4 de junho de 2026

EUA, um país dividido, por David Simon

Sugerido por Vânia

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Da Carta Capital

“Hoje existem dois EUA. É um show de horrores”

Em palestra no Festival of Dangerous Ideas em Sydney, o escritor e jornalista norte-americano David Simon disse que o capitalismo perdeu a visão de seu pacto social 

Por David Simon

Os Estados Unidos são hoje um país totalmente dividido no que se refere a sociedade, economia, política. Existem definitivamente dois EUA. Eu vivo em um, em uma quadra de Baltimore, no estado de Maryland, que faz parte da versão viável dos EUA, a parte dos EUA conectada com a sua própria economia, onde existe um futuro plausível para as pessoas ali nascidas. A cerca de 20 quarteirões de distância existe outro país totalmente diferente. É incrível como temos pouco a ver uns com os outros, e, no entanto, vivemos em grande proximidade.

Não há arame farpado ao redor de Baltimore Oeste ou de Baltimore Leste, ao redor de Pimlico, áreas de minha cidade que foram totalmente divorciadas da experiência americana que conheço. Mas poderia haver. De certa forma nós conseguimos caminhar para dois futuros diferentes, e creio que estamos vendo cada vez mais disso no Ocidente. Não acho que seja exclusivo dos EUA.

Creio que nos aperfeiçoamos muito na tragédia e estamos chegando lá mais depressa que muitos outros lugares talvez ainda um pouco mais racionais. Mas minha ideia perigosa envolve um homem que foi deixado de lado no século XX e quase parecia ser o final da piada do século XX: um homem chamado Karl Marx.

Não sou marxista no sentido de que não acredito em uma resposta clínica muito específica do marxismo para nossos problemas econômicos. Marx era muito melhor ao fazer diagnósticos do que como clínico. Ele era bom em descobrir os erros ou o que poderia estar errado com o capitalismo se não cuidassem dele, e muito menos verossímil no aspecto de como se poderia solucionar isso.

Se você leu O Capital, ou tem as Cliff Notes, sabe que suas imagens de como o marxismo clássico – de como sua lógica funcionaria quando aplicada – mais ou menos evoluem para absurdos tais como o encolhimento do Estado e platitudes semelhantes. Mas ele foi realmente arguto sobre o que dá errado quando o capital vence de maneira inequívoca, quando ele consegue tudo o que quer.

Essa talvez seja a tragédia definitiva do capitalismo em nossa era, que ele alcançou a predominância sem consideração pelo pacto social, sem estar conectado a qualquer outra métrica de progresso humano.

Nós entendemos o lucro. Em meu país, medimos as coisas pelo lucro. Escutamos os analistas de Wall Street. Eles nos dizem o que devemos fazer a cada trimestre. O relatório trimestral é Deus. Vire-se de frente para Deus. Vire-se de frente para Meca, você sabe. Você atingiu seu número? Você não atingiu seu número? Você quer seu bônus? Você não quer seu bônus?

E essa ideia de que o capital é a métrica, de que o lucro é a métrica pela qual mediremos a saúde de nossa sociedade, é um dos enganos fundamentais dos últimos 30 anos. Eu a dataria em meu país exatamente em 1980, e ela venceu.

O capitalismo arrasou com o marxismo no final do século XX e predominou em todos os sentidos. Mas a grande ironia disso é que a única coisa que realmente funciona não é ideológica, é impura, tem elementos dos dois argumentos e na verdade nunca alcança algum tipo de perfeição partidária ou filosófica.

É pragmática, inclui os melhores aspectos do pensamento socialista e do capitalismo de livre mercado. E funciona porque não deixamos que ela funcione totalmente. E essa é uma ideia dura de pensar – que não existe uma mágica que nos tire da confusão na qual nos metemos. Mas que confusão!

Depois da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente emergiu com a economia norte-americana saindo de sua extravagância do tempo de guerra, surgindo como o melhor produto. Era o melhor produto. Funcionava melhor. Estava demonstrando seu poder não apenas em termos do que fez durante a guerra, mas em termos de como era fácil criar riqueza em massa.

Além disso, oferecia muito mais liberdade e fazia a única coisa que garantia que o século XX seria – e perdoem o tom chauvinista disto – o século norte-americano.

Ele pegou uma classe trabalhadora que não tinha uma renda perceptível no início do século, que trabalhava por salários de subsistência. E a transformou em uma classe de consumidores que não apenas tinha dinheiro para comprar todas as coisas de que precisavam para viver, como o suficiente para comprar um monte de porcarias que eles queriam mas de que não precisavam. Essa foi a máquina que nos conduziu.

