3 de junho de 2026

A gravidade da crise hídrica e o buraco do avestruz

CLIMATEMPO

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Enviado por Assis Ribeiro

Do Brasil Post

Crise da água e o buraco do avestruz

Renato Guimarães

O Climatempo é uma empresa brasileira dedicada a fazer previsões meteorológicas. Eles acabam de publicar em seu website uma pequena reportagem com suas previsões de chuva para o período entre outubro e março e as possibilidades de recuperação do sistema Cantareira. É um vídeo revelador do grau de gravidade que estamos vivendo, e não nos damos conta. Mesmo por que a imprensa tradicional pouco está fazendo para esclarecer a situação. Na reportagem, eles entrevistam o professor Antônio Zuffo, chefe do Departamento de Recursos Hídricos na Universidade de Campinas (Unicamp). Sua entrevista é tão impressionante que resolvi transcrevê-la:

“Com a falta de água, cessariam as outorgas de irrigação e de indústrias e, talvez, de comércio. Seria um caos completo. Você teria de viver com a compra de água a granel, por caminhão pipa, mas você não tem a garantia da qualidade. É uma situação muito grave. E a gente passa ainda pela rua e vê pessoas lavando carro, lavando calçada. Não sabem da gravidade do problema. É muito grave. Nós nunca passamos uma situação como essa. E por causa do ambiente político desse ano, essa história não está vindo a público. Então, está se negando o problema e o problema já está instalado. Se não ocorrerem chuvas para reabastecer ou encher os reservatórios pelo menos 5 ou 10% a situação vai ficar extremamente grave. E esse cenário nebuloso está cada dia mais próximo.”

Segundo a meteorologista da Climatempo, Bianca Lobo, o volume médio de chuvas no período entre outubro a março no sistema Cantareira é de cerca de 1.250 milímetros, ajudando-o a recuperar de um ano para o outro cerca de 30% do seu volume. Ou seja, se chover a média dos outros anos, o volume de água que entrará vai ajudar a recuperar o volume morto (cerca de 18%) e vai sobrar apenas 12% acima disso para enfrentar a próxima estação seca. Isto significa que a situação vai continuar muito grave, mesmo se as chuvas seguirem os padrões. Se chover menos, será o caos, de verdade. E é exatamente isto que a Climatempo está prevendo, ou seja, que este ano o volume de chuvas ficará um pouco abaixo do normal. Nem os 30% históricos devem acontecer.

Reportagem da Climatempo:

Imagino que a real gravidade desta situação é amplamente conhecida nos setores do governo estadual responsáveis por administrar o sistema de abastecimento de água em São Paulo. Com certeza é do conhecimento do governador Geraldo Alckmin. Se é assim, por que não estamos agora mesmo – melhor, há alguns meses – implementando uma política agressiva, bem planejada e transparente de racionamento controlado? Por que não temos uma ampla campanha pública usando todos os recursos possíveis de comunicação e mobilização para conscientizar os cidadãos de seus papéis individuais no consumo consciente de água? Por que outra parte significativa de recursos adicionais não é usada para cassar os muitos pontos de perda de água no sistema de distribuição?

Em vez disso, o governo estadual resolveu adotar uma atitude de avestruz, enfiando sua cabeça no buraco da contrainformação e apostando na minimização do problema, dizendo que temos água pelo menos até março. Para isso o sistema Tietê está sendo esvaziado para socorrer o sistema Cantareira e o volume morto está sendo inexoravelmente exaurido. A resposta para este desequilíbrio entre a gravidade real e imediata do problema e a forma como o Governador Geraldo Alckmim e seus acólitos no governo estão tratando o tema quase como se fosse um mero acidente da natureza tem uma única razão, bem expressa pelo Prof. Zuffo: o calendário eleitoral.

“É a política, seu idiota!”

