História da Morte no Ocidente

Nos últimos dias a sociedade brasileira está sendo colocada em estado de alerta por causa da pandemia do COVID-19. Médicos dizem que os pacientes vão morrer na porta dos hospitais. Líderes políticos temem um genocídio nas favelas, o qual pode se tornar uma realidade por causa da Medida Provisória baixada por Bolsonaro para possibilitar aos empresários salvarem seus negócios abandonando seus empregados à própria sorte sem salários. Um pesquisador disse que no Brasil pode ocorrer 1 milhão de óbitos.

A morte voltou a se tornar onipresente entre nós. Em todas as residências brasileiras, sejam elas ricas ou pobres, todos temem o pior, muitos fazem o que podem para se salvar, poucos são capazes de demonstrar solidariedade. Antes de afundar na morte, mergulhamos no pavor que ela inspira. Portanto, acredito que vem ao caso resenhar o magnífico livro História da Morte no Ocidente.

Philippe Ariès dividiu seu livro em duas partes. Na primeira, ele discorre sobre as atitudes diante da morte. Na outra investiga os itinerários que ela percorreu no mundo moderno. Com uma erudição invejável, o historiador francês nos traz um panorama de como a morte foi vivenciada e representada pelas religiões e pelas artes durante a Idade Média, período em que ela foi uma presença constante e opressiva.

Naquele período a mortandade infantil era imensa, a expectativa de vida era pequena e possibilidade de morrer jovem em razão da guerra ou de uma peste era muito grande. No mundo em que nós vivemos a mortandade infantil foi reduzida, a expectativa de vida aumentou, a medicina e a farmacologia salvam vidas que na Idade Média seriam ceifadas pela doença. No caso específico do Brasil a guerra tem sido, quase sempre, uma realidade muito distante. A última pandemia que realmente sacudiu o planeta inteiro antes do COVID-19 foi a “gripe espanhola” ocorreu há pouco mais de um século.

A sociedade em que nós vivemos nos ensinou a celebrar a vida e a acreditar que ela será tranquila e longa.

“O homem do fim da Idade Média, ao contrário, tinha uma consciência bastante acentuada de que era um morto em suspensão condicional, de que esta era curta e de que a morte, sempre presente em seu âmago, despedaçava suas ambições e envenenava seus prazeres. Esse homem tinha uma paixão pela vida que hoje nos custa compreender, talvez porque nossa vida tenha se tornado mais longa.” (História da Morte no Ocidente, Philippe Ariès, Saraiva de Bolso, Rio de Janeiro, 2012, p. 61)

É difícil resenhar um livro tão erudito, complexo e fascinante. Por isso resolvi colocar o foco da minha resenha numa mudança de perspectiva em relação à morte que foi notada ao autor. Peço ao leitor paciência porque o trecho reproduzido é um pouco longo.

“Uma característica significativa das sociedades mais industrializadas é que nelas a morte tomou o lugar da sexualidade como interdito maior. É um fenômeno novo e recente descoberto.

Até o começo do século XX, a função atribuída à morte e a atitude diante da morte, eram praticamente as mesmas em toda a extensão da civilização ocidental. Esta unidade foi rompida após a Primeira Guerra Mundial. As atitudes tradicionais foram abandonadas pelos Estados Unidos e pelo noroeste da Europa industrial, sendo substituídas por um novo modelo do qual a morte foi como que expulsa. Em contrapartida, os países predominantemente rurais, que, aliás, eram muitas vezes católicos, permaneceram-lhes fiéis. Há uma década, vemos o novo modelo estender-se à França, a começar pela classe intelectual e a burguesia; está em vias de ganhar as classes médias, apesar das resistências vindas das classes populares.

Há alguns anos ter-se-ia podido prever que o movimento era irresistível, comandado pelos progressos da industrialização, da urbanização e da racionalidade. O interdito da morte parecia solidário com a modernidade. Hoje se duvida disso, ou pelo menos parece que a evolução é menos simples, que é complicada pela própria consciência que se começa a tomar dela.

