O conselho editorial do The New York Times acusou o governo de Donald Trump de utilizar instrumentos de repressão política ao investigar a cidadania da deputada democrata Ilhan Omar, uma das principais vozes progressistas do Congresso dos Estados Unidos.
Em editorial publicado em 23 de outubro, o jornal defendeu o encerramento imediato da investigação e alertou para os riscos de transformar os procedimentos de naturalização em armas contra adversários políticos.
O posicionamento foi publicado após agentes federais realizarem uma busca na residência de Omar, em Washington, e apreenderem seu telefone, computadores, cadernos e passaporte. Segundo o editorial, a operação integra uma investigação sobre o processo de naturalização da parlamentar, que imigrou da Somália para os Estados Unidos.
Para o conselho editorial, a iniciativa representa uma ameaça à liberdade de expressão, ao Estado de Direito e aos princípios democráticos norte-americanos. O jornal também aponta que o governo Trump ampliou o uso de procedimentos para retirar a cidadania de cidadãos naturalizados: somente em maio e no início de junho, as autoridades teriam iniciado processos contra 33 pessoas, número superior ao registrado em qualquer ano inteiro desde pelo menos 2008.
O New York Times ressalva que não tem como determinar se as alegações contra Omar possuem fundamento. O argumento central do editorial, contudo, é que a investigação deve ser examinada também à luz do histórico de ataques públicos de Trump à deputada e do uso seletivo de instrumentos de persecução estatal contra críticos do presidente.
Entre as alegações apresentadas por aliados de Trump está a de que o pai da deputada teria informado incorretamente sua idade durante o processo de naturalização, há 26 anos. Segundo essa versão, Omar teria sido declarada como tendo 17 anos, quando já teria 18.
O editorial não confirma a acusação nem conclui que tenha ocorrido fraude. Em vez disso, argumenta que a retomada de um procedimento de naturalização realizado décadas atrás, envolvendo uma parlamentar que critica abertamente o presidente, cria a possibilidade de reabrir processos antigos de cidadania, o que pode deixar outros cidadãos naturalizados vulneráveis a investigações motivadas por divergências políticas.
Trump já defendeu retirada da cidadania de deputada
Ilhan Omar nasceu na Somália, chegou aos Estados Unidos ainda jovem e tornou-se cidadã norte-americana por naturalização. Eleita pelo Partido Democrata, integra o grupo progressista conhecido como The Squad e mantém uma trajetória de oposição às políticas de Trump, especialmente em temas relacionados à imigração e aos direitos das minorias.
O editorial recorda que o presidente a atacou publicamente em diversas ocasiões, com declarações depreciativas e referências à sua origem somali e à sua religião. Trump também já defendeu que a parlamentar fosse retirada do Congresso e enviada de volta ao país de origem.
Em entrevista ao New York Times em janeiro, segundo o próprio jornal, Trump afirmou que Omar deveria ser expulsa do Congresso e enviada de volta ao seu país. Questionado pelo repórter Tyler Pager sobre a possibilidade de ela perder a cidadania norte-americana, respondeu afirmativamente.
Meses depois, agentes federais realizaram a busca na residência da deputada. Para o conselho editorial, a proximidade entre as declarações presidenciais e a investigação levanta preocupações sobre a possibilidade de o poder estatal estar sendo utilizado para intimidar uma adversária política.
O jornal também questiona o momento da operação, realizada nas semanas finais da campanha de reeleição de Omar. Segundo o editorial, a ação contrariou uma diretriz do Departamento de Justiça que orienta a evitar medidas públicas em investigações envolvendo candidatos nos 60 dias anteriores a uma eleição.
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