Não era apenas que podíamos fornecer coisas, ou que tivéssemos as fábricas, o know-how ou o capital. Nós criávamos nossa própria demanda, e começamos a exportar essa demanda por todo o Ocidente. E o padrão de vida possibilitou fabricar coisas em um ritmo incrível e vendê-las.

E como fizemos isso? Fizemos não cedendo a qualquer lado. Esse foi o novo acordo. Essa foi a grande sociedade. Essa foi toda a discussão sobre negociação coletiva e dissídios, e foi uma discussão que significava o seguinte: nenhum lado pode vencer.

Os trabalhadores não conseguem vencer todos os seus argumentos, nem o capital. Mas é na tensão, é na verdadeira luta entre os dois, que o capitalismo realmente se torna funcional, que ele se torna algo em que toda camada da sociedade tem um interesse, que todas compartilham.

Os sindicatos foram realmente importantes. Os sindicatos faziam parte da equação. Não importava se eles vencessem o tempo todo, não importava se eles perdessem o tempo todo, apenas importava que eles tinham de vencer algumas vezes. Mais: eles tinham de armar uma briga e tinham de discutir pela demanda e a equação e pela ideia de que os trabalhadores não valiam menos, eles valiam mais.

Afinal, abandonamos isso e acreditamos na ideia da transmissão gradual da riqueza e na ideia da economia de mercado. Em suma, o mercado sabe melhor, a um ponto em que hoje o libertarismo em meu país está realmente sendo levado a sério como uma forma inteligente de pensamento político. Isso me surpreende. Mas é assim. As pessoas estão dizendo que não preciso de nada além de minha capacidade de lucrar. Não estou conectado à sociedade. Não me importa como a estrada foi construída, não me importa de onde vem o bombeiro, não me importa quem educa as crianças que não são meus filhos. Eu sou eu. É a vitória do ego. Eu sou eu, ouçam-me rugir.

Surpreende-me que tenhamos chegado a este ponto, porque basicamente, ao vencer sua vitória, ao ver aquele Muro cair e ver a viagem do antigo Estado stalinista em direção ao nosso modo de pensar em termos de mercados ou de ser vulnerável, você teria pensado que tivéssemos aprendido o que funciona. Em vez disso, decaímos ao que só pode ser descrito como ganância. Isto é apenas ganância. É uma incapacidade de ver que todos estamos conectados, que a ideia de dois Estados Unidos é implausível, assim como de duas Austrálias, duas Espanhas ou duas Franças.

As sociedades são exatamente o que elas parecem. Se todo mundo estiver empenhado e se todo mundo apenas acreditar que tem “uma parte”, não quer dizer que todos vão receber a mesma quantia. Não significa que não haverá pessoas que são os capitalistas de risco que pretendem ganhar mais. Não é cada um segundo suas necessidades ou algo que seja puramente marxista, mas que todo mundo sinta que “se a sociedade tiver êxito, eu terei êxito, não ficarei para trás”. E não existe uma sociedade no Ocidente hoje, neste momento, que seja capaz de sustentar isso para toda a sua população.

Assim, em meu país estamos vendo um show de horrores. Estamos vendo uma retração em termos de renda familiar, o abandono de serviços básicos como a educação pública, a educação pública funcional. Vemos a subclasse caçada por meio de uma suposta guerra às drogas perigosas que é na verdade apenas uma guerra contra os pobres e nos transformou no Estado mais encarcerante da história da humanidade. Falo em termos dos simples números de pessoas que colocamos nas prisões norte-americanas e da porcentagem de norte-americanos que colocamos nas prisões. Nenhum outro país na face da Terra prende pessoas no número e no ritmo em que o fazemos.

Tornamo-nos algo diferente do que reivindicamos no sonho americano, e tudo por causa de nossa incapacidade básica de compartilhar, de sequer considerar um impulso socialista.

“Socialismo” é um palavrão em meu país. Tenho de fazer essa ressalva no início de cada palestra: “Oh, aliás, não sou marxista, vocês sabem”. Vivi ao longo do século XX. Não acredito que uma economia dirigida pelo Estado possa ser tão viável quanto o capitalismo de mercado para produzir riqueza em massa. Não acredito.

Estou totalmente comprometido com a ideia de que o capitalismo tem de ser o modo como geraremos riqueza em massa no próximo século. Essa discussão terminou. Mas a ideia de que não estará casado com um pacto social, de que a distribuição dos benefícios do capitalismo não incluirá todo mundo da sociedade em medida razoável, isso é incrível para mim.

