A história da tentativa de suborno dos EUA a Jânio Quadros

Enviado por jns

Do Third World Traveler

EUA ofereceu US $ 300 milhões para subornar Jânio Quadros

Extraído do livro Killing Hope, de William Blum

Além das contribuições de campanha, a CIA mergulhou o seu saco de truques sujos para atormentar as campanhas de candidatos de esquerda.

A CIA realizou uma campanha de propaganda consistente contra Goulart, que datava de pelo menos das eleições de 1962 e que incluiu o financiamento de manifestações urbanas de massa.

 

Adolf Augustus Berle Jr. (a direita), enviado especial de Kennedy, informou a Jânio Quadros (a esquerda) que os Estados Unidos tinham US $ 300 milhões reservados para o Brasil – que, com efeito, foi oferecido como suborno – para obter a cooperação para a iminente invasão da Baía dos Porcos, em Cuba.

Os principais membros da missão diplomática dos EUA no Brasil realizaram uma reunião que durou um dia em março de 1964 e chegaram ao consenso de que o apoio do presidente João Goulart às reformas sociais e econômicas era um veículo artificial e velado para tomar o poder ditatorial.

O embaixador americano, Lincoln Gordon, informou ao Departamento de Estado que “uma investida desesperada [de Goulart] para o poder totalitário pode ser feita a qualquer momento”.

O comandante do Exército Brasileiro, o general Humberto de Alencar Castello Branco, desde a Embaixada Americana enviou um memorando pessoal, no qual ele afirmou o seu medo de que Goulart estava procurando fechar o Congresso e iniciar uma ditadura.

Dentro de uma semana, após a expressão dessas preocupações, os militares brasileiros, liderados por Castello Branco, derrubaram o governo constitucional do presidente Goulart, culminando em um processo conspiratório no qual a embaixada americana estava intimamente envolvida.

Os militares então começaram a instalar e manter durante duas décadas uma das ditaduras mais brutais de toda a América do Sul.

O que devemos avaliar sobre isso? A ideia de que homens de posição e poder mentem para o público é comum, não é digna de debate. Mas será que é a mesma coisa mentir tão prontamente para o outro? A sua necessidade de racionalizar os seus malefícios é tão grande que eles fornecem um ao outro um ombro moral para apoiar: “Os homens usam os pensamentos apenas para justificar suas injustiças e falam somente para esconder seus pensamentos”, escreveu Voltaire.

A real motivação americana no apoio ao golpe foi algo um pouco menos do que preservar a democracia. A oposição americana a Goulart, que se tornou presidente em 1961, repousava sobre um catálogo familiar de reclamações: 

o secretário de Defesa dos EUA, Robert McNamara questionava a posição neutra do Brasil na política externa. O embaixador do Brasil em Washington, Roberto Campos, respondeu que “neutralismo” era um termo inadequado e explicou que “o que estava envolvido era realmente um profundo desejo do povo brasileiro de afirmar a sua personalidade no mundo dos negócios”.

As autoridades americanas não aprovavam alguns dos membros do gabinete de Goulart e o Embaixador Roberto Campos destacou que era “muito inapropriado” para os Estados Unidos “tentar influenciar na composição do gabinete”.

O Procurador-Geral Robert Kennedy reuniu-se com Goulart e expressou a sua inquietação sobre o presidente brasileiro, permitindo “comunistas” para ocupar cargos em órgãos do governo. Bobby estava presumivelmente agindo com base na antiga e muito profunda crença americana de que uma vez que um ou dois comunistas sejam acolhidos na sua sala de estar, eles logo vão assumir toda a casa e assinar a escritura para Moscou. Goulart não via isso como um perigo. Ele respondeu que estava em pleno controle da situação e depois comentando com Campos, disse que a acusação era como se ele tivesse dito que ele não tinha capacidade para julgar os homens ao seu redor.

O adido americano do Departamento de Defesa no Brasil, o coronel Vernon Walters, informou que Goulart deveria mostrar o seu favoritismo aos oficiais militares “ultranacionalistas” pró-EUA. Goulart visava promover os oficiais que pareciam ser mais leais a seu governo. Ele era, como sói acontecer, muito preocupado com os golpes militares incentivados por americanos e disse isso explicitamente ao presidente Kennedy.

