Armandinho e os professores

Lourdes Nassif
Redatora-chefe no GGN
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  1. O aluno brasileiro sabe escrever?

    Já que o assunto é educação….

     

    http://www.cartanaescola.com.br/single/show/483

    EDUARDO ANIZELLI FOLHAPRESS E MICHEL E LISBOARedação: o Calcanhar de Aquiles do Enem Para especialistas, exame evoluiu e refinou seus critérios de correção

     

     

     

    Redação: o Calcanhar de Aquiles do Enem

     

    Por Thais Paiva

     

    Redigir um texto dissertativo-argumentativo sobre a publicidade infantil no Brasil. Trazendo essa proposta, a prova de redação do último Exame Nacional do Ensino Médio, realizado em novembro de 2014, revelou-se o calcanhar de Aquiles de muitos estudantes brasileiros. Segundo balanço divulgado pelo Ministério da Educação, dos mais de 6 milhões de candidatos, 529 mil, ou 8,5%, tiraram nota zero na modalidade – um número cinco vezes maior que o do ano anterior. Além disso, a média geral na redação caiu quase 10% em relação a 2013. Buscando uma justificativa para o baixo desempenho, mídia, professores e alunos apontaram, de saída, o tema da proposta de redação como o fator de complicação. Eles alegaram que a publicidade infantil não havia sido suficientemente debatida pela sociedade e, portanto, permanecia alheia à maioria dos jovens. De fato, dentre as redações que levaram nota zero, cerca de 250 mil foram anuladas por fugir ao tema ou desobedecer outros critérios da prova. “O maior fracasso de 2014 em relação a 2013 resulta de um agravante: o desconhecimento do tema específico cobrado na prova”, acredita Ieda de Oliveira, professora e pós-doutorada em Análise do Discurso pela Université de Paris XIII. Para Maria das Dores Soares Maziero, professora universitária e membro do grupo de pesquisa Alfabetização, Leitura e Escrita, da Unicamp, entretanto, dizer que os alunos foram mal na redação porque não estavam preparados para falar sobre publicidade infantil é reduzir o problema. “O aluno não vive descolado da realidade, ele também é consumidor e sabe do apelo da publicidade. Quantas coisas não teve vontade de ter porque viu em uma propaganda?” Além disso, a professora defende que a coletânea de textos que acompanhava a proposta dava pistas suficientes para a produção de um texto adequado ao tema. “Um bom aluno é capaz de aprender o tempo todo, inclusive com a coletânea que está sendo dada na prova”, diz. Na visão de Rogério Chociay, professor do Departamento de Teoria Linguística e Literária da Unesp de Rio Preto, a queda de 10% na média e o aumento dos zeros são, na verdade, esperados diante da evolução do exame. Nos últimos anos, o Enem refinou seus critérios de correção e tornou-se mais exigente. “Se antes algumas redações ou tentativas de textos eram aceitas e corrigidas, agora não são mais”, lembra o professor, que já integrou a comissão de redação do Enem. Eduardo Antonio Lopes, professor e coautor do material de redação do sistema Anglo, aponta polêmicas envolvendo redações de outros anos como principal motivo para o aprimoramento dos critérios de anulação. No Enem de 2012, um candidato inseriu um trecho de receita de macarrão instantâneo no meio da redação que tinha como tema o movimento imigratório e tirou nota de 560. Na mesma edição, outro estudante incluiu o Hino do Palmeiras e obteve nota 500. “Houve uma pressão muito grande por parte da sociedade para que houvesse maior rigor na correção. O MEC, então, mudou o edital e incluiu a cláusula para anulação no caso de inserção de fragmentos totalmente alheios à proposta, com intenção jocosa”, conta. Atualmente, são critérios para anulação da redação: fuga ao tema, cópia do texto motivador, texto insuficiente, não atendimento ao tipo textual indicado, partes desconectadas e textos que ferem os direitos humanos. Ponta do iceberg  Algo com que todos os especialistas concordam é que a queda na média geral e o aumento de notas zero nas redações do Enem são apenas a ponta do iceberg. O problema mais profundo reside no fato de que, em grande parte das escolas públicas brasileiras, os alunos têm pouca oportunidade de escrever e, sobretudo, de ouvir um retorno sobre sua produção escrita. “O professor é mal remunerado e tem pouco tempo para fazer o básico, como preparar e dar aula, como é que vai dar redação para salas que chegam a ter 40 alunos? Como vai ter tempo para corrigir uma por uma?”, indaga Maria das Dores. Devido a esta dificuldade, quando costumam dar algum tipo de produção textual, os docentes acabam se concentrando na correção dos aspectos mais superficiais, como erros de ortografia e pontuação. “Se é difícil para o Enem organizar e treinar um corpo de corretores, imagina nas escolas públicas. Para muitos dos participantes, foi a primeira vez no ano que tiveram uma nota de redação com base em critérios”, diz Lopes. Aspectos gramaticais, entretanto, estão longe de ser o principal problema dos textos. A dificuldade maior dos alunos que concluem o Ensino Médio está relacionada à habilidade de argumentar, associar dados e visões de mundo. “Para isso, é necessário relacionar os conhecimentos das diversas disciplinas do currículo escolar. É essa relação que faz o aluno ser crítico, criativo, original e apto a discutir os mais variados problemas”, comenta Dafne Rosa, professora de redação do Colégio Sion, em São Paulo. Pouca leitura, pouca prática de exercícios de produção de textos e baixo repertório cultural também contribuem para a diminuta qualidade média da produção textual dos brasileiros, aponta Ieda. Segundo a especialista, é preciso, por um lado, despertar no aluno o hábito e o prazer da leitura e, por outro, exercitá-lo nas técnicas de estruturação do texto e no domínio da língua. “Ler é condição indispensável para escrever, mas não é condição suficiente. Produzir textos com base apenas no modelo de autores experientes é como tocar um instrumento de ouvido, sem teoria musical. Além de ler, o aluno precisa também aprender técnicas de estruturação do texto e adquirir um conhecimento sólido da língua”, aconselha. Últimos temas da redação do Enem2010: O trabalho na construção da dignidade humana2011: Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado2012: Movimento imigratório para o Brasil no século XXI2013: Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil2014: Publicidade infantil em questão no Brasil Dicas para trabalhar redação com seus alunos (por Ieda de Oliveira)- Incentive-os a argumentar oralmente antes de o fazer por escrito- Desenvolva o hábito de planejar a redação por meio de roteiros – Ao trabalhar gêneros textuais específicos, como resenhas e notícias, faça-os ler textos nesses modelos, analisando sua estrutura- Distribua textos com problemas de repetição de palavras, rimas, excesso de oralidade e peça para que eles os reescrevam, melhorando o estilo  
    Publicado na edição 94, de março de 2015