E assim o capitalismo está prestes a arrancar a derrota das presas da vitória com sua própria mão. Esse é o fim surpreendente desta história, a menos que revertamos o rumo. A menos que levemos em consideração, senão os remédios de Marx, pelo menos o diagnóstico. Ele viu o que aconteceria se o capital triunfasse de modo inequívoco, se conseguisse tudo o que queria.

E uma das coisas que o capital queria inequivocamente e com certeza é a diminuição da mão-de-obra. Eles queriam que a mão-de-obra fosse diminuída porque a mão-de-obra é um custo. E se a mão-de-obra for diminuída, vamos traduzir: em termos humanos, significa que os seres humanos valem menos.

A partir desse momento, a menos que revertamos o rumo, o ser humano médio vale menos no planeta Terra. A menos que levemos em conta o fato de que talvez o socialismo e o impulso socialista deva ser novamente abordado; ele tem de ser casado como era casado nos anos 1930, 40 e até nos 50, com a máquina que é o capitalismo.

Confundir o capitalismo com uma planta detalhada para se construir uma sociedade me parece uma ideia realmente perigosa, de uma maneira ruim. O capitalismo é uma máquina notável para produzir riqueza. É uma grande ferramenta para se ter na caixa de ferramentas se você estiver tentando construir uma sociedade e quiser que essa sociedade progrida. Você não desejaria avançar neste ponto sem ela. Mas não é uma planta para se construir a sociedade justa. Existem outras métricas além do relatório trimestral de lucros.

A ideia de que o mercado solucionará as coisas como preocupações ambientais, como nossas divisões raciais, nossas distinções de classe, nossos problemas com a educação e inclusão de uma geração de trabalhadores na economia depois de outra quando essa economia está mudando; a ideia de que o mercado vá atender a todas as preocupações humanas e ainda maximizar os lucros é juvenil. É uma ideia juvenil e está sendo defendida em meu país apaixonadamente e estamos descendo pelo ralo. E isso me aterroriza porque fico incrédulo ao ver como ficamos à vontade ao nos absolvermos do que é basicamente uma opção moral. Estamos todos juntos nisto ou não?

Se você visse o fracasso que foi, e é, a luta sobre algo tão básico quanto a política de saúde pública em meu país nos últimos anos, imagine a ineficácia que os norte-americanos vão oferecer ao mundo sobre algo realmente complexo como o aquecimento global. Não podemos nem conseguir atendimento de saúde para nossos cidadãos em um nível básico. E o argumento se resume a: “Maldito presidente socialista. Ele pensa que vou pagar para manter outras pessoas saudáveis? Isso é socialismo, filho da mãe”.

O que você pensa que é o seguro-saúde em grupo? Você sabe que pergunta a esses sujeitos: “Você tem seguro-saúde em grupo onde você…?” “Oh, sim, tenho…” você sabe, “minha firma de advocacia…” Assim, quando você fica doente você pode pagar pelo tratamento.

O tratamento vem porque você tem pessoas suficientes em sua firma de advocacia, de modo que você pode ter seguro-saúde suficiente para elas se manterem saudáveis. Assim as tabelas de prêmios e riscos funcionam, e vocês todos, quando ficam doentes, podem ter os recursos para sarar porque contam com a ideia do grupo. Sim. E eles balançam as cabeças, e você diz: “Irmão, isso é socialismo. Você sabe que é”.

E… você sabe quando você diz: “Está bem, vamos fazer o mesmo que fazemos para sua firma de advocacia, mas vamos fazer para 300 milhões de norte-americanos e vamos torná-lo acessível a todo mundo dessa maneira. E sim, isso significa que você estará pagando para os outros caras da sociedade, da mesma maneira que você paga para os outros caras da firma… Os olhos deles brilham. Você vê que eles não querem ouvir isso. É demais. Demais contemplar a ideia de que todo o país poderia na verdade estar conectado.

Por isso fico surpreso de que ainda hoje eu esteja aqui de pé dizendo que talvez queiramos recuperar esse sujeito Marx do qual estávamos rindo, senão por suas prescrições, pelo menos pelo retrato que ele fez do que é possível se você não mitigar a autoridade do capitalismo, se você não abraçar alguns outros valores de esforço humano.

E é basicamente disso que se tratava The Wire, a série de TV. Era sobre pessoas que valiam menos e não eram mais necessárias, como talvez 10 ou 15% do meu país não são mais necessários para a operação da economia. Era sobre eles tentando resolver, por falta de um termo melhor, uma crise existencial. Em sua irrelevância, sua irrelevância econômica, eles continuavam não obstante em campo, ocupando este lugar chamado Baltimore, e eles tinham de sobreviver de alguma forma.