Goulart havia considerado a compra de helicópteros da Polônia porque Washington atrasara o atendimento ao seu pedido para comprá-los a partir dos Estados Unidos. O Embaixador Gordon disse que ele “não poderia esperar que os Estados Unidos pudessem gostar”.

O governo Goulart, além disso, aprovou uma lei que limitava a taxa de lucros que as multinacionais poderiam transferir para fora do país e uma subsidiária da ITT foi nacionalizada. A compensação para a aquisição demorou a chegar por causa da situação financeira precária, mas estas foram as únicas ações significativas tomadas pelo Brasil contra os interesses corporativos dos Estados Unidos.

Inextricavelmente, as denúncias tecidas e, em parte, mantidas ao mesmo tempo em pé, revelavam o desânimo de Washington para a possibilidade do Brasil “derivar para a esquerda”, sob a influência comunista no movimento operário, pela “infiltração esquerdista” onde quer que se olhe, “antiamericanismo” entre estudantes e outras pessoas (o americano Cônsul Geral em São Paulo sugeriu ao Departamento de Estado que os Estados Unidos devia “encontrar organizações estudantis concorrentes”), a erosão geral da “influência do poder dos EUA sobre o povo e os grupos amigáveis dos Estados Unidos”.

O antecessor de Goulart, Jânio da Silva Quadros, também havia irritado Washington. “Por que o os Estados Unidos possuem relações comerciais com a Rússia e seus satélites, mas insistem que o Brasil só possam ter comércio com os Estados Unidos?” perguntou Jânio, iniciando a negociar com a União Soviética e outros países comunistas para (re) estabelecer relações diplomáticas e comerciais. Jânio era, em uma palavra, independente e também foi mais ou menos um conservador que reprimiu duramente os sindicatos, enviou tropas federais para reprimir protestos no nordeste e prendeu alunos desobedientes. Mas o embaixador americano na época, John Moors Cabot, achou por bem questionar o Brasil por tomar parte em uma reunião de “não confirmada” de nações (não alinhados). “O Brasil assinou várias obrigações com os Estados Unidos e os países da América”, disse ele. “Estou certo de que o Brasil não vai esquecer as suas obrigações que estão empenhadas. É um fato. O próprio Brasil não pode se comprometer quando quiser”.

No início de 1961, pouco depois de Quadros ter assumido o cargo, foi visitado por Adolf Berle Jr., conselheiro do presidente Kennedy para assuntos latino-americanos e ex-embaixador para o Brasil. Berle tinha vindo como enviado especial de Kennedy para solicitar o apoio de Quadros para a iminente invasão da Baía dos Porcos. O Embaixador Cabot estava presente e alguns anos mais tarde descreveu a reunião ao escritor Peter Bell. 

Leia também:  GGN Covid: número de mortes globais bate em 500 mil

Bell revelou que o Embaixador Cabot se lembra de uma “conversa tempestuosa”, em que Berle informou que o Estados Unidos tinha disponibilizado US $ 300 milhões em reserva para o Brasil que, com efeito, foi “oferecido como suborno” para obter a cooperação brasileira. Quadros ficou “visivelmente irritado” depois que Berle recusou-se a acatar o seu terceiro “não”. No dia seguinte,nenhum funcionário brasileiro estava no aeroporto para ver o enviado americano retornar da malfadada viagem.

Quadros, que havia sido eleito por uma margem recorde, era, como Goulart, acusado de tentar estabelecer uma ditadura, porque procurou mostrar as garras através de medidas impopulares para a oligarquia, os militares e os Estados Unidos, bem como, prosseguiu uma “política estrangeira pró-comunista”. Depois de apenas sete meses no cargo, de repente ele se demitiu, alegadamente sob pressão militar, se não ameaça direta dos Estados Unidos. Em sua carta de demissão, ele culpou que a situação foi provocada por “reacionários” e “ambições de grupos de indivíduos, alguns dos quais estrangeiros, forças terríveis que se levantaram contra mim.”

