Sugerido por Pedro Penido dos Anjos
Do Valor
No tempo em que Copa era coisa de comunista
Por Maria Cristina Fernandes
Jovens militantes tiveram os fios de seus alto-falantes desligados pela polícia na Central do Brasil ao iniciarem a campanha de recolhimento de fundos para seu candidato. Jovens esquerdistas em passeata contra o que consideravam entreguismo da política externa foram presos em frente ao Itamaraty. O caos urbano ditava a manchete de domingo do principal jornal do Rio: “Transporte, aflição eterna do carioca”.
Em mensagem enviada ao Congresso Nacional, o presidente pedia instrumentos para garantir a ordem interna: “Urge aparelhar o Estado para defender-se internamente contra os inimigos da democracia que vêm atentando, reiterada e organizadamente, contra as nossas instituições nascentes”.
A julgar pelas edições do ‘Correio da Manhã’, este era o clima no Rio que antecedia a Copa do Mundo de 1950.
Os jovens reprimidos pela polícia faziam campanha pelo brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN. A passeata contra a comitiva americana era liderada por simpatizantes do Partido Comunista. E o presidente em busca de mais instrumentos de repressão era o general Eurico Gaspar Dutra, o primeiro dos eleitos naquele suspiro de democracia que foi de 1946 até o golpe de 1964.
Não faltavam os precursores dos black blocs. As obras de adequação do estádio do Pacaembu ainda não haviam se iniciado quando eclodiu uma manifestação em São Paulo contra o aumento de 150% na tarifa de bondes. A recém-criada Companhia Municipal de Transporte Coletivo (CMTC), passou a ser chamada de ‘Custa Mais Trinta Centavos’. Houve pichações nos muros, depredações no comércio e bondes queimados. Como lhes faltassem máscaras, escaparam de passar à história como terroristas.
Era outro o Brasil. A começar pelo futebol, que ainda disputava com o turfe a centrimetragem dos jornais. Desde 1946 o Brasil dera o sim à Fifa, que depois de uma Europa destroçada pela guerra, se desesperava em busca de uma sede para a Copa. As obras tardaram e as seis cidades-sede apenas se definiram três meses antes do evento.
Getúlio fez 40 discursos sem mencionar a bola
No recém-lançado “A História do Brasil em 50 Frases” (Leya, 2014), o jornalista Jaime Klintowitz pinça uma de Pelé – “Maracanã é Maracanã. Uma vitória ali vale por duas em qualquer lugar do mundo” – para contar a situação do estádio no dia da inauguração: “Havia muita poeira e áreas sem acabamento. Os torcedores encontraram andaimes nas arquibancadas, entulho e muito barro por toda a parte. A tinta azul das cadeiras manchava a roupa dos espectadores, em um tempo em que muita gente comparecia aos jogos de terno e gravata”.
Nos jornais fazia-se muchocho dos gastos, ainda que tenham sido 70 vezes menores que os de hoje. O país era 21 vezes mais pobre e tinha uma gente que vivia até os 43 anos (ante 74 hoje), sendo metade analfabeta, fatia quase sete vezes maior que a de agora.
A Copa ainda não era um megaevento, vitrine mundial de feitos e malfeitos de potências e aspirantes. Apenas 13 países participaram. Havia pouco envolvimento federal. Foi tema local ainda que politizado. Prefeitos e Câmaras de Vereadores enfrentaram-se. O Maracanã foi uma batalha travada entre Carlos Lacerda, então vereador da UDN, e o prefeito nomeado do Distrito Federal, general Ângelo Mendes de Morais, a quem acusaria de ser o mentor de um dos atentados que sofreria durante a pendenga.
Ao lado do prefeito perfilaram-se o compositor de Aquarela do Brasil, Ary Barroso, também vereador da UDN e segundo mais votado da Câmara Municipal, depois de Lacerda, e os 18 da bancada do Partido Comunista, liderados por Aparício Torelly, o ‘Barão de Itararé’.
Em artigo na imprensa sindical, João Guilherme Vargas Neto disse que aquela foi a primeira batalha da guerra fria no Brasil. O envolvimento dos vereadores comunistas com o Maracanã foi uma de suas últimas batalhas públicas antes da cassação do partido, feito resultante da mensagem presidencial em que Dutra pedira poderes antibaderna.
