Kim Philby, o maior espião da Guerra Fria

Por Motta Araujo

Uma estória extraordinária de espionagem que nem Ian Fleming escreveria, Harold Adrian Russell Philby, nascido na Índia e filho de um alto funcionário do Serviço Civil Indiano (a estrutura britânica que governava a Índia) em 1912, teve uma brilhante carreira de jornalista e depois funcionário do Serviço Secreto Inglês, chegou a Chefe do Setor de Contra-Inteligência, um dos mais altos cargos do mais antigo e respeito serviço secreto do mundo.

O mesmo homem tinha uma segunda vida. Era desde 1935 um dos principais espiões soviéticos na Europa. Seu recrutamento se deu através de uma namorada em Viena, com a qual depois casou, Litzi Friedman, uma comunista do meio estudantil austríaco, judia húngara, que Philby conheceu através de Maurice Dodd, seu professor em Cambridge, onde Philby se formou em economia e história. Dodd, um conhecido marxista, escritor de livros importantes sobre história econômica tinha contatos com o underground socialista no continente europeu. Philby conseguiu um emprego de correspondente do então mais importante jornal inglês, The Times para cobrir a Guerra Civil Espanhola. Seu controlador soviético, Arnold Deutsch (codinome Otto) e depois Anatoly Gorski, residente da OGPU em Londres o orientaram para se posicionar como pró-franquista e ganhar prestígio no lado nacionalista. Philby desempenhou tão bem seu papel que ganhou de Franco a mais alta condecoração do lado rebelde, a Medalha do Mérito Militar, em 3 de março de 1938. Filiou-se a sociedades direitistas e a favor da amizade com a Alemanha nazista em Londres.

Já nessa época Philby escapou de delações como por milagre. O agente da GRU de Paris, Walter Krivitzky  passou-se para o Ocidente e informou ao MI6 que havia um jornalista do The Times que era espião soviético, os ingleses não investigaram, talvez porque não acreditaram e Krivitsky foi assassinado com um tiro em um quarto de hotel.

O novo controlador de Philby passou a ser Alexander Orlov (nome verdadeiro Leiba Feldbin) em Londres. Philby em Setembro de 1941 é nomeado chefe da Seção V do MI6, a Contra-Espionagem, caberia a ele identificar e prender espiões estrangeiros na Inglaterra. Um agente americano, que muitos anos depois o reencontraria sendo então um dos diretores da CIA, James Angleton, suspeitou de imediato de Philby mas era muito júnior para dividir sua opinião com ingleses.  Philby era da alta classe inglesa, era formado num dos templos dessa casta, o Trinity College de Cambridge, onde só entrava a classe alta e isso lhe dava completa proteção, personagens da casta estavam acima de qualquer suspeita, viviam em um mundo fechado e protegido, seria impensável um deles ser espião soviético.

Em 1947, finda a guerra, é transferido para Istambul como residente do MI6 na Turquia e em Setembro de 1949 vai para Washington como Primeiro Secretário da Embaixada britânica e na realidade chefe do serviço secreto britânico nos EUA. Trabalham com ele dois colegas de Cambridge, Donald Mac Lean e Guy Burgess. O grupo é instrumento central no controle da rede de espionagem atômica que transferiu importantes segredos da bomba para a URSS, do qual faziam parte Klaus Fuchs, Harry Gold, David Greenglass e Julius e Ethel Rosenberg.

Os americanos são os primeiros a suspeitarem fortemente de MacLean, que tinha senha de acesso irrestrito ao laboratório de Los Alamos, onde estava todo o banco de dados para construção da bomba atômica e de Burgess.

A partir dessas suspeitas os dois são chamados a Londres para interrogatório e antes que esse comece em 28 de maio de 1951, os dois fogem para Moscou em 25 de maio, 3 dias antes.  Quem os avisou? Poucas pessoas sabiam da suspeita, não seria o Rei ou o Primeiro Ministro a avisá-los, sobrou Philby, sua situação fica insustentável e em julho de 1951 pede demissão do Serviço Secreto mas não é interrogado. Volta pra o jornalismo e vai para Beirut em 1956 como correspondente de The Economist. Ainda assim o Primeiro Ministro Harold MacMillan faz um discurso na Câmara dos Comuns dizendo que não tem razões para suspeitar que Philby seja o Terceiro Homem da espionagem soviética na Inglaterra, a expressão Terceiro Homem passou a ser usada na imprensa inglesa em relação de mais um espião que deveria existir e ainda não tinha sido revelado. Essa expressão foi título de uma biografia de Philby.

