O preconceito e a história da músico Bix Beiderbecke

Sugerido por Adir Tavares

Do blog Pavuna 73

Balada para um branco de alma negra

O caso do Tinga, jogador do Cruzeiro vítima de racismo no jogo de seu time contra o Real Garcilaso, no Peru, demonstra que o racismo é uma chaga que, muito tristemente, acredito que não acabará tão cedo, talvez nunca. O racismo é mau, é odioso, e trágico: as pessoas que o praticam perdem parte de sua humanidade por não são serem capazes de ver o brilho de outros humanos que o fariam brilhar mais.

Mas há ainda tragédia maior – a de uma pessoa brilhante e que não é racista, mas que, devido ao racismo sufocante de toda uma sociedade, vê sua chance de crescer como ser humano, de brilhar ainda mais, se perder. Essa é a história de Bix Beiderbecke, até hoje considerado o maior jazzista branco que já existiu.

Nascido Leon Bismarck Beiderbecke, em Davenport, Iowa, em 1903, Bix já criança mostrava ao que viera – aos 8 anos, seu professor de piano anunciou aos pais que, depois de cinco anos, nada mais tinha a ensinar ao pequerrucho, que já tocava melhor do que ele. Papai e mamãe ficaram orgulhosos, mas, em breve, pelo menos papai Beiderbecke, um severíssimo presbiteriano, amaldiçoaria o dom do menino.

Em 1918, o irmão mais velho de Bix voltou da Primeira Guerra com uma vitrola e uns discos debaixo do braço, incluindo “Tiger Rag”, com Original Dixieland Jass Band (assim mesmo, jazz com dois “ss”). O adolescente pirou. Ouviu a bolacha uma centena de vezes e convenceu um vizinho a emprestar-lhe uma corneta para que pudesse imitar aquela explosão sonora que abalara sua cabecinha rural.

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Fez mais. A cidade onde moravam os Beiderbecke tinha “port” no nome não à toa. Ela era uma das paradas das barcaças que subiam e desciam o Mississippi, carregando viajantes, cuja maior diversão era ouvir bandas de jazz enquanto jogavam. Bix sabia disso e ficava pelas docas, tentando escutar alguma coisa. E foi assim que ele ouviu o chamado de Deus. No caso, encarnado num negro de cara larga, que tocava um trompete como ninguém tinha ouvido antes, e cuja fama estava subindo o mítico rio desde sua Nova Orleans natal. O negão, você já deve ter adivinhado, era Louis Armstrong.

Completamente siderado, Bix largou tudo e caiu na estrada. Aos 21, juntou-se aos Wolverines e. logo depois, à excelente Jean Goldkette Orchestra, de Detroit. Nela, encontrou sua cara-metade musical, o saxofonista Frank Trumbauer, o “Tram”. Em 1926, com o fim da orquestra de Goldkette, Bix e Tram se juntaram à melhor orquestra branca de jazz da época, a de Paul Whiteman, e foram tocar nos lugares mais quentes de Nova York, como o Roseland Ballroom.

Foi no Roseland que, na parte segregada aos negros, Louis Armstrong ouviu Bix pela primeira vez. “Aquelas belas notas me conquistaram na hora”, recordou o gênio, anos depois. Assim, quando Bix, humildemente, apareceu, em um dia de 1928, no Sunset Cafe , em Chicago, de onde Louis reinava sobre a cena jazzística da América (ou seja, do mundo), este fez questão de que o branquelo ficasse after hours. “Durante uma semana, fechamos as portas e tocamos a madrugada toda, tentando fazer as músicas serem melhores do que eram”, ainda lembrava Louis, anos depois.

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Tocar com seu próprio deus particular foi a glória para Bix, mas, tenho para mim, também sua perdição. Ele, que já era emocionalmente frágil devido ao desprezo que sofria da família por ser uma ovelha perdida, e, por isso, tendo problemas com o álcool, não aguentou saber que aquelas sessões divinas nos camarins do Sunset jamais poderiam ser repetidas diante do público porque ele era branco e seu deus, negro, e um negro e um branco não podiam tocar juntos, por melhores que fossem. Uma dor insuportável para um músico de jazz, que, mais do que qualquer coisa, quer tocar com quem realmente o entenda.

Após esse encontro, Bix perdeu o controle rapidamente, a ponto de seus colegas na orquestra de Paul Whiteman escreverem nas partituras “acorde, Bix!” no compasso em que devia entrar. O líder da banda o mandou para Davenport a fim deque ele se recuperasse. Foi pior – ao chegar em casa, descobriu que os discos que ele mandara durante todos aqueles anos, orgulhosamente, para os pais estavam dentro de um armário. Nenhum foram ouvidos na casa dos Beiderbecke.

Bix morreu, sozinho, num surto de “delirium tremens”, no dia 6 de agosto de 1931, num quarto do Queens, em Nova York. Não completara ainda 28 anos. “A tragédia de Bix Beiderbecke é uma tragédia do racismo. Nenhuma pessoa pode aceitar o jazz sem aceitar a humanidade do negro. Aquele homem aceitou o jazz de todo o coração e isso o despedaçou”, resumiu o grande trompetista e pesquisador Wynton Marsalis.

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Quem houve o jazz desse personagem trágico, porém, dificilmente perceberia todo o seu sofrimento. O som é alegre, às vezes ardente – só um ouvido mais sensível é capaz de um quê de melancolia por trás da vivacidade. Boa mostra da melancolia é “Singin’ the blues”, o maior sucesso da dupla Bix-Tram, que nesta faixa conta com a ajuda com o auxílio luxuoso do clarinete de Jimmy Dorsey, irmão do band leader Tommy, e da guitarra de Eddie Lang. Já a segunda música – “At the Jazz Band ball” – mostra o lado fulgurante da corneta de Bix, acompanhado de Tram, Jimmy e outros de sua gangue.

 

 

 

 

 
 

 

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