Poucos meses depois, reapareceu Quadros, para fazer um discurso em que ele identificou Berle, Cabot e o secretário do Tesouro dos EUA, Douglas Dillon, entre aqueles que haviam contribuído para sua queda. Dillon, disse que Quadros procurou misturar a política externa com as necessidades do Brasil para obter créditos externos. (Ambos Berle e Cabot tinha sido defensores da derrubada do presidente da Guatemala, Arbenz, em 1954, cujos pecados, aos olhos de Washington, eram praticamente os mesmos daqueles que Goulart era agora culpado.) Ao mesmo tempo, Quadros anunciou sua intenção de levar uma “cruzada do povo contra os reacionários, os corruptos e os comunistas”.

Como vice-presidente de Quadros, Goulart sucedeu à presidência em agosto de 1961.

Goulart tentou continuar a política externa independente de Jânio Quadros. Seu governo seguiu adiante com a retomada das relações com os países socialistas e, em uma reunião da Organização dos Estados Americanos, em dezembro de 1961, o Brasil se absteve em uma votação para realizar uma sessão especial destinada a discutir “o problema cubano”, mostrando forte oposição às sanções contra o governo de Castro. Alguns meses mais tarde, falando ao Congresso dos EUA, Goulart reafirmou o direito do Brasil de tomar um stand próprio em algumas das questões da Guerra Fria. Ele declarou que o Brasil identificava-se “com os princípios democráticos que unem os povos do Ocidente”, mas “não era parte de qualquer bloco político-militar”.

*****

Goulart, um milionário proprietário de terras e católico que usava uma medalha da Virgem no pescoço, não era mais um “comunista” como foi Quadros e apoiou fortemente os Estados Unidos durante a “Crise dos Mísseis Cubanos”, em Outubro de 1962. Goulart ofereceu ao Embaixador Gordon um brinde “Para a Vitória Yankee!”, talvez sem saber que apenas três semanas antes, durante as eleições federais e estaduais no Brasil, o dinheiro da CIA tinha sido liberalmente gasto em apoio a candidatos anti-Goulart. O ex agente da CIA Philip Agee afirmou que a Agência gastou entre 12 e 20 milhões de dólares em centenas de candidatos. Lincoln Gordon diz que o financiamento não superou 5 milhões de dólares.

Kennedy and Goulart review troops 1962.jpg

Kennedy e Goulart passando a tropa em revista, em 1962.

Além das contribuições de campanha, a CIA mergulhou o seu saco de truques sujos para atormentar as campanhas de candidatos de esquerda. Ao mesmo tempo, a Agência para o Desenvolvimento Internacional (AID), a pedido expresso do presidente Kennedy, alocou verbas para projetos que visavam beneficiar candidatos a governador escolhido pelos EUA. (Quando Goulart era presidente, uma nova assistência econômica dos EUA nunca foi efetivada ao governo central, enquanto a assistência regional era fornecida em uma base marcadamente ideológica. Quando os militares tomaram o poder, esse padrão foi drasticamente alterado).

Philip Agee acrescenta que “a CIA realizou uma campanha de propaganda consistente contra Goulart, que datava de pelo menos das eleições de 1962 e que incluiu o financiamento de manifestações urbanas de massa”, provando que os velhos temas de Deus, país, família e liberdade continuavam sempre eficazes para minar o governo”.

O dinheiro da CIA também encontrou o seu caminho para uma cadeia de jornais de direita, os Diários Associados, para promover o anticomunismo; para a distribuição de 50 mil livros de política semelhante aos estudantes universitários e do ensino médio; e para a formação de grupos de mulheres, com ênfase especial sobre a impiedade do inimigo comunista. As mulheres e os outros agentes da CIA também entraram no negócio de promover a boataria, espalhando histórias sobre os ultrajes que Goulart e os seus comparsas deveriam estar planejando, tais como alterar a constituição de modo a prolongar o seu mandato, incluindo fofocas sobre Goulart ser um corno e um agressor da esposa.

