO e da UE, não foram atingidos. Caso o fossem e o Ocidente os digerisse, a FR despontaria como um novo pólo da nova ordem mundial multipolar. Recuperaria em parte a grandeza e influência dos melhores tempos da URSS e honraria a memória de Ivan o Terrível e de Pedro o Grande. Afinal as armas imperiais são as que tremulam na bandeira da Rússia.

O quase fechamento das portas da Europa e do ocidente alargado à Federação Russa, a saída de tantas empresas ocidentais, as múltiplas sanções, tudo isso foi um baque para Putin e para a economia russa. É sabido que os oligarcas russos, vale dizer, os donos do sistema capitalista tal como é praticado na Rússia e em alguns países da ex-URSS, sentiam uma atração enorme por negócios e pelo luxo europeu. Atualmente, com o congelamento de muitos de seus bens, devem ter saudades de suas villas na Côte d’Azur, de seus iates, de suas mansões no centro de Londres, de suas contas bancárias agora bloqueadas. As elites russas sempre foram ocidentalizadas, na corte tzarista se falava francês.

PALAVRAS FINAIS

A Ucrânia é hoje um dos Estados mais militarizados do mundo. A OTAN/NATO fortaleceu-se em membros, recursos e influência política. A economia mundial de guerra, os grandes fabricantes de armamento e certos “clusters” estão “nas nuvens”. Até a inflação provocada pela guerra e a quebra parcial das cadeias logísticas, que já vinha da pandemia, trouxeram mais riqueza para certos grupos empresariais e, em geral, para os muito ricos. As direitas e o regimes autocráticos ou “autocracias eleitorais como a Hungria também se fortaleceram. A União Europeia não se dividiu e, no essencial, aumentou significativamente o seu orçamento militar. A sua aliança histórica com os Estados Unidos, para grande proveito deste, estreitou-se. Para o dito Ocidente, a guerra em solo ucraniano transformou-se numa oportunidade para desgastar ou mesmo contribuir para a derrubada do regime putinista. A economia russa ressente-se cada vez mais das sanções de todo o tipo e da perda de clientes para suas exportações, em especial de oil&gas. Teve que dar enormes descontos para assegurar a mudança de clientes, em direção à Ásia (Turquia, China, India). Muitos diziam que a economia da Europa ocidental, particularmente a da Alemanha, ia sofrer terrivelmente com o corte parcial ou total do fornecimento de insumos energéticos russo e o colapso dos gasodutos russo-alemãos . Tal não aconteceu e assiste-se a uma formidável mudança da matriz energética na Europa. E a um crescimento moderado do PIB, desde 2020, apesar da guerra e da pandemia e da inflação que teima em não baixar para a meta dos 2%.

A conclusão possível, ainda que com dúvidas, é que a Rússia dificilmente será um pólo de primeira grandeza deste novo e belicoso mundo multipolar. É certo que a FR é uma potência nuclear e que tem feito ameaças de uso de armas nucleares táticas. Mas como ser um pólo do primeiro time, a par da China, Estados Unidos e União Europeia, sendo uma ameaça constante aos seus vizinhos? Tendo uma economia muitíssimo inferior a estes três pretensos pares, sendo muito dependente da exportação de oil&gas, e atrasada na economia do conhecimento? E tendo que gastar muitíssimo no orçamento militar? Para não falar do desgaste a vários níveis que já causou,está causando e continuar a causar esta guerra que se adivinha prolongada com a Ucrânia.

Se Putin e muita gente considera que a Ucrânia é uma mera extensão da Rússia, dominada politicamente por nazistas e que trava uma guerra por procuração do Ocidente, em especial, dos Estados Unidos da América, também é certo que a ação destrutiva das forças armadas russas, a violação dos direitos humanos, o sofrimento, mortes e destruição material de um país pobre consolidaram um nacionalismo anti-russo que perdurará por muito tempo no coração da maioria dos 42 milhões de ucranianos, muitos dos quais refugiados na Europa. Se não havia sentimento nacional, ou este era fraco, a enorme resiliência dos ucranianos prova o contrário. As armas são ocidentais, mas quem as manejam e morrem, à parte de tantos civis inocentes, são os soldados ucranianos.

Veremos até quando.

Uma coisa parece-me provável, a Rússia não será uma estrela maior desta tão propalada Nova Ordem Mundial, ainda em gestação.

Carlos Vianna tem 72 anos, é engenheiro aposentado e vive em Portugal. Foi militante político e associativo desde 1967. Foi presidente da Casa do Brasil de Lisboa. É autor de 2 livros: A Derrota (ensaio) e Uma Questão de Justiça (novela policial)


[1] in https://criticadesapiedada.com.br/tag/as-divergencias-de-principio-entre-rosa-luxemburgo-e-lenin/

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