Eis aqui minha interpretação muito pessoal de como se deu isso: quando ficou claro o que vinha pela frente, com a escassez de chuvas, o governo estadual tomou a decisão de fazer o que fosse necessário para evitar racionamento antes das eleições. Imagino que deve estar marcado na memória do PSDB o impacto político do racionamento de energia no fim do governo FHC. Agora, não se queria nada que pudesse minimamente atrapalhar a reeleição do governador.

A estratégia parece estar dando resultado, já que os índices de popularidade de Alckmin seguem altíssimos, resultando em uma impressionante dissociação cognitiva entre a imagem que ele projeta de administrador competente e a lambança que resultou na falta de água na maior região metropolitana da América Latina.

Uma vez eleito, viria a segunda parte da estratégia: o governador se imbuiria da sua autoprojetada imagem de durão e administrador sério para exigir da população um período de sacrifícios, incluindo o necessário racionamento e a tal campanha de mobilização para evitar o desperdício. Mas aí a eleição já estaria ganha. Ele ainda poderia aproveitar para exibir sua cota de sacrifício, mostrando como sua família está fazendo sua parte para economizar água.

Obviamente isso é só uma especulação da minha parte, mas todas as evidências sugerem esta direção. O mais curioso é que suspeito que se o governador Alckmin, assim que foi informado pela primeira vez da gravidade do problema, tivesse agido de forma diferente (e acredito que correta) ele não teria afetada realmente suas chances de reeleição e ainda sairia do episódio maior do que quando entrou.

E qual seria esta forma? Ele deveria ter vindo pessoalmente a público, explicado a gravidade da situação de forma aberta, chamado a população para fazer a sua parte no uso consciente da água, implementado medidas de economia e talvez até de racionamento inteligente desde o início. Ou seja, atuado como um administrador capaz até mesmo de colocar sua reeleição em risco pelo bem comum. Daria até um ótimo “storytelling” de marketing político, mas que pelo menos seria um que teria talvez minimizado muito a situação que estamos vivendo neste momento.

Ingenuidade? Só para dar um exemplo de uma região que está vivendo uma situação semelhante: o estado da Califórnia, nos Estados Unidos, está passando pela pior seca da história, o que já está afetando a capacidade de abastecimento de água. O governador democrata Edmund G. Brown imediatamente declarou “estado de emergência” que lhe permitiu tomar medidas, algumas bem duras, para preservar ao máximo o abastecimento de água. Foi criado um website oficial do governono qual os cidadãos podem obter informações em tempo real de como anda a situação, com imagens mostrando o antes e o depois dos reservatórios. Há uma campanha em curso para estimular os cidadãos a economizarem no uso da água, contando inclusive com a participação voluntária de diversos artistas. Há um resumo de todas ações sendo feitas pelo governo, dados estatísticos, o diabo.

Detalhe do website oficial sobre a seca na califórnia:

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Enquanto isso, aqui em São Paulo quase dá para ouvir o grilo cantando, tamanho é o silêncio oficial quando comparado à gravidade do problema. Claro, são dadas entrevistas à imprensa, houve uma campanha chinfrim da Sabesp basicamente culpando São Pedro pelo problema e exaltando a força e resiliência dos paulistas e paulistanos. Mas nada que se possa chamar de uma ação pública concatenada e coordenada.

Bom, a opção por enfiar a cabeça no buraco pode até servir para reelegê-lo, mas com isso Geraldo Alckmin mostra de forma clara o entendimento que tem do seu papel como líder político. Enquanto isso dezenas de milhões de pessoas, moradoras da região metropolitana de São Paulo, se aproximam perigosamente de um abismo de secura de consequências imprevisíveis. Que tal propor aos californianos uma troca? Será que eles concordariam em nos emprestar seu governador por uns meses?

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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16 Comentários
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  1. Governor Secco

    5 de agosto de 2014 2:45 pm

    Cinismin e hipocrisin de Alckmin Cretinim

    Quem faz avominável “uso político” da seca nos reservatórios de SP é exatamente o governador cara de pau, por não tomar as providências preventivas necessárias para evitar um desastre no seu estado por motivos eleitoreiros.