Leia também:  Thamea Danelon, da Lava Jato em SP, palestrou para agentes do FBI em 2016

Tudo isso para derrubar um homem que, em abril de 1962, recebeu uma recepção ticker-tape, em New York, e depois foi calorosamente recebido na Casa Branca pelo presidente Kennedy e também se dirigiu uma sessão conjunta do Congresso.

*****

Dependendo da configuração, “salvar o Brasil da ditadura” ou “salvar economia do Brasil do comunismo” avançava como justificativa para o que aconteceu em 1964. (O General Andrew O’Meara, chefe do Comando Sul dos EUA [América Latina], fez as duas coisas. Ele disse a um comitê da Câmara que “a chegada ao poder do governo Castello Branco no Brasil, em abril passado, salvou o país de uma ditadura imediata, que só poderia ter sido seguida pela dominação comunista.”

A defesa da posição de “resgate-do-comunismo” era especialmente difícil de suportar, pois o problema é que os comunistas no Brasil não fizeram, afinal, qualquer coisa que os Estados Unidos poderiam apontar. Além disso, a União Soviética ficou mal na foto. No início de 1964, um jornal brasileiro informou que Khrushchev, o líder russo, disse que o governo soviético não queria nem dar ajuda financeira Partido Comunista Brasileiro no regime Goulart e alimentar a confusão com os Estados Unidos sobre o país, embora, em suas reminiscências, que não pretendem ser um trabalho sério da história, Khrushchev não tenha dado nenhuma referência indicadora para o Brasil.

Um ano após o golpe, o comércio entre o Brasil e a União Soviética estava em trono de US $ 120 milhões por ano e uma missão brasileira estava planejando ir a Moscou para explorar vontade Soviética para fornecer uma grande planta industrial ao país. No ano seguinte, os russos convidaram o novo presidente do Brasil, o general Costa e Silva, para visitar a União Soviética.

Durante toda a vida da ditadura militar, estendendo-se para os anos 1980, o Brasil e o bloco soviético foram envolvidos em extensa cooperação comercial e econômica, atingindo milhares de milhões de dólares por ano, incluindo a construção de usinas hidrelétricas no Brasil. Existia uma relação econômica semelhante entre o bloco soviético e da ditadura militar argentina entre 1976-1983, tanto que em 1982, quando o líder soviético Leonid Brejnev morreu, o governo argentino declarou um dia nacional de luto.

Foi apenas por ignorar fatos como estes durante a guerra fria, que a máquina de propaganda anticomunista dos Estados Unidos poderia pregar sobre a Intentona Comunista Internacional e afirmar que o golpe de Estado no Brasil tinha salvado o país do comunismo. Para um exemplo típico dessa propaganda, deve-se ler “The Country That Saved Itself” que apareceu em vários meses no Reader’s Digest após o golpe. As inúmeras mentiras sobre o que ocorreu no Brasil, alimentadas pela revista para os seus milhões de leitores, sem dúvida, desempenhou um papel importante na preparação da opinião pública americana para a grande cruzada anticomunista no Vietnã que estava apenas ganhando força na época. 

O artigo começava assim:

“Raramente uma grande nação se aproximou tanto da beira do desastre, se recuperou e triunfou sobre a subversão vermelha como fez o Brasil recentemente. A unidade comunista pela propaganda, infiltração e o terror estava se movendo em alta velocidade marcada pela dominação. A rendição total parecia iminente mas, em seguida, o povo disse não!”

O tipo de independência mostrada pelo governo militar brasileiro em suas relações econômicas com a União Soviética era algo que Washington poderia aceitar de um governo conservador, mesmo com a nacionalização ocasional de propriedades norte-americanas, quando se soube que o governo poderia ser invocado para manter a esquerda suprimida internamente e também ajudar na guerra fria e nas vitais campanhas anticomunistas no exterior. Em 1965, o Brasil enviou 1.100 soldados para a República Dominicana, em apoio à invasão dos EUA, tornando-se o único país da América Latina a enviar uma força que não era apenas simbólica. E em 1971 e 1973, os aparatos militares e de inteligência brasileiros contribuíram para os esforços norte-americanos em derrubar os governos da Bolívia e do Chile.