Numa época sem televisão, jornais e rádios ocuparam-se da Copa. Em sua campanha pela construção do Maracanã, o ‘Jornal dos Sports’ encomendou pesquisa ao Ibope. A bancada pró-Copa no jornal era liderada por Mário Filho, o cronista esportivo irmão de Nelson Rodrigues que, mais tarde, daria nome ao estádio.
O Ibope colheu 79,2% de aprovação à construção do Maracanã. Apenas 6,9% concordavam com sua localização em Jacarepaguá, para onde Lacerda, depois de ter perdido a batalha, queria levá-lo. Num universo de mil entrevistados, 53,6% se dispunham a arcar com algum ônus tributário para ajudar no custeio do estádio, uma empreitada do poder municipal.
Aquele Brasil da primeira Copa também estava em campanha presidencial. O brigadeiro Eduardo Gomes foi o primeiro a se lançar pela UDN em aliança com os integralistas de Plínio Salgado. O PSD ofereceria o ex-prefeito de Belo Horizonte, Cristiano Machado, cujo abandono por seus correligionários daria origem ao termo ‘cristianização’.
Os governistas abandonariam Machado por Getúlio Vargas, que se lançaria pelo PTB em discurso de 16 de junho, véspera do jogo que inaugurou o Maracanã, oito dias antes do início da Copa do Mundo.
Dali até o dia da eleição, em 3 de outubro, Getúlio faria a defesa de seu legado no Estado Novo, atacaria a política econômica inflacionária de seu sucessor e prometeria servir aos trabalhadores colocando o país a salvo dos ‘totalitários de direita’ e dos ‘revolucionários de esquerda’. Ao longo de seus três meses e meio de campanha, Getúlio viajou por 21 Estados. De Erechim, no seu Rio Grande do Sul natal, até Marabá, passando por Mossoró, Corumbá e Pirapora. Defendeu da produção da cera de carnaúba ao panamericanismo. A leitura de seus 40 discursos reunidos pela José Olympio (“A Campanha Presidencial”, 1951), porém, não oferece uma única referência à Copa do Mundo. Getúlio foi eleito com 48,7% dos votos, um pouco menos que a soma de seus dois principais adversários.
Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras
Lucas Gomes
24 de fevereiro de 2014 3:25 pmos protestos contra a Copa de
os protestos contra a Copa de 1950 certamente estavam orquestrados com a guerra na Coreia e as potências neo-coloniais na África. Os meliantes recebiam 150 cruzados de agremiações políticas marginalizadas, que em conluio com a doutrina Roosevelt queriam acabar com a independencia nacional, prestes a se materializar através de um grande campeonato de futebol.
claudio mesquita
24 de fevereiro de 2014 5:15 pmPra falar tanto clichê assim
Pra falar tanto clichê assim precisa fazer algum curso? Pelo que eu entendi do texto as manifestações contra eram incentivadas pela UDN, como parecem ser agora. Basta colocar uma bandeira clamando por agum tipo de justiça na mão de jovens cheios de energia que você reune a manada. Isso é tão antigo.
Agora, é ingenuidade não perceber que existe um jogo de dominação geopolítica no mundo, que inclui como tática a desestabilização dos países renitentes, através de incentivos a revoltas populares. Mas aí é preciso compreender a história da humanidade e o contexto que vivemos no Brasil. Mas parece que para essa juventude fast-food os clichês são suficientes.
Diogo Costa
24 de fevereiro de 2014 3:39 pmReminiscências
O BRASIL E AS COPAS – Em 1946 o Brasil apresenta a sua candidatura para sediar a Copa do Mundo de 1950 (as edições de 1942 e 1946 foram suspensas em função da II Guerra Mundial).
A FIFA aceita a proposta verde-amarela e iniciam-se as obras para a referida Copa, que deveriam ser feitas em período exíguo de tempo.
Foram construídos dois estádios para a Copa, o Maracanã e o Independência (hoje a referência é o “caiu no Horto tá morto”, graças aos jogos recentes do Atlético Mineiro).
No total, seis estádios e cidades sede foram palco da Copa do Mundo de 1950. Os outros quatro estádios utilizados passaram por reformas.