    Ainda que sua roleta russa de 5 cheios e 1 vazio pare no vazio…

     

  2. MiriamL

    5 de agosto de 2014 2:57 pm

     
    Bem,  faltou considerar a

     

    Bem,  faltou considerar a hipótese de o governador NÃO  se reeleger, caso em que, o ônus do caos vai sobrar para o eleito. Ou seja, o governador fica sem desgaste e poderá dizer que na sua gestão nada aconteceu… Sovinas esses caras!

  3. Ivan de Union

    5 de agosto de 2014 3:13 pm

    Vale a pena clicar no link: 

    Vale a pena clicar no link:  as 5 fotos de cima sao impressionantes!

  4. Flavio Martins e Nascimento

    5 de agosto de 2014 3:15 pm

    A situação é grave no Estado

    A situação é grave no Estado inteiro e, pior, tende a afetar outras regiões. Já relatei em outro post que estive, faz algumas semanas, em um sítio de amigos em Natividade da Serra, entre o Vale do Paraíba e o litoral norte de São Paulo. A propriedade fica em frente à Represa de Paraibuna, pertencente à CESP, cuja principal função é regular a vazão do rio Paraiba do Sul que atende a distribuição de água para todo o Vale e, principlamente, o Estado do Rio de Janeiro. Naquela ocasião já havia ficado estarrecido com o nível extremamente baixo da represa – uns quinze metros -, algo que, segundo o pessoal mais velho da região, é inédito.

    Domingo última, dia 3, o pessoal nos mandou uma foto, com níveis mais baixos ainda. Não sou especialista na área, nem quero bancar a pitonisa do apocalipse, mas me parece que a situação é muito séria.

    Na foto acima, ao lado do barranco recortado na esquerda, há uma pequena escada de concreto, que na verdade tem mais de vinte degraus e servia de acesso ao pier, quando, em épocas normais, apenas dois de seus degraus ficavam para fora da água. Agora o pier foi transferido provisoriamente para trás do morro da foto.

     

  5. Marcos Antônio

    5 de agosto de 2014 3:25 pm

    Vai ser o início da

    Vai ser o início da DESINDUSTRIALIZAÇÃO DE SÃO PAULO!

    Valeu PSDB!

    Campeonissimo em destruir patrimônio dos outros…

  6. Geraldo Chaves

    5 de agosto de 2014 3:37 pm

    Entrevista  completa do

    Entrevista  completa do Professor Antônio Carlos Zuffo:

    Seca do Cantareira pode levar SP a depender de caminhões-pipa e água engarrafada

    Link: http://radio.estadao.com.br/audios/audio.php?idGuidSelect=921603901D904AD392E215C935FE5FF0

  7. Sta Catarina

    5 de agosto de 2014 3:39 pm

    Irresponsabilidade total

    Não consido nem imaginar a falta de água num estado como São Paulo. Imaginemos as escolas, hospitais, a população em geral sem poder beber água, lavar-se, se alimentar (sem água não dá), coisas fundamentais para a sobrevivência. Cadê os M…. que poderiam fazer algo? Cadê a população que não se mobiliza e enfrenta esse cancêr maldito que administra o estado? Se eu fosse empresário já estaria de malas prontas, transferindo operações para outros lugares do país. É simplesmente impossível atender a população do porte de São Paulo com caminhões ou venda de água mineral…pelo amor de Deus!

    Alckmin, vai pro raio que o parta, seu irresponsável!

  8. Jorge Luis

    5 de agosto de 2014 3:39 pm

    Na verdade, já existe

    Na verdade, já existe racionamento “oculto”. A tal “redução da pressão” que a SABESP faz e os vários relatos de falta de água já mostram isso.

    Eles só não vão admitir: “devo, não pago, nego enquanto puder”.

  9. sergioa

    5 de agosto de 2014 3:44 pm

    PSDB, o partido do APAGÃO.
    E

    PSDB, o partido do APAGÃO.

