Sugerido por Sérgio T.
Do Outras Palavras
Mujica, teórico da transição pós-capitalista?
Em entrevista inédita no Brasil, ele debate causas do fracasso do “socialismo real” e afirma: para superar sistema, é preciso começar pelo choque de valores
Cada vez mais popular tanto nas redes sociais como na mídia tradicional, o presidente do Uruguai, Pepe Mujica, arrisca-se a sofrer um processo de diluição de imagem semelhante ao que atingiu Nelson Mandela. Aos poucos, cultua-se o mito, esvaziado de sentidos — e se esquecem suas ideias e batalhas. Por isso, vale ler o diálogo que Pepe manteve, no final do ano passado, com o jornalista catalão Antoni Traveria. Publicada no site argentino El Puercoespín, a entrevista revela um presidente que vai muito além do simpático bonachão que despreza cerimônias e luxos.
Mujica, que viveu a luta armada e compartilhou os projetos da esquerda leninista, parece um crítico arguto das experiências socialistas do século XX. Coloca em xeque, em especial, uma crença trágica que marcou a União Soviética e os países que nela se inspiraram: a ideia de que o essencial, para construir uma nova sociedade, era alterar as bases materiais da produção de riquezas. ”Não se constrói socialismo com pedreiros, capatazes e mestres de obra capitalistas”, ironiza o presidente. Não se trata de uma constatação lastimosa sobre o passado ou de um desalento. Mujica mantém-se convicto de que o sistema em que estamos mergulhados precisa e pode ser superado. Mas será um processo lento, como toda a mudança de mentalidades, e precisa priorizar o choque de valores: tornar cada vez mais clara a mediocridade da vida burguesa e apontar modos alternativos de convívio e produção. Leia a seguir, alguns dos trechos centrais da entrevista:
“A batalha agora é muito mais longa. As mudanças materiais, as relações de propriedade, nem sequer são o mais importante. O fundamental são as mudanças culturais e estas transformações exigem muitíssimo tempo. Mesmo nós, que não podemos aceitar filosoficamente o capitalismo, estamos cercados de capitalismo em todos os usos e costumes de nossas vidas, de nossas sociedades. Ninguém escapa à densa malha do mercado, a sua tirania. Estamos em luta pela igualdade e para amortecer por todos os meios as vergonhas sociais. Temos que aplicar políticas fiscais que ajudem a repartir — ainda que seja uma parte do excedente — em favor dos desfavorecidos. Os setores proprietários dizem que não se deve dar o peixe, mas ensinar as pessoas a pescar; mas quando destroçamos seu barco, roubamos sua vara e tiramos seus anzóis, é preciso começar dando-lhes o peixe”.
“A vida é muito bela e é preciso procurar fazer as coisas enquanto a sociedade real funciona, ainda que seja capitalista. Tenho que cobrar impostos para mitigar as enormes dificuldades sociais; ao mesmo tempo, não posso cair no conformismo crônico de pensar que reformando o capitalismo vou a algum lado. Não podemos substituir as forças produtivas da noite para o dia, nem em dez anos. São processos que precisam de coparticipação e inteligência. Ao mesmo tempo em que lutamos para transformar o futuro, é preciso fazer funcionar o velho, porque as pessoas têm de viver. É uma equação difícil. O desafio é bravo. Há quem siga com o mesmo que dizíamos nos anos 1950. Não se deram conta do que ocorreu no mundo e por quê ocorreu. Sinto como minhas as derrotas do movimento socialista. Me ensinam o que não devo fazer. Mas isso não significa que vá engolir a pastilha do capitalismo, nesta altura de minha vida”.
“Não sei se vão me dar bola, mas digo aos jovens de hoje que aprendemos mais com o fracasso e a dor que com a bonança. Na vida pessoal e na coletiva pode-se cair uma, duas, muitas vezes, mas a questão é voltar a começar. E é preciso criar mundos de felicidade com poucas coisas, com sobriedade. Refiro-me a viver com bagagem leve, a não viver escravizado pela renovação consumista permanente que é uma febre e obriga a trabalhar, trabalhar e trabalhar para pagar contas que nunca terminam. Não se trata de uma apologia da pobreza, mas de um elogio à sobriedade — não quero usar a palavra austeridade, porque na Europa está sendo muito prostituída, quando se deixa as pessoas sem trabalho em nome do ‘austero’”.