     

     

  2. Fui corretora de redações do Enem por três anos, lendo cerca de

    cinco mil dissertações.

    Pude avaliar, no que lia, os diversos problemas do ensino da língua escrita e, principalmente, a enorme dificuldade que os redatores tinham para argumentar sobre determinado tema. Além disso, havia rupturas de entendimento dos textos das coletâneas apresentadas, que estavam ali para ajudá-los na tarefa proposta. 

    Escreve-se na escola- quando se escreve- para ser corrigido e não com a função social de comunicação.

    Não se trabalha a norma culta oral e depois exige-se que esta apareça, como mágica, nas produções escritas.

    Aplicação de estruturas sintáticas lógicas- de argumentação- não nascem num passe de mágica ou apenas com o toque da varinha de condão das aulas de gramática, sem contextualização. 

    Some-se a isso a falta de leitura na escola ou da obrigatoriedade de leitura sem mediação, sem um trabalho que ensine estratégias de leitura e compreensão.

    Os critérios de correção para as redações do Enem estão aí para serem consultados, estudados e trabalhos por equipes de professores de uma escola…mas não devem ser os norteadores de produções de texto e sim sinalizadores, principalmente aos professores, para que saibam o que planejar quanto ao trabalho de língua escrita em salas de aulas. 

  3. Fui corretora de redações do Enem por três anos, lendo cerca de

    cinco mil dissertações.

    Pude avaliar, no que lia, os diversos problemas do ensino da língua escrita e, principalmente, a enorme dificuldade que os redatores tinham para argumentar sobre determinado tema. Além disso, havia rupturas de entendimento dos textos das coletâneas apresentadas, que estavam ali para ajudá-los na tarefa proposta. 

    Escreve-se na escola- quando se escreve- para ser corrigido e não com a função social de comunicação.

    Não se trabalha a norma culta oral e depois exige-se que esta apareça, como mágica, nas produções escritas.

    Aplicação de estruturas sintáticas lógicas- de argumentação- não nascem num passe de mágica ou apenas com o toque da varinha de condão das aulas de gramática, sem contextualização. 

    Some-se a isso a falta de leitura na escola ou da obrigatoriedade de leitura sem mediação, sem um trabalho que ensine estratégias de leitura e compreensão.

    Os critérios de correção para as redações do Enem estão aí para serem consultados, estudados e trabalhos por equipes de professores de uma escola…mas não devem ser os norteadores de produções de texto e sim sinalizadores, principalmente aos professores, para que saibam o que planejar quanto ao trabalho de língua escrita em salas de aulas. 

    1. Sobre trabalhar a dita norma culta (ou oculta?) oralmente

      É uma tarefa quase impossível, Odonir, porque a fala é algo muito rápido, leva cerca de 700 MICROsegundos para se planejar e executar uma fala, e o padrao de linguagem que se usa é algo muito interiorizado, é o que vem naquele tempo exíguo. Nao se tem tempo para “editar” a fala como se tem na escrita (e mesmo assim, na escrita “off-line”; em tempo real, é difícil até na escrita…). E além do mais o padrao de fala do seu próprio grupo é algo que faz parte da subjetividade da pessoa, e as tentativas de mudá-lo sao uma das causas da rejeiçao às aulas de Português na escola. 

      A única forma que vejo de fazer isso é via dramatizaçoes: brincar de representar personagens em diversos contextos. Aprende-se a falar por imersao, nao com regras. Mas é algo meio artificial, dificilmente transportável para condiçoes normais de fala. 