Esse é o grande show de horrores. O que vamos fazer com todas essas pessoas que conseguimos marginalizar? Era mais ou menos interessante quando se tratava apenas de raça, quando você podia fazer isso com base nos temores raciais das pessoas, e eram apenas os negros e pardos nas cidades norte-americanas que tinham os índices mais altos de desemprego e de dependência de drogas, eram marginalizados e tinham sistemas escolares péssimos e falta de oportunidades.

E é interessante nesta última recessão ver a economia encolher e começar a atirar as pessoas brancas de classe média no mesmo barco, de modo que elas se tornaram vulneráveis à guerra das drogas, por exemplo com a metanfetamina, ou se tornaram incapazes de qualificar-se para empréstimos para a universidade. E de repente a fé na máquina econômica, na autoridade econômica de Wall Street e na lógica do mercado começou a se distanciar das pessoas. E elas perceberam que não se trata apenas de raça, trata-se de algo ainda mais aterrorizante. Trata-se de classe. Você está no topo da onda ou está embaixo?

Então, como isso pode melhorar? Em 1932, melhorou porque eles distribuíram as cartas de novo e houve uma lógica comunitária para estabelecer que ninguém seria deixado para trás. Vamos resolver isto. Vamos abrir os bancos. Das profundezas daquela depressão, um pacto social foi feito entre trabalhador, entre mão-de-obra e capital que na verdade permitiu que as pessoas tivessem alguma esperança.

Ou vamos fazer isso de alguma maneira prática quando as coisas ficarem suficientemente ruins, ou vamos continuar fazendo como estamos fazendo. E nesse ponto haverá tantas pessoas paradas do lado de fora desta confusão que alguém vai pegar um tijolo, porque você sabe que quando as pessoas chegam ao fim sempre há o tijolo. Espero que escolhamos a primeira opção, mas estou perdendo a fé.

Outra coisa que havia em 1932 e que não existe hoje é que algum elemento da vontade popular podia ser expresso por meio do processo eleitoral em meu país.

O último trabalho do capitalismo – tendo ganhado todas as batalhas contra a mão-de-obra, tendo adquirido a autoridade máxima, quase a autoridade moral máxima do que é uma boa ideia ou não, ou do que é valorizado e o que não é –, a última viagem do capital em meu país foi comprar o processo eleitoral, a única via para reformas que os norte-americanos ainda tinham.

Neste momento o capital efetivamente comprou o governo, e você testemunhou isso novamente com a derrocada do sistema de saúde em termos dos 450 milhões de dólares que foram depositados sobre o Congresso, a parte mais danificada do meu governo, para que a vontade popular nunca emergisse de fato naquele processo legislativo.

Por isso não sei o que faremos se não pudermos realmente controlar o governo representativo que, nós alegamos, manifestará a vontade popular. Mesmo que todos começássemos a ter os mesmos sentimentos que estou defendendo agora, não tenho certeza se ainda poderemos efetivá-los, da mesma maneira que pudemos no auge da Grande Depressão, por isso talvez seja mesmo o tijolo. Mas espero que não.

(David Simon é um escritor e jornalista americano e foi produtor-executivo de The Wire. Esta é uma edição de trechos de uma palestra feita no Festival de Ideias Perigosas em Sydney, Austrália.)

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Leia mais em guardian.co.uk

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

11 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. alexis

    13 de dezembro de 2013 10:13 am

    Vale a pena

    Vale a pena ler. Muito bom artigo.

  2. João Sabóia Jr.

    13 de dezembro de 2013 10:49 am

    A compra do governo

    O texto é muito bom. Realmente quando o mercado dita as regras deixa muitos e muitos para trás. Nosso STF tem a possibilidade de dar um pequeno passo para evitar o que está se tornando cada vez mais desastroso que é o financiamento eleitoral feito por empresas. isso não é financiamento, isso é compra de governantes para que se tornem seus empregados e apliquem apenas os seus interesses. Não bastará apenas essa ação do STF, mas é um passo importante que poderá levar a outros passos mais importantes ainda.

    1. Jurgen2010

      13 de dezembro de 2013 1:21 pm

      Se vier junto o financiamento

      Se vier junto o financiamento público e exclusivo…

  3. Daniel Pereira dos Santos

    13 de dezembro de 2013 11:21 am

    Impressionado

    Fico impressionado sobre como o Stalinismo virou sinônimo absoluto de Marxismo. Assuntos como Economia Planificada, Planos Quinquenais e forte burocracia de Estado NUNCA estiveram em nenhum dos livros de Marx, mas a antiga URSS, China e Cuba (e agora Venezuela) continuam como exemplos práticos de comunismo. Realmente o grande problema de Marx são os marxistas.

