Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro: A Geografia neste Agora e num certo Outrora, por João Victor Moré Ramos

De sólida formação humanística forjada nos decênios que marcaram os “anos dourados” da geografia brasileira (1950-60), Carlos Augusto participou ativamente na formação das bases que alavancaram a disciplina em território nacional

“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso,
a palavra foi feita para dizer”
(Graciliano Ramos)[1]

Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro

Nesse 23 de março, o professor Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro comemora seus 94 anos de voltas pelo mundo. Mesmo aposentado a quase quatro décadas, não “tirou o time de campo” e muito menos “pendurou as chuteiras”. Considerado um dos “monstros sagrados da geografia brasileira”[2] na feliz expressão de Armen Mamigonian, nosso “aprendiz de geógrafo”[3] nos brinda com seu mais recente livro , “A Geografia neste Agora e num certo Outrora (Série Livros Geográficos, n.8, Florianópolis) ” publicado pelo Instituto Ignácio Rangel (IIR) e o Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina.

De sólida formação humanística forjada nos decênios que marcaram os “anos dourados”[4] da geografia brasileira (1950-60), Carlos Augusto participou ativamente na formação das bases que alavancaram a  disciplina em território nacional, fazendo-se presente tanto no 1º Congresso Brasileiro de Geógrafos realizado em Ribeirão Preto (1954)[5], como também no XVIII Congresso Internacional de Geografia sediado no Rio de Janeiro (1956) – esse que foi considerado um divisor de águas na atividade geográfica[6], principalmente pelos “novos métodos de pesquisa” abertos pelo diálogo entre geógrafos do Brasil e do mundo[7]

Vinculado ao Conselho Nacional de Geografia (CNG-IBGE) em 1948 por sugestão da geógrafa Dora do A. Romariz, nosso mestre piauiense logo pode refinar seus estudos na área de climatologia tendo apoio de Lysia Bernardes e José Veríssimo da Costa Pereira, este último que o incentivou a publicar suas primeiras “notas para o estudo do clima do centro-oeste brasileiro (Revista Brasileira de Geografia, 1949)” redigido ainda quando era estudante do segundo ano na Universidade do Brasil (RJ). Anos mais tarde, já em Florianópolis, a pedido de João Dias da Silveira, ajudou a edificar o Departamento de Geografia e História na Faculdade Catarinense de Filosofia sob a direção do professor Henrique Fontes[8]. Aliás, não custa lembrar aqui seu extremo apreço por esse “pedacinho de terra perdido no mar”[9], lugar onde pôde experimentar o período áureo de sua vida entre os anos de 1955 a 1960  na Ilha de Santa Catarina, tanto pelo seu “batismo universitário” quanto pela efetiva participação no Departamento Estadual de Geografia e Cartografia (DEGC) – instituição em que contribuiu na continuidade dos pioneiros trabalhos iniciados pelo então engenheiro geodésico, que viria posteriormente se transformar num dos maiores geógrafos catarinenses, Victor Antônio Peluso Junior[10].

Durante esse período de intensa dedicação extraiu das lições de seus mestres, a começar por Delgado de Carvalho[11], como também dos geógrafos franceses e alemães que por aqui passaram (P. Deffontaines, P. Monbeig, F. Ruellan, J. Dresch, J. Tricart, P. George, R. Maack, L. Waibel, entre outros), uma característica peculiar e original de se fazer geografia de alto nível, igualando-se, e até mesmo ultrapassando seus precursores, como se vê na organização do pioneiro Atlas Geográfico de Santa Catarina (1958)[12] primeiro documento do gênero no país, prosseguindo nos estudos da dinâmica climática aplicados aos fenômenos urbanos[13], como as “ilhas de calor”, os desastres naturais na cidades[14], etc., – que anos mais tarde foram reunidos na organização e sistematização dos fenômenos da natureza caros ao paradigma de “Geossistemas – História de uma procura. São Paulo: Editora Contexto, 2002.”  