      Além disso, nao seria muito melhor, e sobretudo MAIS DEMOCRÁTICO, aceitar os padroes socialmente variáveis da fala? A bendita (maldita…) norma dita culta (o Marcos Bagno chama de norma oculta, até porque nao é mais realmente dominada por ninguém, mesmo pelos que pensam que a dominam) nao reflete nenhum valor real, nao é em nada melhor do que as outras variantes da fala. Nao é como em Matemática onde, se vc fizer cálculos fora das regras, pode fazer cair um edifício. Em língua tanto faz como tanto fez, é apenas uma questao de prestígio social. Mattoso Câmara, que nao era hipócrita e nao falava em norma “culta”, mas apenas em norma, definia a norma como a linguagem usada pela classe social E NA REGIAO mais prestigiada do país. Mas nem isso corresponde ao que é descrito nas gramáticas normativas, que descrevem apenas a linguagem LITERÁRIA da SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX. Se nao crê em mim veja o próprio Celso Cunha (naquela gramática escrita junto com o Lindley Cintra) dizer que a gramática dele descreve a norma culta do Português contemporâneo “isso é, a língua do Romantismo para cá”. Romantismo? Por que? Porque eles tomam a linguagem literária como padrao; ora, ninguém fala como escreve, e a escrita literária já é muito diferente da escrita normal para fins de comunicaçao. E chamar de contemporânea a escrita da época do Romantismo (por volta de 1840/50) é uma concepçao um pouco larga demais do que é contemporâneo, nao? Nem a linguagem dos modernistas, que já se insurgiram contra a gramatiquice, corresponde à lingua de hoje… 

      Convido você a pensar no que diz o Maurizzio Gnerre, nos seguintes trechos (de Linguagem, Escrita e Poder, editora Martins Fontes): 

      “Talvez exista uma contradiçao de base entre ideologia democrática e a ideologia que é implícita na existência de uma norma linguística. Segundo os princípios democráticos, nenhuma discriminaçao dos indivíduos tem razao de ser, com base em critérios de raça, religiao, credo político. A única brecha deixada aberta para a discriminaçao é aquela que se baseia nos critérios da linguagem e da educaçao”.

      “E mais importante, sobre o caráter pseudo progressista da defesa do “ensino da norma” (piada, porque de fato ela é ininsinável na fala; escrita é outra coisa; adendo meu):”Se as pessoas podem ser discriminadas de forma explícita (e nao encoberta) com base nas capacidades linguísticas medidas no metro da gramática normativa e da língua padrao, poderia parecer que a difusao da educaçao em geral e do conhecimento da variedade linguística de maior prestígio em particular é um projeto altamente democrático que visa a reduzir a distância entre grupos sociais para uma sociedade de ‘oportunidades iguais’ para todos. Acontece, porém, que este virtual projeto democrático sustenta ao mesmo tempo o processo de constante redefiniçao de uma norma e de um novo consenso para ela. A própria norma é constantemente redfinida e recolocada na realidade sócio-histórica, acumulando assim ao mesmo tempo a própria razao de ser e o consengo. Os que passam através do processo sao diferentes dos que nao o conseguiram, e constituem um contingente social de apoio aos fundamentos da discriminaçao com base na legitimaçao do saber e da língua que eles (formalmente) dispõem”. 

       

        1. Vou esperar. E espero q vc receba este, estou em “quarentena”

          Meus comentários só estao sendo publicados muito tempo depois. 

          Abs

        2. Nao recebi até agora (15;58, sexta), Odonir

          Se possível me reenvie usando Enviar Mensagem em vez de Enviar Email. Aí a mensagem vem por dentro do sistema daqui do Blog, e há como responder por aqui mesmo. Obrigada

  4. Uma causa é exata/ a ênfase na preparaç p/ exames padronizados

    As escolas viram “pré-vestibulares” desde os últimos anos do Fundamental. Como as provas de Enem e vestibulares nao sao dissertativas, só se escreve — em escolas cujos professores têm mais tempo — nas benditas “redaçoes”. Só que aprender a redigir nao é treinar para escrever dissertaçoes de 4 parágrafos, é se exercitar em pôr por escrito o que se tem a dizer sobre aquilo de que se precisa falar. Responder a questoes dissertativas de qualquer disciplina é na verdade um melhor exercício de redaçao do que textos artificiais feitos segundo alguns esquemas decorados. Pelo menos tem um contexto preciso, ninguém escreve no vácuo, sem que tenha algum motivo pessoal para falar (sim, escrever é falar por escrito, embora tenha particularidades nisso) sobre aquilo que escreve. 

  5. Professores bons são bem aceitos?

    Nem sempre.                                              

    Podem ser vigiados por ‘jestões” autoritárias ,verdadeiras capatazes encasteladas em suas salas,

    agindo até com apoio de discentes que não os aceitam por serem acionados a estudarem.

    É mais cômodo demitir o mestre que educar o aluno.

    “Educar é um ato político.” Paulo Freire

     

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