A participação eleitoral dos cidadãos palestinos de Israel pode ser determinante para o futuro político do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Às vésperas das eleições parlamentares, marcadas para a próxima semana, lideranças árabes defendem o aumento do comparecimento às urnas como forma de enfraquecer a coalizão de direita e extrema direita que governa o país.
Os palestinos com cidadania israelense representam aproximadamente 20% da população e podem conquistar entre 12 e 15 das 120 cadeiras do Parlamento, o Knesset, segundo projeções citadas pelo The Guardian. Os assentos seriam distribuídos entre o partido Ra’am e a aliança Lista Conjunta, formada por três legendas menores.
Pesquisas citadas pelo jornal indicam que o bloco de Netanyahu pode perder a maioria parlamentar, mas a oposição judaico-israelense também não teria, isoladamente, os 61 assentos necessários para formar um governo. Nesse cenário, os partidos árabes podem ganhar poder de negociação, embora grande parte da oposição tenha descartado publicamente uma coalizão com lideranças palestinas.
A campanha eleitoral tem sido marcada por mensagens que exploram a divisão étnica. Cartazes associam a escolha eleitoral à oposição entre direita e Palestina, enquanto o slogan “Bibi ou Tibi” contrapõe Netanyahu ao parlamentar Ahmad Tibi, apesar de não haver perspectiva concreta de que ele ocupe um ministério.
Medo da extrema direita e limites das alianças
A mobilização ocorre em meio à devastação na Faixa de Gaza, à violência e à expansão de assentamentos na Cisjordânia ocupada e ao agravamento da discriminação contra palestinos dentro de Israel. Para o líder do partido Balad, Sami Abu Shehadeh, o medo das consequências de mais um mandato da extrema direita é o principal fator que impulsiona a participação eleitoral.
A decisão de votar, porém, envolve contradições. Partidos da oposição israelense também se opõem à criação de um Estado palestino e apoiam, em diferentes graus, o movimento de assentamentos. Ahmad Tibi resumiu o dilema como uma escolha entre Netanyahu e seus aliados da extrema direita e uma oposição que tampouco representa plenamente as reivindicações palestinas.
Há precedente para alianças entre partidos árabes e forças judaico-israelenses. Em 2021, o Ra’am, liderado por Mansour Abbas, integrou uma coalizão governamental com Naftali Bennett. O episódio demonstra que acordos considerados improváveis durante a campanha podem se tornar possíveis diante da composição final do Parlamento.
Parte dos eleitores, entretanto, rejeita as urnas por considerar que a participação legitima um sistema discriminatório. Outros defendem o voto como instrumento para reduzir os riscos de um novo governo de extrema direita. A lembrança do massacre de Kafr Qasim, em 1956, quando policiais de fronteira israelenses mataram 49 palestinos, também marca o debate político local.
Para analistas, a mobilização eleitoral busca sobretudo limitar os danos de uma possível continuidade da coalizão governista. O resultado ainda não garante uma mudança de governo: a capacidade dos partidos palestinos de influenciar a formação de uma nova coalizão dependerá tanto do número de cadeiras conquistadas quanto da disposição das demais legendas para negociar.
Deixe um comentário