“Em toda a história do Uruguai, o presidente repartia as licenças de rádio e TV com o dedo. Tivemos a ideia de abrir consultas e processos democráticos baseados em méritos. Pensamos e realizamos! O que certa imprensa diga não me preocupa. Já os conheço. O problema que o diário [uruguaio] El País pode me criticar e se, algum dia, estiver de acordo e me elogiar. Seria sinal de que ando mal”.
[Para ler, na íntegra (em castelhano) a entrevista com Pepe Mujica, clique aqui]
publicado originalmente dia 06/01
marcelooliveira
6 de janeiro de 2014 5:08 pmÉ disparado o político mais
É disparado o político mais lúcido do continente – quiçá do mundo.
Zanchetta
6 de janeiro de 2014 6:31 pmNão fala assim! Ele vai tirar
Não fala assim! Ele vai tirar o lugar do “cara”…
Marco Santo
6 de janeiro de 2014 10:54 pmNa realidade o “CARA” que vc
Na realidade o “CARA” que vc se refere é da mesma escola que o hoje indicado para ser o “Presidente do novo mundo”……..Enquanto uns pensam em armas e guerras, outros exportam ou ajudam com médicos, sanitaristas. É uma questão de ver…..sem ser “zarolho”…..
RACS
6 de janeiro de 2014 8:28 pmGosto muito de Mujica, homem
Gosto muito de Mujica, homem que não se verga às “maravilhas do deus capital”, porém, há de se convir que governar um país de 3,5 milhões de habitantes deve ser um pouco mais fácil do que um de 200 tantos milhões.
jose valente
6 de janeiro de 2014 10:13 pmMujica
Tenho certeza que ninguem pensou nisso. Ia vender muito mais aqui. Já vem o capitalismo outra vez…
Zanchetta
6 de janeiro de 2014 6:33 pmA melhor frase dele é… “La
A melhor frase dele é… “La vieja es peor que el tuerto!!!”
Fábio de Oliveira Ribeiro
6 de janeiro de 2014 7:41 pmMujica é aquele cara que
Mujica é aquele cara que liberou a maconha para a população? Well… ele acabou realizando o maior sonho capitalista de diversos capitalistas sonhadores à base de canabis (FHC incluído). Ha, ha, ha…
Gerson Pompeu
6 de janeiro de 2014 10:13 pmÉ pra rir ou pra chorar?
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHaHahahahahahahaha….
BUÀÀÀÀÀÀÀÀÀAÀÀ!!!
alessandroduarte
23 de janeiro de 2014 11:04 pmBem, o lobby por trás é a
Bem, o lobby por trás é a open society foudantions… Soros e monsanto já estão coçando as mãos. É tudo questão de $$$$$$$$$$$$
Karl Popper deve estar orgulhoso…
wendel
23 de janeiro de 2014 2:57 pmSão declarações para se
São declarações para se pensar, ainda que no acaso de uma vida! A primeira vista, me parece que Mujica esta filosofando, e governar com filosofia, muitos já tentaram e se deram mal!
Contudo, com o que diz, – “Não se constrói socialismo com pedreiros, capatazes e mestres de obra capitalistas”, o que não deixa de ser verdade!
Vide quem financiou a Revolução Russa, e aí ficaremos sabendo que, tanto o socialismo quanto o Capitalismo, são nada mais que duas face de uma mesma moeda!!!
Esperemos que Mujica seja bem sucedido nesta sua nova empreitada, pois a liberação do plantio da maconha e sua utilização para lazer, fará a alegria da organização Open Society, criada pelo multibilionário George Soros. Todas as ONGs e entidades que financiam a campanha pela legalização das drogas, tanto no Uruguai, como no Brasil e em vários países, tem como defensores nosso ex-presidente FHC, dentre outros!
zuleica jorgensen
23 de janeiro de 2014 3:09 pmMujica pensa com a bagagem
Mujica pensa com a bagagem que a vida lhe proporcionou e a urgência de dar soluções, hoje, para os problemas dos menos favorecidos. Como ele diz, “estamos cercados de capitalismo por todos os lado”. Por isso, de nada adianta ficarmos falando que o socialismo é a solução para a sociedade, enquanto as pessoas desperdiçam suas vidas afogadas em contas a pagar aos donos do capital.
É preciso ir, aos poucos, esvaziando a sede consumista insuflada nos homens e mostrando que a vida pode ser prazerosa e boa sem que seja preciso “possuir” as maravilhas produzidas pelo capitalismo predador.