Com efeito, não é demais lembrar, que as custas desse paradigma, a geografia física brasileira foi capaz de afirmar sua maioridade muito antes de eclodir a “questão ambiental”, que teve na Conferência de Estocolmo (1972) apenas um “referencial”[15]. É que muito antes, Aziz Ab’Saber e João José Bigarella haviam promovido uma profunda revolução nos marcos da geomorfologia climática mundial a partir do resultado dos estudos sobre a gênese e a evolução das formas de relevo nos domínios morfoclimáticos do quaternário que, a rigor, tinham para si a tarefa “salvaguardar as riquezas naturais e utilizá-las melhor para a luta contra a miséria e a fome”.[16] Nessa direção, Carlos Augusto pode vislumbrar “a importância da sequência no estudo dos processos”[17] climáticos, aprimorando suas noções da “dinâmica, gênese e ritmo”[18] do fenômeno atmosférico, numa profunda diferenciação entre os propósitos da meteorologia e os da geografia.

Das contribuições de Adalberto Serra sobre os estudos das frentes polares no continente sul-americano e suas diferenças espaciais na distribuição das chuvas”, somadas as contribuições de Max Sorre quanto a sucessão e ritmo dos tipos do tempo, nosso mestre pode confrontar os prognósticos meteorológicos caracterizados por “padrões espaciais de regionalização” e seus valores indecimétricos a partir do local para o geral”, para assim chegar a conclusões sobre “a percepção do papel do comportamento climático na análise da qualidade ambiental”[19]. Daí que ao divergir dos catálogos de tipos de tempo utilizados por P. Pédelaborde, propôs a “perseguição do ritmo climático como estratégia operacional a fim de expressar “as necessidades do homem na organização do espaço agrário ou urbano”, e não como “critério meteorológico de afastamento ou desvio de padrões médios”[20].

Em síntese, essa busca por renovar os estudos geográficos sobre o clima perpassou toda sua trajetória de ensino, pesquisa e extensão nas universidades de Rio Claro (UNESP), Brasília (UNB), São Paulo (USP); nos programas de Pós-Graduação em Geografia da UFSC e UFMG, levando-o a consolidar uma verdadeira escola de Climatologia Geográfica no Brasil[21]. Ademais, vale lembrar que por um decênio (1975-1985), atuou na assessoria da Secretária do Planejamento, Ciência e Tecnologia da Bahia (SEPLANTEC), onde produziu junto a uma equipe interdisciplinar de profissionais, o Atlas Climatológico da Bahia (1976), o levantamento do uso da terra e da qualidade ambiental na região central do Estado (1978-81), bem como o estudo da qualidade ambiental na grande Salvador e no Recôncavo baiano (1984).

No entanto, mesmo após sua aposentadoria em 1987 como professor Titular da Universidade de São Paulo, Carlos Augusto não perdeu o ímpeto da curiosidade e tão pouco a coragem de levar as últimas consequências a atividade geográfica à novos campos de pesquisa ainda pouco explorados. Seguindo à risca dos mestres Aziz e Bigarella, renunciou a “angústia da influência”[22] muito em voga nos ambientes intelectuais, e assumiu a tarefa de trazer a público o esforço duplo em decifrar suas raízes familiares e regionais[23] nas obras Tempo de Balaio[24] e Rua da Glória[25] escrito entre 1991 e 1993, como também de abrir veredas por sucessivas aproximações da geografia ao campo da cultura[26] e da arte[27] ao longo das últimas décadas.