    E tome paulista tonto que continua apostando suas fichas nos tucanos.

    São 20 anos continuos de governo, algo nunca ocorrido em nossa história recente. E quais dos grandes problemas do estado de SP foram resolvidos ou minimizados?

    – Educação?

    – Saúde?

    – Segurança?

    – Emprego?

    – Transporte?

    A única coisa que paulista pode dizer que tem orgulho, são as estradas. Se bem que extorquido toda vez que as utiliza.

    Agora teremos APAGÃO HIDRICO.

    Consequências:

    – racionamento de água inevitável nos próximos anos.

    – indústrias mudando de estado devido a insegurança hidrica, com desemprego decorrente deste fato.

    – perdas no agronegócio, resultando em pressão inflacionária.

    Defenifivamente isto é um verdadeiro APAGÃO de GESTÃO.

    1. Conde de Rochester

      5 de agosto de 2014 6:07 pm

      eleição

      O eleitor de São Paulo não é o culpado pelo PSDB continuar governo.

      A incompetencia da oposição é que vem a tona qdo se analisa a situação.

      O Skaf até que foi um provavel nome para substituir o governo. Maaaaas, vejam com quem se prendeu politicamente. 

      Assim não da.

       

          

       

           

       

      O candidato do PT continua um ilustre desconhecido.

      O eleitor vitimado pela legislação eleitoral que não representa ninguem, segue como manada, vota por inercia, se não existe outro nome que substitua o atual, não tem mudança.

       

      1. sergioa

        5 de agosto de 2014 6:38 pm

        Seria bom ser menos

        Seria bom ser menos seletivo.

        Com as figuras acima deve ter dezenas de votos do Alckim, do Serra, do FHC.

        Naqueles tempos estas mesmas pessoas eram diferentes? Quando estas figuras ilustres apoiam os tucanos, como por magia elas se tornam idoneas?

        Não posso afirmar que são isto ou aquilo. Mas toda vez que os tucanos perdem apoio destas figuras passam a desfesnetrá-las. Apontam o dedo e sentam em cima do próprio rabo.

        Não tem nada de incompetência da oposição estadual.

        Tem tudo a ver com a miopia e o conservadorismo retrogrado do paulista.

         

        1. Conde de Rochester

          6 de agosto de 2014 12:39 am

          Por causa de simplificações

          Por causa de simplificações como esta e o velho habito de não assumir com os erros, que as coisas não mudam.

           

  10. Paulo Sé

    5 de agosto de 2014 4:07 pm

    Até que enfim uma chance

    Até que enfim uma chance única de limpar o Tietê! E não vai haver desculpas desta vez.

    Multas e descontos privilegia a quem se não aqueles que tem dinheiro para pagar champagne na torneira.

    Ou restam dúvidas que o pobre descuidado que gastar uns pingos a mais ficará sem água e inadimplente, enquanto “os de sempre” continuarão consumindo o que precisarem e no final ainda rolarão suas dívidas com as multas em intermináveis processos em nossa equanime justiça?

    O racionamento atingiria  todos. Não somente a estratificação média-baixa da sociedade.

    A Sabesb pagará multas pelo desperdício do sistema?

    Endinheirados sempre poderão comprar água, mas até uma estrutura de venda a granel confiável se estabeleça, terão que conviver com os risco da procedência duvidosa da melhor água que o dinheiro pode comprar.

    Eis o que aguarda a “elite” paulistana – a incerteza goela abaixo. Claro que são metáforas criadas na base de alguma fonte mineral gaseificada.

  11. Lucinei

    5 de agosto de 2014 4:59 pm

    “Que tal propor aos

    “Que tal propor aos californianos uma troca? Será que eles concordariam em nos emprestar seu governador por uns meses?”

    Ora, ora, trazer “intervencionistas” pro tucanistão?

  12. Fulvia

    5 de agosto de 2014 5:22 pm

    (Sem título)

    SECA SP Triste partida

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