Os Estados Unidos não descansaram sobre os louros. A sede da CIA imediatamente começou a gerar propaganda em todo o hemisfério, quanto mais distante a rede de imprensa poderia ser ativada pela Agência, em apoio ao novo governo brasileiro e desacreditar Goulart. Dean Rusk com o receio que Goulart poderia ser recebido no Uruguai como se ainda fosse presidente do Brasil, alegando que não havia renunciado, telegrafou para a embaixada americana em Montevidéu recomendando que “seria útil chamar a atenção de autoridades apropriadas para o fato de que, apesar de suas alegações em contrário, Goulart abandonou o seu cargo.”

Ao mesmo tempo, a estação da CIA no Uruguai empreendeu um programa de vigilância de exilados brasileiros que fugiram do golpe militar, para impedi-los de instigar qualquer tipo de movimento de insurgência em sua terra natal. Era uma questão simples para a Agência de pedir ao parceiro (remunerado), o Chefe da Inteligência Uruguaia, para colocar os seus oficiais nas residências de Goulart e outros brasileiros importantes. Os policiais mantiveram os registros de todos visitantes, enquanto posavam como seguranças pessoais para os exilados, embora seja improvável que os exilados tenham engolido a história.

Leia também:  Com Trump, sobreviventes ao coronavírus podem perder seguro de saúde

Nos primeiros dias após o golpe, milhares de brasileiros foram presos, “comunista e todos os suspeitos de serem comunistas”. Graduados da AIFLD foram prontamente nomeados pelo novo governo para purgar os sindicatos. Embora o embaixador Gordon tenha assegurado ao Departamento de Estado, antes do golpe, que as forças armadas “seriam rápidas para restaurar as instituições constitucionais e devolver o poder às mãos civis”, isso não era para ser feito. Dentro de dias, o general Castello Branco assumiu a presidência e, ao longo dos próximos anos, o seu regime instituiu todas as características das ditaduras militares que a América Latina conhece:

O Congresso foi fechado oposição política reduzida foi virtualmente extinta, habeas corpus para “crimes políticos” foram suspensos, críticas ao presidente eram proibidas por lei, os sindicatos foram assumidas pelos interventores do governo, os protestos nas fábricas de montagem foram reprimidos por policiais e militares atirando nas multidões, o uso do “desaparecimento” como uma forma de repressão sistemática caiu sobre o palco da América Latina, as casas dos camponeses foram queimadas, os sacerdotes foram brutalizados pelo governo que tinha um nome para o seu programa: a “reabilitação moral” Surgiram a tortura e os esquadrões da morte, realizados por policiais e militares, financiados pelos Estados Unidos.

*****

O Escritório de Segurança Pública dos EUA (OPS), a CIA e a AID foram convocados para fornecer treinamento técnico, equipamentos e doutrinação no Brasil. Dan Mitrione do OPS, começou a sua carreira no Brasil na década de 1960. Em 1969, o OPS tinha estabelecido uma força nacional de segurança pública para o Brasil e treinou mais de 100.000 policiais no país, além de 523 terem recebido instruções avançadas nos Estados Unidos. Cerca de um terço do tempo dos alunos nas academias de polícia foi dedicado a palestras sobre a “ameaça comunista” e a necessidade de lutar contra ela. A treinamento sobre explosivos e técnicas de controle de distúrbios foram outros aspectos importantes da educação.

“As torturas variam de golpes simples aos mais brutais passando do cassetete a choques elétricos. Muitas vezes a tortura é mais refinada: a ponta de um cano é colocado no ânus de um homem nu pendurado suspenso para baixo no pau de arara enquanto um pedaço de algodão embebido em gasolina é aceso na outra extremidade. Mulheres grávidas foram obrigadas a assistir seus maridos serem torturados. Outras mulheres foram penduradas nuas ao lado de seus maridos e receberam choques elétricos nas partes sexuais e outras regiões do corpo, enquanto eram submetidas ao pior tipo de obscenidades. Crianças foram torturadas antes de seus pais e vice-versa. Pelo menos uma criança, o bebê de Virgilio Gomes da Silva, com três meses de idade, morreu sob tortura policial. A duração das sessões dependia da capacidade de resistência das vítimas e, por vezes, continuava por um dia inteiro de cada vez.”