Eram eles a Ilha do Retiro, em Recife. O Estádio dos Eucaliptos (antigo estádio do Internacional), em Porto Alegre. O Pacaembu em São Paulo e a Vila Capanema, em Curitiba (poucas reformas foram necessárias pois o estádio fora inaugurado em 1947).
Resumindo, estádios foram construídos e reformados numa época em que a maioria da população brasileira vivia em zonas rurais e em que a economia da Argentina ainda era maior do que a nossa!
Se alguém, em sã consciência, conseguir justificar o secular atraso do Brasil em matéria de educação, saúde, segurança, tecnologia, saneamento básico e outras necessidades históricas, em função da realização da Copa do Mundo de 1950, juro que passarei a criticar com veemência os investimentos para o Mundial de 2014.
Essa tese de apontar a realização de uma Copa do Mundo ou de uma Olimpíada num determinado país, como a causa principal dos males desse mesmo país, é amplamente falsa!
Com ou sem Copa do Mundo, os problemas de uma nação permanecem.
A Copa ou Olimpíada apenas acelera obras e investimentos que, se não fosse pela realização desses jogos, talvez demorassem vinte, trinta ou mais anos para serem feitos.
O que muda um país é o investimento contínuo em saúde, ciência e educação, os níveis de emprego e renda, dentre outros. Com ou sem Copa!
Para ficar apenas no campo da educação, lembremo-nos de que nos últimos dez anos foram construídas catorze novas universidades federais, quase três centenas de escolas técnicas, PROUNI, ENEM, FUNDEB, cotas étnicas, sociais e para estudantes oriundos do ensino médio público.
Sem falar que nos últimos dez anos o Brasil foi o terceiro país do mundo que mais cresceu e evoluiu no famoso teste educacional do PISA.
E tudo isso numa época em que vivemos em regime de pleno emprego, com aumentos reais nos dissídios da classe trabalhadora e no valor do salário mínimo.
Com diminuição das desigualdades sociais e regionais e ampla distribuição de renda. O trinômio emprego, renda e salário é que é o verdadeiro responsável pelo sucesso macroeconômico do Brasil atual.
E não esqueçam, estamos no meio da maior crise econômico-financeira existente no mundo desde o Crash de outubro de 1929. Crise essa que irrompeu com a falência do banco Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008!
Vejam o que está ocorrendo na Europa e comparem com o Brasil…
Enfim, culpar a Copa pelos problemas do Brasil ou de qualquer país do mundo me parece um evidente exagero, quase um disparate!
Como é um irrefutável disparate dizer que se o Brasil não tivesse sediado a Copa do Mundo de 1950 seríamos hoje uma Noruega, e não o próprio Brasil que somos.
O Brasil está no caminho certo, e o menor dos problemas atuais do país atende pelo nome de Copa das Confederações, Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos.
silvio de sousa
24 de fevereiro de 2014 10:12 pmSimplesmente …
Arrasou!
Marco St.
24 de fevereiro de 2014 4:29 pmQual foi o legado da
Qual foi o legado da construção do Maracanã para o Rio e o Brasil ??
Melhorou a vida no Rio? O trânsito? O transporte público?
A saúde e a educação pioraram?
Não saberia responder, mas a identidade cultural e esportiva do Brasil ganhou um marco de valor incalculável com a construção deste “elefante branco”.
Ele está presente nas lembranças de todos os brasileiros. Faz parte de nossa literatura. De nossa música.
Da primeira grande tristeza do futebol braslleiro com o Maracanazzo. Da alegria do estádio lotado para ver o Santos com o rei Pelé sendo bicampeão do mundo.
As muitas vitórias e derrotas de Garrincha, Zico, Roberto Dinamite, Rivelino e centenas de outros craques.
Dos shows inesquecíveis. Festivais. O Papa.
Haveria tudo isso sem o Maracanã?
Seríamos mais felizes e prósperos hoje se o Brasil não tivesse realizado a Copa de 50?
Ah sim! E o Cristo Redentor? Foi um desperdício de dinheiro público a construção daquela estátua?
Imaginem então o Rio sem Maracanã e o Cristo Redentor..
morallis
24 de fevereiro de 2014 5:00 pmPois é , tudo tão
Pois é , tudo tão subjetivo.