  4. Gerson Pompeu

    13 de dezembro de 2013 11:29 am

    É o dinheiro…

    Os grandes grupos econômicos e as grandes fortunas são os novos faraós dos tempos de hoje.

  5. drigoeira

    13 de dezembro de 2013 11:49 am

    Jogos Vorazes…

    Quem assistiu…

    É o futuro deste texto aí.

  6. Jurgen2010

    13 de dezembro de 2013 1:27 pm

    Muito Bom

    Será que os americanos leem isto. Ou pensam sobre isto? Não acredito. Quando a classe média inteira se deteriorar e separar os 1% numa ilha social, vai ser tarde. É apenas questão de tempo.

  7. Maria Luisa

    13 de dezembro de 2013 2:30 pm

    A América é uma plutocracia, o dinheiro nos dirige e destruiu

    nossa identidade.

    Um pouco mais de David Simon:

    Revista Télérama

    David Simon : “L’Amérique est une ploutocratie, l’argent nous dirige et a détruit notre identité”

    ELECTIONS AMÉRICAINES | Observateur avisé de la vie américaine, l’écrivain et scénariste David Simon est l’auteur de la série “The Wire”. Puis de “Treme”, après l’ouragan Katrina. Pessimiste sur le système, mais confiant en l’énergie de ses concitoyens.

    Le 

    27/10/2012Propos recueillis par Laurent Rigoulet – Télérama n° 3276 David Simon. © Jérôme Bonnet pour...

    David Simon. © Jérôme Bonnet pour Télérama

    Au milieu des années 1980, David Simon, jeune journaliste de Baltimore (Maryland), collait aux basques des policiers qui sillonnaient les quartiers d’une ville à tel point ravagée par la misère, le crime et la drogue qu’on la surnommait Bodyland, Murdermore (« ville des cadavres, meurtres en hausse »). A la fin de ces sévères années d’initiation, on lui a proposé le quotidien plus serein et mieux rémunéré d’un poste de chef de bureau dans une banlieue résidentielle. Il a refusé. Et n’a jamais cessé d’avancer dans le labyrinthe toujours plus opaque, toujours plus sinistre d’une cité américaine effondrée, violente et corrompue dans laquelle il lisait « le déclin d’un empire ». En 1991, il en a tiré un livre (Baltimore,publié en France ces jours-ci), puis un autre (The Corner) et enfin une série télévisée, The Wire, qui, au fil de cinq saisons, s’est imposée comme une œuvre de référence sur l’Amérique d’aujourd’hui. Depuis 2008, il poursuit son exploration d’une société malade (mais énergique) dans Treme, série qui met en scène La Nouvelle-Orléans de l’après-Katrina.

    Vous vous apprêtez à tourner la quatrième saison de Treme, dont l’action se déroulera au moment de l’arrivée de Barack Obama au pouvoir. Cette série sur La Nouvelle-Orléans est-elle pour vous une manière de brosser un portrait de l’Amérique d’aujourd’hui ? 
    Oui, nous avons commencé à écrire le feuilleton, en 2008, au moment de la crise des subprimes et de l’effondrement de Lehman Brothers, quand le pays a compris qu’il n’y avait plus de règles, plus de repères ni de garde-fous, quand le système économique et social, tel que nous l’avions connu, s’est désintégré. Du coup, ce dont les habitants de La Nouvelle-Orléans avaient fait l’expérience en 2005, avec l’ouragan Katrina, est apparu comme une métaphore nette et limpide de ce que vivait le reste de l’Amérique. Les questions qu’ils se posaient, par la force des choses, trouvaient un écho dans le pays entier : Sommes-nous entièrement livrés à nous-mêmes ? Formons-nous encore une communauté ?

    A La Nouvelle-Orléans, c’est la violence de l’ouragan qui a tout mis au jour : le dysfonctionnement, et parfois la malveillance des institutions, la corruption généralisée du système politique, la brutalité du capi­talisme de crise… Mais les Américains dans leur ensemble se sont retrouvés face à la même débâcle. Lors de la dernière décennie, ils se sont sentis floués et privés de tout contrôle sur leur propre destin. Une grande majorité de mes compatriotes se sent totalement coupée des centres de décision, qu’ils soient politiques ou économiques. Les habitants de La Nouvelle-Orléans ont ressenti ça les premiers, de manière particulièrement abrupte, mais ils ont réagi avec une énergie exceptionnelle. J’ai passé cinq ans dans cette ville, et ce que j’y ai observé était passionnant. Je ne suis pas du tout cocardier, mais je ne pense pas avoir de meilleure occasion, dans ma vie, de témoigner du patriotisme à l’œuvre. A l’échelle d’une ville certes, mais dans l’esprit d’une Amérique, celle du New Deal par exemple, où il semblait encore souhaitable de s’identifier à un idéal collectif.