Essa tomada de consciência se fez esperar. Durante a última metade do século, os historiadores e especialistas das novas ciências do homem foram cúmplices de sua própria sociedade: esquivaram-se, tanto quanto o homem comum, de uma reflexão sobre a morte. O silêncio foi rompido pela primeira vez, com estrondo, pelo etnólogo Geoffrey Gorer em um estudo de título provocativo [A Pornografia da Morte], depois em um livro que revelava ao público a existência de um traço profundo, e até então cuidadosamente escondido, da cultura moderna.

Na realidade, a obra de Gorer era também o signo de uma mudança nessa cultura. Assim como o interdito da morte fora espontaneamente aceito, escapou igualmente à observação dos homens de ciência, etnólogos, sociólogos, psicólogos, como se fosse natural, como uma banalidade a que não valia a pena dar importância. Sem dúvida tornou-se um tema de estudo, justo no momento em que começava a ser questionado.” (História da Morte no Ocidente, Philippe Ariès, Saraiva de Bolso, Rio de Janeiro, 2012, p. 270/271)

De maneira geral, podemos dizer que desde a década de 1950 a morte vinha sendo expulsa do cotidiano do sul e do sudeste. Nessas duas regiões, a urbanização e a industrialização crescentes foram acompanhadas de uma redução na taxa de mortalidade infantil e de um aumento na expectativa de vida. As regiões norte, nordeste e centro-oeste seguiram um padrão diferente.

A presença persistente da morte nunca foi uma novidade para os brasileiros que nasceram e cresceram fora das regiões sul e sudeste. No final dos anos 1930 a intimidade do nordestino com a seca e com a morte entrou na literatura brasileira pelas mãos de Graciliano Ramos. O livro Vidas Secas ganhou uma versão cinematográfica em 1963.
https://www.bing.com/videos/search?q=vidas+secas&view=detail&mid=695AC4005BF4D5DA0B31695AC4005BF4D5DA0B31&FORM=VIRE

A atitude em relação a morte no Brasil sofreu modificações sensíveis nas últimas décadas. Ao final do governo FHC as medidas neoliberais matavam 300 crianças de fome por dia no nordeste. No sul e no sudeste não ocorreu nada parecido. O desequilíbrio entre duas grandes regiões brasileiras (sul e sudeste de um lado; norte, nordeste e centro-oeste de outra) também se traduzia na maneira como cada uma delas se relaciona com a morte. Mas no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 ocorreu algo novo: uma onda de indignação se levantou em todas as regiões brasileiras.

A subsequente eleição Lula consolidou a luta contra a fome contra a mortalidade infantil como duas políticas de Estado. Por mais que a imprensa odeie o PT ela não pode negar que durante os governos de Lula e de Dilma Rousseff ocorreu uma verdadeira transformação nas regiões norte e nordeste. A mortalidade infantil declinou, a expectativa de vida aumentou. Isso certamente se traduziu numa modificação de como a morte é experimentada naquelas duas regiões brasileiras.

O golpe de 2016 e a eleição de Jair Bolsonaro acarretaram um declínio na qualidade de vida dos brasileiros mais pobres. Esse fenômeno se fez sentir com mais força nas regiões norte e nordeste. Foi justamente nesse momento político delicado que a pandemia do COVID-19 nos convidou a recalibrar nossas expectativas em relação a vida e a admitir a presença opressiva da morte. Cada região brasileira reagirá à sua maneira, mas eu suponho que aquelas que conviveram mais tempo com a seca, com a fome e com a morte sairão da crise menos traumatizadas do que as regiões sul e sudeste (em que a morte havia se tornado um tabu desde a década de 1950).

Uma coisa é certa, a leitura do livro Philippe Ariès pode nos fornecer mais do que insights sobre a realidade brasileira. Nesse momento será especialmente prazeroso percorrer os caminhos sinuosos que a morte seguiu ao entrar e sair da vida cotidiana, na arte e na literatura europeia. Boa leitura.

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