Em 1961 não há mais o que esconder, Anatoly Goltsky, do Primeira Diretoria da KGB foge para os EUA e entrega Philby.

Em 23 de janeiro de 1963 Philby é interrogado em Beirut e confessa. Antes da sessão seguinte foge para Moscou

Morre em 1988 como General da KGB e está enterrado no muro do Kremlin.

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20 comentários

  1. Suspense.
    Caro Motta, normalmente não concordo com seus post e comentários, mas convenhamos, este enredo nas mãos de bons roteiristas daria um filme para nenhum 007 botar defeito, ou melhor ainda, daria um exelente livro.

    • Meu caro, agradeço, a

      Meu caro, agradeço, a biografia de Philby é muito mais interessanqte do que meu pequeno post, ele bebia muito, bebado de cair, é incrivel como nunca, mesmo bebado, se deixou pegar em contradição. manteve vida dupla por 30 anos, era tambem muito mulherengo, teve cinco casamentos e foi amante da mulher de MacLean, Melinda.  O anel de espionagem sovietica de Philby era conhecido como The Cambridge Five, eram cinco, o ultimo foi pego nos aos 80, Sir Anthony Blunt, curador da coelção de arte da Rainha Elizabeth II. MacLean, Burgess e Blunt eram homossexuais.

  2. Terceiro homem

    Graham Greene conheceu Philby foram amigos e ambos trabalharam para o MI6 durante a 2ª guerra. O escritor publicou ” The Third Man” (originou filme homônimo com Joseph Cotten) em 1949, ficção que não tem nada a ver com o famoso espião.

    “Quando Philby foi exposto como um agente duplo em 1963, Greene ganhou o opróbrio de sua Inglaterra natal, defendendo publicamente a traição de Philby. Greene afirmou que Philby apenas seguiu uma moral mais elevada do que país – sua crença no comunismo.”

    • ?????

      A devoção dos dois ao comunismo era bem documentada e pública, porém os Rosenbergs negaram participação nas acusações de espionagem desde sempre.

      A realidade é que foram justiçados por serem comunistas. “Um linchamento legalizado que mancha de sangue toda uma nação” foi a definição de Sartre para o caso. E até o Papa Pio XII (devia ser um comuna enrustido, rs, rs, rs) intercedeu sem sucesso junto à Ike pela clemência aos dois.

      Boris Brokhovich, diretor da instalação Chelyabinsk 40, onde a bomba A soviética foi gestada declarou ao New York Times: “You sat the Rosenbergs in the electric chair for nothing” (Colocaram os Rosemberg na cadeira elétrica por nada) em 1989 e que o desenvolvinmento do artefacto soviético havia sido por meio de tentatyiva e erro.

       

      • Todo o esquerdista é inocente

        Todo o esquerdista é inocente não importa quanto se prove a sua culpa.

        O esquerdista não é um criminoso que comete crime pelo interesse pessoal, ele faz  em nome da causa e isso o justifica moralmente cometer as maiores atrocidades contra a humanidade.

        No fim ele vai dizer que fez tudo que fez para o bem da humanidade mesmo que isso signifique a morte de milhões.

        A moralidade da mente resquerdista não funciona da mesma forma de uma pessoa normal a psicopatia esquerdista anda de mãos dada com a ilegalidade.

        A esquerda defende a criminalidade pq antes de tudo o criminoso é um proto revolucionário, se mata um burguês esta fazendo justiça social, se mata um pobre da mesma forma é justilça social pq pobre que reproduz o modo capitalista de opressão é opressor da mesma forma que o burgês.

        • Afirmações vazias de um “direitista”

          Quando um direitista não tem argumentos razoáveis (quase sempre), inventam frases “marcantes” como:

          “Todo o esquerdista é inocente não importa quanto se prove a sua culpa.”

          Pode-se-ia dizer que “todo direitista é crente, não importam as razões, os fatos e dados … nem as pessoas”

          Só não digo por que não sou nem um nem outro.