Te digo tem muita gente que é contra a copa mas ira assisir o jogos
inclusive “black bloc” que bate seu futebolzinho aqui na “playball”
(S.paulo) particpa de torcida organizada e tudo mais. Rsss………….
mas deixa quieto.
morallis
24 de fevereiro de 2014 4:50 pmAs vezes me assusto.Ou o o
As vezes me assusto.
Ou o o PT sofre de excesso de confiança ou quer ser imolado,mas
não se pode dizer que não arrisca. A esquerda da esquerda odeia
a oposição não gosta mas muitos(filiados) colocaram seus cobres
na copa e vao ter lucro certo, a europa em crise,changebrasis…
espionagem e etc. E teremos copa do mundo em ano de eleições?!!
É a hora de destruir o PT e depois ver quem põe no lugar? Pois se
o Brasil perder a copa e mesmo assim Dilma levar….só na base do
golpe mesmo, para a alegria da minoria.
“#naovaiterblackbloc”
Leo V
24 de fevereiro de 2014 8:33 pmÉ engraçada a falta de
É engraçada a falta de coragem dos governistas de dizerem o que pensam e o que querem. É o conservadorismo e autoritarismo disfarçados. Saíram da ditadura mas a ditadura não saiu deles.
Quando escrevem “nãovaiterblackbloc” eles querem dizer “nãovaitermanifestação”, ou ainda “nãovaiterdireitodemanifestação”, ou ainda “todossentadosdiantedatvassistindoacopapelaglobo”.
morallis
24 de fevereiro de 2014 11:44 pmCara eu acho que vc é do
Cara eu acho que vc é do PTSU, tem seu direito aliás aqui ainda é uma democracia
mas faz assim , não faça beicinho” vai lá e quebra tambem se voce acredita nisso.
Eu não acredito ,acho BBs um bando de trouxas( faz tempo) alienados e cagões,
tão mais para gang de “manés”que movimento politico, mas se é isso que voce
tem para resistir contra algo pior vai lá. E pare de dar chutes, é legal mas cansa
te sugiro montar um time de futebol com os BBs, quem sabe há algum craque da
pelota ai hein? Goooolllllll!
Obs .Não vá torcer prá seleção Argentina para se vingar.
Jorge Nogueira Rebolla
24 de fevereiro de 2014 5:37 pmSenhores historiadores do blog…
…para a construção do Maracanã foram vendidas cadeiras cativas, com o comprador podendo utilizá-las nos jogos de futebol durante 5 anos, e perpétuas… a arrecadação dessas vendas foi responsável por quantos por cento do custo total de construção…
A) Quanto foi dispendido dos recursos públicos?
B) Quanto foi custeado pelos que colaboraram comprando uma “cadeira”?
Alguém sabe dizer?
Pedro Penido dos Anjos
24 de fevereiro de 2014 6:12 pmiNFELIZMENTE, A MOLEZA ESTÁ
iNFELIZMENTE, A MOLEZA ESTÁ ACABANDO. NA FOLHA, JÁ ACABOU HÁ UNS DEZ DIAS.
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Leo V
24 de fevereiro de 2014 10:34 pmAqui, mais um video que
Aqui, mais um video que mostra bem que os “terroristas” eram os de farda e cassetete no último dia 22 em São Paulo
http://bolaearte.wordpress.com/2014/02/24/veja-o-video-do-momento-exato-da-covarde-emboscada-policial-no-segundo-ato-contra-a-copa-em-sp/
A imprensa, é claro, divulgou que a Polícia teria cercado e isolado os “vãndalos”. Vândalo é nome que se dá a qualquer um que proteste nas ruas.
É isso que o Ministro da Justiça está estudando levar para outros estados, pelo que se noticiou hoje. Ou seja, é o impedimento do direito de manifestação.
Estamos já no Estado de exceção.
Lamento dizer, mas o golpe da direita já está sendo dado.
morallis
24 de fevereiro de 2014 11:37 pmAlguem precisa explicar para
Alguem precisa explicar para os BBs o que é direita e esquerda,
não é uma questão de lateralidade , muitos deles vão pegar gosto
pela coisa e se tornarem futuros policiais.Sempre havia um “coxinbha-mor”
que bradava no meio das manifestações de junho: Aee sem bandeira!! Peço
que os verdadeiros manifestantes (?) usem o mesmo artifício:” Sem BBs !
Ou rola medo de apanhar tambem?
#nãovaiterblackblocs
#nãovaiterpolicia