4 de junho de 2026

“Nunca aposte contra a China”, diz especialista

Jornal GGN – Presidente de uma consultoria internacional, a InterB, e atual membro do Conselho Empresarial Brasil-China, Claudio Roberto Frischtak já foi técnico do Banco Mundial e estudou o país asiático como poucos no Brasil. Sua experiência internacional e seu trabalho de implementação de inovação tecnológica na segunda maior economia do planeta rendeu-lhe, inclusive, a diretoria do London School of Economics e da Universidade de Oxford. Com notoriedade, ele explica como será o “ano novo chinês” e como o país se prepara para assumir a liderança no bloco econômico mundial, já nos próximos anos.

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Quando foi que o senhor começou a realizar este trabalho junto ao CEBC?

 
Foi há aproximadamente dois anos, logo após o falecimento do professor Antonio Barros de Castro, que infelizmente nos deixou. E o presidente do conselho, Sergio Amaral, sugeriu meu nome para substituí-lo. 
 
E o senhor sabe precisar o motivo pelo qual o seu nome foi escolhido para esta função?
 
Comecei a trabalhar com China na minha passagem pelo Banco Mundial, entre 1984 e 1991. Era o economista principal na área de indústria e energia, e comecei a desvendar o país numa época bem diferente do que ele respresenta hoje. Falamos de década de 80, início de 90, quando a China ainda era uma outra nação – no entanto, já despontava como um país com potencial dinamismo, desde essa época. 
 
 
Qual foi a sua relação direta de trabalho com a China?
 
Tive uma experiência inicial não somente com estudos, mas também com projetos, como o de implementação de inovação tecnológica por lá. O país dispunha de recursos humanos e tecnológicos suficientes para tornar-se uma grande potência no futuro. Mas ainda estava segregados dentro do país e suas instituições, não saíam de lá. Somente os centros de pesquisa tecnológica do país totalizavam 5 mil, um número assombroso para a época.
 
E por que a China? Foi uma escolha pessoal?
 
Trabalhei com muitos países grandes no Banco Mundial, outras localidades na Ásia, como a Índia, mas por uma dessas coincidências, a China surgiu como promissora, mostrando já de início que usaria da melhor forma suas instituições. Estreitou laços com o Banco, teve um papel ativo junto ao Fundo Monetário Internacioal (FMI), Banco de Desenvolvimento da Ásia, sempre com um papel muito ativo. Tudo isso sem contar sua história recente e particularidades, que são incríveis – a trajetória de se tornar sua economia uma das mais relevantes do mundo.
 
E ela finalmente conseguirá ser a maior? Em quantos anos isso deve acontecer?
 
Acreditamos que, ao final do mandato de Xi Jinping, em 2020, ela já estará liderando o mundo. A expectativa depende da trajetória de crescimento, nada muda de um dia para outro. Mas será estatisticamente reconhecida até antes disso. As previsões dependem de como a medição será feita, claro. O dólar deve ficar mais fortalecido, juntamente com a recuperação americana. Mas a repetição provável dos estimados 7,5% de crescimento com que a China deve ter fechado 2013, se repetidos, misturados com o fortalecimento do yuan [moeda chinesa], devem mesmo sacramentá-la como líder entre as economias mundiais já na próxima década.
 
E as reformas propostas pelo governo, tanto sociais quanto econômicas, podem acelerar este processo? Já teremos algum resultado visível em 2014?
 
O ritmo chinês é algo bastante interessante: primeiro, definem-se estratégias, para depois aplicar um série de políticas. Aponta-se um norte primeiramente. Até pelo que já sofreram, em sua própria revolução cultural, não é uma tradição do povo chinês atropelar os fatos. Vamos fazer mudanças? Sim, mas de forma lenta, segura, gradual, gostam de ter o controle das coisas. Ninguém pode subestimar a importância do documento divulgado no ano passado, mas é notório que isso deve se dar ao longo de anos, e não de meses. O governo atual tem pleno controle da situação, é soberano, e os chineses lhe têm total obediência. O presidente é, atualmente, secretário geral do partido, presidente da comissão militar e do país. É uma afirmação de poder impressionante, e num período curto.  Tem mais nove anos pela frente e sua estratégia é certamente a de implementar essas mudanças até a saída do cargo.
 
E como essa reforma deve se dar, em sua análise?
 