“O juiz Agamenon Duarte indicou que o CCC [Comandos de Caça aos Comunistas, um esquadrão da morte armado e auxiliado pela polícia e a CIA] estão implicados no assassinato do Padre Henrique Neto. Ele admitiu que o serviço secreto americano (CIA) estava por atrás do CCC.”

Aliás, é elucidativo, nesse sentido, o discurso do General Breno Borges Fortes, Comandante do Estado Maior do Exército, durante a 10ª Conferência dos Estados Americanos ocorrida em Caracas: “O inimigo é indefinido, usa mimetismo, se adapta a qualquer ambiente e usa todos os meios, lícitos e ilícitos, para lograr seus objetivos. Ele se disfarça de sacerdote ou de professor, de aluno ou de camponês, de vigilante defensor da democracia ou de intelectual avançado, de piedoso ou de extremado protestante, vai ao campo e às escolas, às fábricas e às igrejas, à cátedra e à magistratura; usará, se necessário, o uniforme ou o traje civil; enfim, desempenhará qualquer papel que considerar conveniente para enganar, mentir e conquistar a boa-fé dos povos ocidentais. Daí porque a preocupação dos Exércitos em termos de segurança do continente deve consistir na manutenção da segurança interna frente ao inimigo principal; este inimigo, para o Brasil, continua sendo a subversão provocada e alimentada pelo movimento comunista internacional.” Jornal da Tarde, São Paulo, 10 de Setembro de 1973, apud Arquidiocese de São Paulo. ob. cit., p. 60.

Em 1970, um grupo de estudo do Congresso dos EUA visitou o Brasil e fez o seguinte resumo sobre as declarações de conselheiros militares norte-americanos:

“Em vez de debruçar sobre os aspectos autoritários do regime, eles acreditam, enfatizam e apoiam as afirmações das forças armadas brasileiras, sobre a democracia representativa como um ideal que permitiria retornar o governo para o controle civil se isso pudesse ser feito sem sacrifício para a segurança e o desenvolvimento. Esta retirada da arena política não é vista como possível de ocorrer em um futuro próximo. Por essa razão eles enfatizam a importância da continuidade do programa de treinamento e assistência militar como um meio de exercer a influência dos EUA e manter a atitude atual pró-EUA das forças armadas do Brasil. Possíveis desvantagens para os interesses dos EUA em ser tão estreitamente identificado com um regime autoritário não são vistas como particularmente importante.

Fonte: Brazil 1961-1964 – Introducing the marvelous new world of Death Squads

          Excerpted from the book  Killing Hope by William Blum

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

9 comentários

  1. Derrubada de governos foi para continuar a submissão aos EUA

    O longo e excelente artigo não deixam dúvidas de que os golpes no continente foram para manter a dependência dos “quintais americanos”.

    Qualquer governo que tentasse expandir as suas relações comerciais para outros países seriam derrubados.

    O artigo é mais uma prova de que o mote de que Jango caiu porque era fraco não se sustenta. A mentira está demonstrada.

    “Jânio da Silva Quadros, também havia irritado Washington. “Por que o os Estados Unidos possuem relações comerciais com a Rússia e seus satélites, mas insistem que o Brasil só possam ter comércio com os Estados Unidos?”

    O Brasil que alguns tentam esconder a sua história.

    • O recado foi dado

      Graduação de Cadetes Americanos  – 2014

      BARACK OBAMA | ACADEMIA MILITAR DE WEST POINT | 28/05/2014

      “Do Brasil à Índia, classes médias em ascensão competem conosco e os governos buscam maior influência nos fóruns globais.”

      “Em primeiro lugar, permitam-me repetir um princípio que apresentei no início da minha presidência: os Estados Unidos usarão de força militar, unilateralmente se necessário, quando nossos interesses centrais o exigirem — quando nosso povo estiver ameaçado, quando os nossos meios de subsistência estiverem em jogo, quando a segurança de nossos aliados estiver em perigo.”