É assim que chegamos ao seu mais recente livro, fruto da reunião e organização de textos produzidos no despertar do terceiro milênio (1998-2004). Sob a tríade liberdade, ousadia e humildade, Carlos Augusto nos convida a uma verdadeira incursão geográfica em uma série de artigos e palestras dos mais variados temas da “questão nacional”, numa clara posição avant la lettre de repensar: 1) o papel unitário da geografia no mundo atual, distanciando-se do apartheid entre geografia física-geografia humana promovido pelos maiores centros de excelência do mundo ocidental; 2) os desdobramentos da geografia cultural no Brasil e suas relações “espaço-literatura” propostas pela emergente geografia humanística, que tem no ensaio sobre o “Grande Sertão:Veredas” de Guimarães Rosa, lugar privilegiado em suas elucubrações ontológicas do “ser sertanejo”; 3) a grande crise histórica que atravessamos nesse século XXI, colocando no cerne da questão urbana o estatuto de “desencantamento” que reveste as cidades, sobretudo as metrópoles e megalópoles, com foco nos elementos de continuidade da urbanização brasileira já apontadas desde “Sobrados e Mucambos” de Gilberto Freyre, isto é, sua “condição bilateral de uma natureza intertropical e uma sociedade subdesenvolvida ou em esforço de desenvolvimento; 4) além de algumas notas introdutórias sobre a abordagem da epistemologia da Geografia nos desafios impostos pelo futuro da humanidade.      

Por essas e outras questões, este livro trata-se de leitura obrigatória, fonte seguramente iluminada de lucidez que encanta mais uma vez a ciência e o povo brasileiro.

Obs.: Por conta da pandemia, o lançamento presencial do livro com direito a sessão de autógrafos pelo autor continua adiado desde março de 2020, aguardado num futuro próximo sua realização. Para maiores informações acesse: https://cadernosgeograficos.ufsc.br/aquisicao/


[1] Entrevista. In: Silveira, J. Na Fogueira: memórias. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.

[2] Mamigonian, A. Bigarella, o Humboldt brasileiro?, Espaço Aberto, Rio de Janeiro, PPGG-UFRJ, v.6, n.2, p.159-163, 2016.

[3] Monteiro, C. A. de F. Geografia sempre – O homem e seus mundos. Campinas: Edições Territorial, 2008. 255p.

[4] Lima, M. A. de. Os anos dourados da geografia brasileira: antecedentes, realizações e consequências dos anos 50 e 60, Rio de Janeiro, Revista Geo-paisagem (on line), ano 2, n.3, jan-jun de 2003. 

[5] Noticiário-Associação dos Geógrafos Brasileiros (Primeiro Congresso Brasileiro de Geógrafos e IX Assembleia Geral Ordinária da A.G.B.) – União Geográfica Internacional (XVIII Congresso Internacional de Geografia). Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, n.18, out. 1954.

[6] Monteiro, C. A. de F. A Geografia no Brasil (1934-1977). Série “Teses e Monografias”, nº 37. São Paulo: IGeo da USP, 1980.

[7] Pereira, J. V. da C. A Geografia no Brasil. In: AZEVEDO, Fernando de (Org.). As ciências no Brasil. V.1 São Paulo: Melhoramentos, 1955, p. 349-461.

[8] Entrevista com o professor Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro. Geosul, Florianópolis, nº12/13, ano VI, 2º semestre de 1991 e 1º Semestre de 1992.

[9] Rancho de Amor à Ilha. Hino oficial de Florianópolis de autoria do poeta Claudio Alvim Barbosa (Zizinho). 

[10] Monteiro, C. A. de F. Florianópolis: o direito e o avesso. In: Florianópolis do outro lado do espelho. Pimenta, M. de C. A. (Org.). Florianópolis: Ed. Da UFSC, 2005.