  3. Philby

    Boa noite Nassif – Um bom filme sobre ele é “The Cambridge Spies (BBC, 2003) e um bom livro que acabou de sair “A spy among friends – Ben MacIntyre, 2014) documentado pela BBC em 02/04/2014 como Kim Philby – His Most Intimate Betrayal, narrado e apresentado por Ben MacIntyre.

  4. Na verdade foi essa debacle

    Na verdade foi essa debacle (a defeção de Burguess e Mac Lean primeiro, o caso Profumo (um político importante do parlamento britânico enredado num relacionamento homossexual) e a deserção posterior de Philby que fizeram do serviço secreto inglês piada entre a comunidade da espionagem.) Isso e a constatação de que Inglaterra era agora vil coadjuvante dos Estados Unidos na geopolítica internacional que fizeram Ian Fleming idealizar um romance em que os ingleses continuavam ainda no comando da história, papeando de igual para igual com as novas potencias surgidas após a segunda guerra mundial. Esse romance chamava-se “Cassino Royale”…

    • Nada a ver. Defecções todos

      Nada a ver. Defecções todos os serviços secretos tem, não é só o inglês. O que mais teve defecções e agentes duplos foi o serviço secreto sovietico, OGPU, NKVD e KGB, um total de 600 defecções em sua historia de 1917 a 1990.

      O serviço secreto britanico conseguiu feitos extraordinarios na Segunda Guerra, avisaram Stalin da invasão alemã com data, hora e ordem de batalha,  Stalin não acreditou. Foi a partir da iniciativa do serviço secreto inglês que o codigo ENIGMA foi quebrado, possibiliando desvendar o trafego telegrafico alemão desde 1941, foi um dos eventos chaves das vitorias dos aliados na guerra.

      • Liszt

          Codinome de John Cairncros no GRU, durante a II GM.

           John Cairncross ( o 5o Homem de Cambridge), trabalhava na Cypher School de Bletchley Park, e de acordo com ele mesmo, após interrogatório, chegou a passar mais de 6.000 documentos “ULTRA”, interceptados pelos ingleses, para seus controladores soviéticos, incluindo toda a ordem de batalha e eixos da Operação Zitadelle ( Batalha de Kursk).

            Dos “5”, Cairncross foi o unico que não fugiu, ou foi processado pela Coroa, tendo sido revelado como o famoso 5o Homem, em 1.990.

        • Com o importante detalhe que

          Com o importante detalhe que na Batalha de Kursk a União Sovietica era ALIADA da Inglaterra, ajudando os sovieticos

          com informações sobre os alemães Cairncross não estava prejudicando a Inglaterra.

          • Autobiografia

             Exato, MAS, em sua autobiografia ” The Enigma Spy” – Cairncross relata que todos seus auxilios e “entregas” aos soviéticos, inclusive de como funcionava teoricamente a maquina Colossus e alguns programas de decriptação, prendia-se ao fato de que os britanicos demoravam muito para fornecer informações a seus aliados soviéticos, portanto quando de sua descoberta, ele declarou não ser um traidor, pois afinal em 1951 ele já tinha se desligado do MGB – aliás a unica reprimenda que ele teve, foi a demissão – posteriormente trabalhou anos na ONU, morando no Sul da França.

              De acordo com os arquivos soviéticos – tanto da KGB, como do GRU – e os depoimentos de Serov, Orlov e Gordievsky, após a II GM, Cairncross não “produziu” nada de relevante, sendo “desligado” em principos da década de 50.

              P.S.: A história dos 5 de Cambridge, da Rotte Kapelle e da Conexão Tóquio ( Sorge/Ozumi), retrata bem a paranóia stalinista, e como multiplos serviços de inteligência podem competir entre si, e sabotar os interesses de seu próprio Estado.

    • O “”Caso Profumo”” não tem

      O “”Caso Profumo”” não tem nada a ver com homossexualismo e sim com a amante de Profumo, um eminente politico conservador do Gabinete MacMillan, Ministro da Defesa. A moça, Christine Keeler, era tambem amante do Adido Militar sovietico em Londres, quando o fato foi descoberto tornou-se um mega escandalo que derrubou o governo conservador.

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