    En quoi La Nouvelle-Orléans vous a-t-elle redonné foi dans la force et la cohésion d’une ville américaine ? 
    Les cicatrices étaient incroyablement profondes après le désastre de Katrina et, malgré cette « expérience de mort imminente », les habitants de la ville ont trouvé des ressources insoupçonnées. Les autorités municipales étaient médiocres et inefficaces, l’éducation, la justice, la police étaient parmi les plus effroyables du pays, les aides gouvernementales et les programmes de reconstruction ont été gérés de la pire des manières, les programmes politiques ou économiques ont rarement fonctionné, mais ce qui a marché, c’est l’organisation des citoyens, au jour le jour, à petite échelle. Peu à peu, ils sont revenus dans leurs quartiers détruits, parce qu’ils ne voulaient pas vivre ailleurs et ils se sont cramponnés à leur sens de la communauté, à leurs traditions et à leur passé pour relancer la ville et recomposer son tissu social.

     

    Treme. © 2009 Paul Schiraldi - HBO

    Treme. © 2009 Paul Schiraldi – HBO

    De quelle manière ? 
    Ils se sont lassés d’attendre des solutions qui ne venaient pas, ils ont pris leur destin en main, ils ont relancé l’économie locale en prenant des initiatives, même si c’était souvent deux pas en avant, un pas en arrière. Ils se sont élevés contre le cynisme de certaines politiques. Quand des programmes d’aide escamotaient l’argent et décidaient de détruire des quartiers qui n’auraient pas dû l’être, des gens qui n’avaient aucune formation journalistique se sont mis à enquêter et à mettre en commun leurs découvertes sur des sites Internet ; ils traquaient les flux financiers, rassemblaient des documents jusqu’à pouvoir mener les responsables devant les tribunaux. Et quand l’élection d’Obama a permis enfin l’examen de certains cas que bloquait le ministre de la Justice de George W. Bush, ils ont pu déposer des plaintes contre la police de la ville pour les brutalités commises après l’ouragan – la mort de onze personnes sous les balles de la police notamment (1). Cette résistance n’est pas sans correspondance avec le mouvement Occupy Wall Street, dont l’élan est remarquable, mais auquel il manque un deuxième acte.

     

    Pourquoi ne lui voyez-vous pas de « deuxième acte » ? 
    Parce qu’il se heurte tout simplement à la réalité du capitalisme dans notre pays. Occupy Wall Street exprime, avec une grande sincérité, l’attachement profond à l’esprit de réforme et au sens de la communauté qui ont toujours existé en Amérique, mais, au bout du compte, il ne touche pas sa cible. Le capital n’est pas assis dans un parc de Manhattan, il est occupé à percer, aussi vite que possible, les cercles du pouvoir pour peser sur les décisions politiques. Des flux d’argent sont dirigés vers nos élus pour préserver le statu quo afin qu’aucun changement ne soit envisagé.

    Vous ne voyez pas dans ce mouvement contre Wall Street les germes d’une révolte ? 
    Je ne sais pas. Vous me demandez quelle marge il reste avant que la situation ne devienne explosive et je me sens tout à fait incapable de le deviner. A l’époque des affrontements meurtriers de Haymarket, pour la journée de huit heures, trois jours après le 1er mai 1886, ou, en 1905, quand le gouverneur de l’Ohio a été tué par une bombe après un conflit avec les mineurs, le pays n’était pas loin de voir les combats enflammer ses rues. Mais le gouvernement a réussi à imposer un arbitrage dont personne ne semblait sortir perdant, les profits ont été préservés et la classe ouvrière s’est vue élevée au rang d’une classe de consommateurs. Le pays a tenu sur cet équilibre pendant plus d’un siècle et les tensions qui existaient entre le patronat et les syndicats ont complètement disparu aujourd’hui. Que faut-il attendre pour que la colère éclate ? Que les gens soient expulsés de leurs maisons ? Que leurs enfants ne bénéficient plus du moindre soin ? Qu’il n’y ait plus d’essence dans les voitures ? Quand ils ont lancé des bombes à Haymarket, les ouvriers de Chicago avaient faim. La famine n’existe plus aujourd’hui. Mais nous marginalisons les pauvres de toutes les façons possibles, des gens dorment sous les ponts, meurent tous les jours parce qu’ils n’ont pas de sécurité sociale et, en même temps, nous sommes toujours plus forts pour fabriquer des milliardaires, et ceux-ci ont une grande aura dans le pays. Mitt Romney a sans doute raison quand il dit ne pas se soucier des 47 % d’Américains sans ressources qui ne voteront pas pour lui. Il sous-entend que les 53 % autres suffisent à son bonheur. Je n’ai jamais rien entendu d’aussi cynique.