      “Ainda precisamos fazer as perguntas difíceis sobre se nossas ações são proporcionais e eficazes e justas. A opinião internacional importa, mas os Estados Unidos nunca pedem permissão para proteger nosso povo, nossa pátria, ou nosso modo de vida.”

      Assis veja a correlação entre as palavras de Obama e Joe Biden, que discursou mais tarde, no mesmo dia, para os cadetes graduados pela Força Aérea.

      Lamento que a fala de Joe Biden, que encaminhei recentemente, tenha sido escamoteada no blog, porque ela é importante por, mais uma vez, revelar a geopolítica predatória que é retroalimentada pela voracidade corporativa sustentada pelo poderio bélico para consolidar o Destino Manifesto da sinistra nação norte-americana.

      O recado do presidente e do seu vice é límpido, claro e direto no queixo: – “Vamos impor a Nova Ordem Mundial, quer queiram ou não”.

      Abs.

  2. Ofereceram centenas de mihões

    Ofereceram centenas de mihões dedolares pra um, financiaram passeatas, ainda bem que isso não acontece hoje não?

  3. Sabendo dessas informações e

    Sabendo dessas informações e assistindo a campanha sistemática da imprensa contra o governo, as inexplicáveis posições conservadoras e contra o Brasil de Campos e Aécio, o posicionamento de Joaquim Barbosa na AP 370 me dá uma desconfiança… Fora esses malucos Black bocs que ninguém sabe de onde vem.

  4. E os brasileiros infiltrados,

    E os brasileiros infiltrados, aqueles que se fizeram passar por defensores dos valores patrióticos brasileiros, esses são traidores que devem ser identificados. Porque FHC e José Serra, entre outros foram auto-exilados?  FHC era de família de militares, seu pai era general, seu irmão oficial do exército, porque ele se auto exilou no Chile?  E o José Serra filho de família de feirantes, pessoas da classe média baixa, se exilou no Chile e depois milagrosamente foi estuda nos EEUU, com que dinheiro? Seriam eles infiltrados? Não só eles, quem são os infiltrados que podem ser identificados. Imagino que devem existir muitos infiltrados inclusive recebendo indenização do governo, passando-se ainda hoje por perseguidos pela revolução. Vamos identificar essas pessoas e contar a história verdadeira, quem souber deve trazer os fatos ao conhecimento publico.

  5. Toda vez que fico sabendo dessas

    safadezas realizadas por funcionários daquele governo eu penso que quem foi prejudicado com isso deveria pura e simplesmente processar o governo de lá para ser regiamente indenizado. 

    Quem sabe assim aqueles trapalhões se emendam, especialmente, se a conta da indenização caia no colo de quem fez a safadeza, caso ainda estiver vivo, não é ? 

    Por exemplo, seria muito interessante saber que um Fulano Brasileiro foi regiamente indenizado por ter sido torturado a mando de alguém que cursou aquela triste escola de ditadores, lá do Panamá, não é?

    E no fim e ao cabo de um processo desses, acabaremos por descobrir que a tal guerra fria nada mais foi do que uma estratégia de marketing de uma meia dúzia de empresas de lá, pessimamente administradas, mas doidas para ter um lucrinho a reboque dessas falcatruas. 

    Claro, sei que isso se parece apenas com um delírio, o que não paga imposto!

  6. Ainda bem que hoje se percebe

    Ainda bem que hoje se percebe como agiram e agem os bandidos unidos e seus braços auxiliares. PIG e Elites secretas estão novamente imbuídos na execução de novas desestabilizações e golpes. Por pouco não instalaram as bases da paz no RJ. No Paraguai tiveram êxito.  Duplo.

  7. Os traíras continuam ativos

    Tio Sam ainda não largou o carnudo osso tropical

    O Brasil é uma realidade e possui potencial para cumprir o seu destino, que só poderá ser contido por forças externas e pelos miseráveis que se prestam a fazer o desserviço de destabilização internamente.

    O agentes remunerados, traidores do invejado Gigante dos Trópicos, podem ser, facilmente, encontrados nas áreas de inteligência (manda-chuvas da ABIN, PF e outros) e, sem dúvidas, na MÍDIA, bem como, entre congressistas e nas instâncias superiores da magistratura brasileira.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome