O governo do Irã anunciou nesta segunda-feira (1º) a suspensão das negociações indiretas com os Estados Unidos. A decisão ocorre em protesto contra a escalada das operações militares de Israel no Líbano e os recentes bombardeios americanos a posições iranianas no fim de semana. O recuo diplomático fragiliza a trégua de quase oito semanas na região e eleva o risco de um bloqueio no Estreito de Ormuz, rota vital para o comércio global de petróleo.
Segundo a agência de notícias iraniana Tasnim, a equipe de negociação do Irã interrompeu os diálogos e as trocas de mensagens via mediadores. Teerã condiciona o retorno à mesa de discussões à interrupção imediata das ofensivas israelenses em Gaza e no Líbano, além da retirada total das tropas de Israel do território libanês.
“Dado o prolongamento dos ataques do regime israelense no Líbano, e considerando que o Líbano era uma das pré-condições para um cessar-fogo — que agora foi violado em todas as frentes, incluindo o Líbano — a equipe de negociação iraniana está suspendendo ‘as negociações e as trocas de textos por meio de mediadores’”, informou a Tasnim.
Violação mútua e bombardeios no golfo
A crise diplomática foi acelerada por ações militares no fim de semana. O Comando Central dos EUA (Centcom) realizou ataques aéreos que classificou como “defensivos” contra centros de comando de drones, sistemas de radar e controle nas localidades iranianas de Goruk e na ilha de Qeshm, no Estreito de Ormuz. Em contrapartida, a Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter retaliado contra uma base militar utilizada pelos EUA.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã acusou Washington de romper as cláusulas do cessar-fogo vigente. “Vamos tomar todas as medidas que considerarmos necessárias para defender a segurança nacional do Irã”, declarou o porta-voz da chancelaria, Esmaïl Baghaï, durante coletiva de imprensa nesta segunda. O porta-voz acrescentou que “os Estados Unidos estão violando o cessar-fogo, inclusive esta manhã”.
O chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araqchi, reforçou a posição do país em postagem na rede social X, responsabilizando diretamente Washington e Tel Aviv pelas consequências da deterioração da segurança regional.
“Uma violação em uma frente é uma violação do cessar-fogo em todas as frentes. Os EUA e Israel são responsáveis pelas consequências de qualquer violação“, escreveu Araqchi.
Paralelamente, o Irã e grupos aliados colocaram em pauta o fechamento completo do Estreito de Ormuz e a ativação de ações coordenadas no estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho, onde os rebeldes houthis do Iêmen já atuam contra a navegação comercial.
Impasse nuclear e reações em Washington
Apesar do recrudescimento das tensões, o presidente americano Donald Trump manifestou otimismo na rede Truth Social, afirmando que o Irã demonstrou real interesse em firmar um pacto de não desenvolvimento de armas nucleares. Trump, contudo, queixou-se de pressões políticas internas que dificultariam o andamento dos trabalhos.
“O Irã realmente quer concluir um acordo, e será um bom acordo para os Estados Unidos e para aqueles que estão conosco”, escreveu Trump, minimizando o impacto das declarações públicas das autoridades de Teerã. “Sentem-se e relaxem, tudo terminará bem. É sempre assim!”, concluiu.
A diplomacia iraniana, no entanto, buscou delimitar o escopo dos encontros. Esmaïl Baghaï ressaltou que o programa atômico do país não é objeto das tratativas atuais. “Não houve nenhuma negociação sobre os detalhes do programa nuclear. Neste momento, nossa prioridade é pôr fim à guerra”, declarou.
A postura de cautela foi referendada pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammed Baqer Qalibaf, que exigiu contrapartidas práticas antes de qualquer concessão de Teerã. “Não se deve confiar nas palavras e nas promessas do inimigo. Nosso único critério é obter resultados concretos antes de cumprir nossos compromissos em contrapartida”, afirmou o parlamentar.
Avanço israelense e reunião de emergência na ONU
No Líbano, os confrontos diários persistem e desconsideram o cessar-fogo formalizado em 17 de abril. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, determinou novos bombardeios aos subúrbios do sul de Beirute e celebrou a captura da histórica fortaleza de Beaufort, no sul libanês, qualificando o episódio como um “ponto importante” nas operações para desmantelar a infraestrutura do Hezbollah. Netanyahu instruiu o Exército a ampliar o controle sobre as áreas antes dominadas pela milícia xiita.
A intensificação do conflito motivou a França a solicitar uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para esta segunda-feira. O presidente francês, Emmanuel Macron, condenou o avanço militar no sul do Líbano, afirmando que “nada justifica a grande escalada em curso”. Macron elogiou as iniciativas de Trump para obter um entendimento com o Irã e colocou a França à disposição para integrar missões internacionais de segurança marítima no Estreito de Ormuz e colaborar nas conversas sobre a questão nuclear.
O governo do Líbano repudiou o avanço das tropas israelenses em direção à região de Nabatieh. O presidente libanês, Joseph Aoun, classificou as investidas como uma “agressão feroz e condenável”. Dados do Ministério da Saúde do Líbano apontam que, desde o início do conflito em 2 de março, a guerra já causou mais de 3.412 mortes no país e provocou o deslocamento forçado de mais de um milhão de cidadãos. Do lado israelense, as baixas militares somam 26 soldados mortos.
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