Yann LeCun, cientista-chefe de inteligência artificial da Meta e um dos maiores nomes da área, planeja deixar a empresa para fundar sua própria startup de IA. A decisão vem no momento em que Mark Zuckerberg reorganiza profundamente a estratégia da companhia, apostando em sistemas de “superinteligência” para competir com rivais como OpenAI e Google.
Fontes próximas ao pesquisador afirmam que LeCun, vencedor do Prêmio Turing e pioneiro da IA moderna, já comunicou sua intenção de sair nos próximos meses e iniciou conversas preliminares com investidores para financiar seu novo projeto. Procurado, ele não comentou o assunto. A Meta também não respondeu aos pedidos de posicionamento.
Mudança de rumos
A saída de LeCun ocorre em meio a uma reestruturação da divisão de IA da Meta. Zuckerberg decidiu priorizar o desenvolvimento e a aplicação rápida de novos modelos e produtos, deixando em segundo plano o trabalho de pesquisa de longo prazo conduzido desde 2013 pelo laboratório FAIR (Fundamental AI Research), liderado por LeCun.
No centro dessa reformulação está Alexandr Wang, fundador da Scale AI, contratado em julho por US$ 14,3 bilhões, valor que inclui uma fatia de 49% na empresa. Wang agora lidera a recém-criada equipe de “superinteligência” e se tornou o novo superior direto de LeCun, que antes se reportava ao diretor de produtos Chris Cox.
Além disso, Zuckerberg montou pessoalmente o chamado TBD Lab, uma equipe de elite dedicada ao desenvolvimento da próxima geração dos grandes modelos de linguagem (LLMs) da empresa. O grupo reúne talentos vindos da OpenAI e do Google, atraídos por pacotes salariais que podem ultrapassar US$ 100 milhões.
Futuro da IA
A reestruturação aconteceu após o lançamento conturbado do Llama 4, modelo de linguagem da Meta que ficou aquém das soluções de concorrentes como Google, OpenAI e Anthropic. O chatbot Meta AI, baseado nesse modelo, também não conseguiu atrair o público.
LeCun, por sua vez, sempre foi um crítico da dependência excessiva em LLMs. Ele argumenta que esses sistemas são “úteis”, mas jamais alcançarão o raciocínio e a capacidade de planejamento humano — uma visão que o coloca em rota de colisão com a estratégia atual de Zuckerberg.
Dentro do FAIR, LeCun vinha desenvolvendo uma nova geração de sistemas chamados “modelos do mundo”, projetados para aprender sobre o ambiente físico a partir de vídeos e dados espaciais, e não apenas de linguagem. Segundo o próprio cientista, essa arquitetura poderia levar cerca de uma década para ser plenamente desenvolvida. Seu novo empreendimento deve aprofundar esse trabalho, de acordo com pessoas familiarizadas com o projeto.
Turbulência
Zuckerberg enfrenta crescente pressão de investidores para transformar os investimentos bilionários em IA em lucro real. Em outubro, as ações da Meta caíram 12,6%, uma perda de quase US$ 240 bilhões em valor de mercado, após o CEO indicar que os gastos com IA podem ultrapassar US$ 100 bilhões no próximo ano.
A saída de LeCun se soma a outras mudanças recentes. Em maio, Joelle Pineau, vice-presidente de pesquisa em IA, deixou a empresa para se juntar à canadense Cohere. No mês passado, a Meta demitiu cerca de 600 funcionários da área de pesquisa, numa tentativa de reduzir custos e acelerar lançamentos.
Enquanto isso, novos executivos vêm sendo contratados com remunerações milionárias. Um dos casos mais notáveis é o de Shengjia Zhao, cocriador do ChatGPT, que assumiu em julho o cargo de cientista-chefe do recém-criado Laboratório de Superinteligência da Meta.
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