    Dans The Wire, vous mettiez à nu les mécanismes d’un système corrompu. D’autres séries, comme Boss ou Boardwalk Empire, ont brossé, depuis, un portrait glaçant du monde politique américain. Avez-vous perdu toute confiance dans vos dirigeants ?
    Le problème ne réside pas dans la nature de nos dirigeants. Il est tout à fait possible d’élire une personne de qualité, voire plusieurs, mais il est difficile d’en élire assez pour réduire leur vulnérabilité face aux forces de l’argent. C’est le système qui est malade. J’ai une opinion plutôt positive de Barack Obama. C’est une personne sensée. Il veut s’attaquer à certains problèmes fondamentaux de notre société. Il pense, par exemple, qu’un système d’assurance-maladie géré par l’Etat est une bonne chose pour la population américaine, pour son bien-être, pour sa force de travail. Mais dès qu’il s’attaque à cette question, 450 millions de dollars sont dépensés – en trois semaines – en publicité négative ou en lobbying par les opposants à cette réforme.

    Le discours politique est totalement dévalué. Le problème ne vient pas des dirigeants, mais de nous. Pourquoi, après l’effondrement de Wall Street et le désastre des subprimes, continuons-nous de croire que le marché apporte les meilleures réponses ? Nous clamons haut et fort que nous sommes un modèle de démocratie, alors que nous sommes une véritable ploutocratie, l’argent nous dirige et a complètement détruit notre identité. J’ai 52 ans et, depuis que je suis entré dans l’âge adulte, le profit a été le mètre étalon d’à peu près toutes les décisions politiques prises dans ce pays. Ça fait longtemps que nous ne montrons plus au monde le meilleur de nous-mêmes.

    Dans la troisième saison de Treme, qui commence ces jours-ci, vous décrivez une nouvelle forme de cupidité, celle que Naomi Klein qualifie de « capitalisme du désastre »…
    Oui, je l’ai observé à l’échelle de la ville, où l’un des grands jeux consistait à s’enrichir sur les programmes de reconstruction sans apporter la moindre solution. Mais la même chose se produit partout dans le pays depuis la faillite de 2008 ou quand il s’agit d’investir sur les zones de guerre, en Irak par exemple, pour construire une autoroute qui ne sera jamais terminée. Plus le besoin est désespéré, plus l’effort est précipité, plus le désastre est significatif, plus grandes sont les opportunités de gagner de l’argent sans fournir autre chose qu’un service médiocre. Il n’y a pas d’ambition réelle de réaliser un progrès, juste une opportunité de glisser ses mains dans la poche du voisin.

    Il n’y a qu’à voir l’exemple des prisons que j’ai pu observer, pendant des années, en racontant la guerre de la drogue à Baltimore dans The Wire, puis les affaires criminelles de La Nouvelle-Orléans. Les prisons américaines sont surpeuplées, le taux d’incarcération est plus élevé que dans n’importe quel autre pays, la situation est explosive. Que faisons-nous ? Nous en confions la gestion au secteur privé qui se fait fort d’améliorer la situation mais qui n’a aucun problème avec la surpopulation des prisons puisque l’incarcération devient un marché comme un autre. Les entreprises tranchent dans les dépenses, bien sûr, elles diminuent le nombre de gardiens, réduisent le confort, mais ça n’est pas tout. Pour augmenter leur rentabilité, elles réinvestissent immédiatement leur profit dans des campagnes de lobbying auprès des Etats pour faire passer des lois qui font grimper les besoins en prisons et visent, par exemple, les simples détenteurs de drogue ou les clandestins en attente de reconduite à la frontière. La proportion de criminels dangereux a fortement baissé, ils ne représentent plus que 7 % de la population carcérale, mais celle-ci a explosé. Quand j’ai commencé à suivre, en tant que jeune journaliste, les affaires criminelles de Baltimore au début des années 1980, il y avait moins de cinq cent mille prisonniers en Amérique. Il y en a plus de deux millions aujourd’hui !