Reduzir a bagagem, sem descuidar do pão (ou do peixe!) indispensável para conferir a cada ser humano a dignidade sem a qual lhe e impossível gozar a própria existência.
RVeiga
23 de janeiro de 2014 3:31 pm> ”Não se constrói socialismo
> ”Não se constrói socialismo com pedreiros, capatazes e mestres de obra capitalistas”, ironiza o presidente.
Bom, não quero nada com o tal de socialismo, pra mim a visão do Inferno na Terra. Mas o Mujica tem razão. A guerra é de valores.
Samuel Rodrigues
23 de janeiro de 2014 3:48 pmA frente do seu tempo.
De fato o mundo não pode permanecer com o consumismo absurdo dos dias de hoje. Dá para viver com muito menos, sem ter de comprar um celular novo, carro, computadores, roupas, a todo o instante. Virou uma demência coletiva e global.
Eduardo Pereira
23 de janeiro de 2014 5:30 pmGrande Mujica
Nassif , amigos
Sensacionais as palavras de Mujica , provavelmente o maior político desse início de século , tempos pobres de ideais humanísticos e valores essenciais ( e desafio alguem aqui a dizer o contrário ! ) .
A verdade é que a indigência espiritual ( não tem nada a ver com religião ! ) e , a confiança e o fanatismo cego no tecnicismo ( sim , que leva , no fundo , ao isolamento e à solidão – vide as redes sociais , onde se gasta 90 % do tempo em fofocas vazias e fogueiras de vaidades idiotas ! ) e ainda a crença absolutíssima no consumismo desenfreado e sem sentido , está levando o individuo a um vazio profundo , acentuando não mais o desequilibrio material que sempre combatemos ao longo da história , mas um verdadeiro e imenso “apartheid” cultural e de valores básicos !
Urge , assim , uma séria reflexão sobre o que esperamos ( e faremos ) para regatar e promover a verdadeira a essência do homem !
Como teremos de fazer isto : buscando virtudes básicas como tolerância , compaixão , aceitação e convivência harmonica e real com o outro , com o diferente , o olhar profundo para além do óbvio e do estabelecido , a autocritica , todas coisinhas aparentemente fora de moda nestes tempos de exacerbado egoismo e individualismo !
Somente assim diminuiremos as mazelas sociais e conseguiremos viver em um país e mundo melhores !
É difícil , é doído , teremos de enfrentar imensos desafios e interesses não nobres , é verdade ! Mas podemos fazer destas dificuldades um meio de sermos felizes buscando transformar outros também em individuos realizados , com dignidade !
Sábia reflexão do grande Pepe , um cara que nos orgulha pela singeleza , riqueza de valores e coragem de falar e buscar realizar o que pensa ! Faltam homens assim em nossos dias . Que nos sirva como grande inpiração para combater a boa luta , o bom combate : mudar o homem para se mudar o meio .
” Pobre verdadeiramente não é aquele desprovido de bens materiais , mas sim , de cabeça , de conteudo , de espírito ” . Nunca foram tão atuais e reais tais palavras .
alexis
23 de janeiro de 2014 7:22 pmRealidade Diferente
Mujica dirige um território de tradição agrícola, onde moram pessoas relativamente desenvolvidas, embora que em baixo número (ao redor de 3 milhões de habitantes). Assim, a sua visão não poderia ser como a visão Brasileira: Commodities, verticalização industrial, etc. mas, apenas atividades ligadas ao turismo e ao lazer de visitantes estrangeiro, principalmente ricos e de elevado consumo. Partindo com Punta del Este e os casinos, Uruguai seguiu com paraíso fiscal e, recentemente, ações “sociais” olhando para o turista global de hoje, ou seja, liberação de maconha, casamento Gay e outras ações ditas sociais, que com aparência de esquerda, apenas constituem elementos de crescimento econômico do país. Mujica acena de avançado para os uruguaios, mas é um excelente parceiro para o capitalismo global.
Anarquista Lúcida
23 de janeiro de 2014 8:31 pm“Socialismo real” de socialista nao tem nada…
|Puro capitalismo de Estado. E quem diz nao sou só eu nao, Chomsky disse isso belissimamente. Vou tentar incorporar:
[video:https://www.youtube.com/watch?v=zDJee4stYN0%5D
Cunha
23 de janeiro de 2014 9:30 pmPepe e Papa, os dois caras do
Pepe e Papa, os dois caras do século.