[11] Monteiro, C. A. de F. Prefácio. In: Carvalho, Delgado de. O Brasil Meridional: estudo econômico sobre os estados do sul: São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Trad. Ana G. Mamigonian. Florianópolis, IIR/GCN/CFH/UFSC2016. (Série Livros Geográficos; 6) 

[12] Mamigonian, A. A Geografia francesa nos meados do século XX e a Contribuição de Jean Tricart. In: Da teoria à prática da geografia global: abordagem transdisciplinar proposta por Jean Tricart. Silva, T. C. da (Org.). Florianópolis: GCN/CFH/UFSC, 2011. (Série Livros Geográficos; 3)

[13] Monteiro, C. A. de F. Teoria e Clima Urbano. (Tese apresentada ao Concurso à Livre Docência em Geografia Física no Departamento de Geografia da FFLCH-USP). Série “Teses e Monografias”, nº 25 – 181p. São Paulo, IGeo da USP, 1976./ Clima e Excepicionalismo – conjecturas sobre o desempenho da atmosfera como fenômeno geográfico. Florianópolis: Editora da UFSC, 1991, v.1. 239p.

[14] Monteiro, C. A. de F. Contribuição à Geografia do Estado de Santa Catarina. In: Atlas de Desastres Naturais do Estado de Santa Catarina: período de 1980 a 2010. Maria Lucia de Paula Herrmann. 2ª Ed. atual. e rev. – Florianópolis: IHGSC/Cadernos Geográficos, 2014. 219p. : il., grafs., tabs., mapas.

[15] Monteiro, C. A. de F. A Questão Ambiental no Brasil: 1960-1980. Série “Teses e Monografias”, nº 42, 136p. Ilustrado. Instituto de Geografia da USP, 1981.

[16] Tricart, J. Tendências atuais da geomorfologia. In: Visitas de mestres franceses. Rio de Janeiro, IBGE. 1963. p.1-22

[17] Monteiro, C. A. de F. Relembrando Jean Tricart. In: Da teoria à prática da geografia global: abordagem transdisciplinar proposta por Jean Tricart. Silva, T. C. da (Org.). Florianópolis: GCN/CFH/UFSC, 2011. (Série Livros Geográficos; 3).

[18]Sant’anna Neto, J. L. História da climatologia no Brasil – Gênese e paradigmas do clima como fenômeno geográfico. Cadernos Geográficos, n.7, Departamento de Geociências/UFSC. Florianópolis, maio de 2004. 124p.

[19] Monteiro, C. A. de F. O Estudo Geográfico do Clima. Cadernos Geográficos / Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Departamento de Geociências. – nº 1 – Florianópolis: Imprensa Departamento de Geociências, 1999.

[20] Monteiro, C. A. de F. A Climatologia do Brasil ante a renovação atual da Geografia: Um depoimento. In: Associação dos Geógrafos Brasileiros – Simpósio Renovação da Geografia, XXV Reunião Anual da SBPC, Rio de Janeiro, 1973.

[21] Monteiro, C. A. de F. Clima e Excepcionalismo – conjecturas sobre o desempenho da atmosfera como fenômeno geográfico. Florianópolis: Editora da UFSC, 1991./Clima Urbano: São Paulo: Contexto, 2002.

[22] Bloom, H. A Angustia da Influência. Uma teoria da poesia. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

[23] Não menos importante, foi sua “Introdução à história da Amazônia brasileira – Manaus: Editora UFAM, 2012” escrita ainda nos tempos em que foi professor visitante das universidades de Tsukuba e Tenri no Japão.               

[24] Monteiro, C. A. de F. Tempo de Balaio. Florianópolis: UFSC/CFH/GCN, 2008. (Série Livros Geográficos; 1).

[25] Monteiro, C. A. de F. Rua da Glória. V.1,2,3,4. Teresina: EDUFPI, 2015. 1520p.

[26] Monteiro, C. A. de F. O mapa e a trama – ensaios sobre o conteúdo geográfico em criações romanescas. Florianópolis: Editora da UFSC, 2002. 242p.

[27] Monteiro, C. A. de F. O Cristal e a Chama: o sentimento do mundo na comunicação geográfica e na expressão artística nas grandes crises introdutórias às modernidades. Dourados: Editora UFGD, 2013. 287p.

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