    Quand vous avez commencé l’écriture de Treme, vous vous posiez, à chaque page, la question : qu’est-ce qu’être américain ?
    Et la question reste en suspens ! C’est un des enjeux principaux de cette élection. Accepterons-nous vraiment l’idée qu’il y a deux Amérique ? Celle où les grandes fortunes consolident leur pouvoir et celle où le pourcentage de jeunes Noirs vivant dans la misère est aussi important qu’avant 1968 ? Quelle société voulons-nous devenir ? Je suis d’une nature pessimiste, et The Wire faisait le portrait d’un empire en ruine, mais je dois dire que mon travail à La Nouvelle-Orléans m’a fait sentir parfois un grand potentiel dans l’idée même d’être américain. Tout ce qui fait la grandeur de cette ville est lié à notre mythologie du melting-pot, à la capacité d’une société à se réinventer en absorbant diverses cultures. A les mélanger pour créer quelque chose de neuf. Pour renaître, La Nouvelle-Orléans s’est appuyée sur sa culture, la musique notamment, mais elle n’en a pas fait un musée, les traditions changent et se transforment, des nouveaux groupes sociaux viennent enrichir le mélange sans que le passé se dérobe pour autant. La Nouvelle-Orléans est bien plus liée à son histoire que ne l’est l’Amérique en général.

     

    The Wire. © Home Box Office (HBO)

    The Wire. © Home Box Office (HBO)

    Depuis vos débuts de journaliste à Baltimore, vous vous êtes essentiellement attaché à décrire l’Amérique des centres urbains.
    On ne peut pas parler de notre société, et réfléchir à notre avenir, sans prendre en compte le fait que nous vivrons dans un pays toujours plus urbain. Pendant les campagnes électorales, on nous sert de manière insistante le refrain selon lequel le cœur de l’Amérique bat dans ses campagnes et dans les petites villes, que c’est là que résident ses vraies valeurs. C’est complètement bidon, le pays rural ne reviendra pas. L’enjeu du XXIe siècle sera notre capacité à vivre de plus en plus nombreux dans les centres urbains et à donner un sens à cette expansion. S’il s’agit juste de s’empiler les uns sur les autres jusqu’à l’écrasement, on aura fait le tour des ambitions humaines. Mais j’ai appris à croire, ces dernières années, que chercher à développer une ville et sa culture pouvait transformer l’esprit humain.

     

    Où déménagerez-vous quand vous en aurez fini avec La Nouvelle-Orléans ?
    Je ne sais pas ce que je vais faire. Le travail au long cours pour la télévision est harassant. Les séries que j’écris ont acquis une forte réputation un peu partout, mais elles n’ont jamais eu une forte audience au moment où elles étaient diffusées. Pour apporter une conclusion à Treme, je n’ai obtenu les moyens de tourner que cinq épisodes, soit une demi-saison. Je comprends tout à fait la logique commerciale qui préside à ces choix, mais je viens de l’écrit, où personne n’aurait l’idée de dire « Tu feras les derniers chapitres de ton roman si les premiers ont du succès. » J’ai plusieurs projets écrits, dont le scénario d’une histoire de la CIA, mais je ne sais pas si j’aurai le courage de l’entreprendre. A quoi servirait-il de se lancer dans une telle saga si on doit l’interrompre avant d’arriver à Ben Laden ?

    David Simon en six dates
    1960 Naissance à Washington DC.
    1982 Journaliste au Baltimore Sun, jusqu’en 1995.
    1993 Son premier livre, Homicide : a year on the killing streets (en françaisBaltimore), devient une série télé, Homicide.
    2001 Premier épisode de The Wire pour HBO.
    2008 Il scénarise la série Generation Kill sur la guerre en Irak.
    2010 Diffusion de Treme, série TV sur La Nouvelle-Orléans de l’après-Katrina.

    (1) Le ministère de la Justice américain a ouvert une enquête sur les agissements de la police de La Nouvelle-Orléans. Après l’ouragan Katrina, ordre avait été donné aux policiers de tirer sur les pilleurs pour « reprendre la ville ». Onze personnes ont été tuées.

     

  8. Cunha

    13 de dezembro de 2013 2:44 pm

    O SOCIALISMO É UMA DOUTRINA

    O SOCIALISMO É UMA DOUTRINA TRIUNFANTE  ( ANTONIO CANDIDO )

    O senhor é socialista?

    Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

     

    Por quê?

    Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

     

    O socialismo como luta dos trabalhadores?

    O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

     

    Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?

    Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola… não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser… o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

     

    O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?

    O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando… não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão – e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos… então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

     

     

    http://www.brasildefato.com.br/node/6819

  9. ulderico

    13 de dezembro de 2013 3:03 pm

    Do caminho para o brejo

    Do caminho para o brejo profetizado pelo articulista não é o socialismo que vai nos salvar e sim o aconselhamento de gente como o Papa Francisco. A mudança é consciencial.

    1. Anarquista Lúcida

      13 de dezembro de 2013 4:02 pm

      KKKKK

      Conte agora uma papagaio… 

Recomendados para você

Recomendados