Na virada da década, as reformas estarão implementadas. Talvez precisem de acertos, como a política do filho único, que demorará um tempo a ser abolida completamente, por exemplo. Mas há uma certa liberalização no âmbito social e também no político. A China passou por um processo demográfico que já conta contra o crescimento econômico e também contra as famílias. As medidas liberalizam a sociedade e suas relações. Mas o fundamento da decisão é o seguinte: o governo quer fazer uma realocação complexa de recursos, submetendo as estatais, que ainda têm o domínio, às forças de mercado, vai reduzir subsídios, terem o curso reais de insumo e de energia… tudo isso para estabelecer uma rede de proteção social que a China não tem. Uma realocação de recursos.
 
E o que é importante destacar neste plano em relação à economia e à política internacionais e suas diretrizes?
 
 
O que o governo quer é redirecionar a economia, da exportação para o consumo, onde o mercado terá um papel mais decisivo. São duas dimensões: submeter as estatais aos preços de mercado, já que elas ainda contam com subsídios e terão de sobreviver pelos seus próprios méritos, realocando esses recursos para a área social. A segunda é reduzir as barreiras para uma série de setores do ponto de vista regulatório e administrativo. Em algumas áreas, você pode demorar anos para conseguir algumas permissões.  
 
 
A centralização de poder pode ajudar ou atrapalhar esses planos?
 
O acúmulo de poder do presidente tem tudo a ver com isso: a ambição de ter todas essa mudanças nas mãos. Tanto que os demais políticos, como o primeiro-ministro, foram eclipsados. Em novembro, por exemplo, o governo quis reduzir gastos supérfluos das estatais e empresas próprias para não pressionar a inflação, em vez de controlar os preços. Um ajuste fiscal um pouco diferente: chineses comemoram muito vigor suas efemérides. O governo ajustou, por exemplo, as comemorações de final de ano. Ficou heterodóxico uma comemoração mais efusiva, o que reduziu drasticamente os gastos do governo. Barbatanas de tubarão, o caviar deles, foi cortado. Ostentação e exagero foram cortados. E todos obedeceram, são muito disciplinados. E acredite se quiser: isso teve um impacto enorme sobre a inflação. Claro, houve um excesso de capacidade que, combinado com a deflação leve, complicou os números.
 
A China pode ser um “engano” dos economistas “gurus”? Podemos ter surpresas ao longo do caminho?
 
Nos últimos 35 anos, quem apostou contra a China perdeu. A capacidade do chinês de levar a cabo seus planos é admirável. Cometem erros, exageros, mas a capacidade de acertos é elevadíssima. Eles tomam nota de tudo, porque acreditam na transferência de conhecimento e aprendizado. Enxergam duas décadas na frente, sempre falam em projeções assim, longas. Capacidade, disciplina, interesse, interpretação, sabem onde querem chegar e a longo prazo. Apostar contra eles não é um bom negócio, há muitas décadas, não deverá ser nas próximas.
 
Quais são os maiores problemas que a economia chinesa enfrenta?
 
A China está num momento de transição. As pessoas se esquecem que a economia chinesa hoje é muito maior. Quando você cresce nesse ritmo, você dobra de tamanho a cada 6, 7 anos. Crescer 7% já é uma coisa magnífica, dada a complexidade da economia local. Tem problemas graves, como excesso de capacidade em alguns segmentos, excesso de investimento, acumulação de capital muito rápida e cada vez menos eficiente. O modelo foi criado por meio de uma conta feita pelo governo e a conclusão foi: a produtividade de capital do país está caindo – cada vez mais investimento para crescer sempre a mesma coisa. Uso exagerado de subsídios, baixa competição entre os segmentos que as estatais comandam. E temos o endividamento das empresas – o estado chinês é pouco endividado, 22% do PIB, no Brasil passa dos 60%. Por outro lado, as empresas são muito alavancadas, o que também é uma preocupação governista. 
 
E qual é o maior desafio de todos?
 
Melhorar a produtividade do capital e reprimir o excesso de endividamento. O Banco Central já deu “dois coices” no mercado informal de empréstimos, com uma subida nos juros que ninguém estava esperando. É um freio de curto prazo, que pode impedir o aumento do crescimento, mas ajustará as contas internas, dando mais legitimidade às reformas e também ao governo. Há também as questões rurais, distribuição de terras nas províncias e o desemprego. Mas não vejo com grande alarde os números de dezembro, não muito positivos. A nova fase já começou e o alvo de 7,5% de crescimento deverá ser atingido. 2015 pode ser diferente, o governo talvez decida acelerar o processo, para estimular o consumo em relação ao PIB, que atualmente é baixíssima. Seja lá como for, é bom não duvidarmos da capacidade altíssima dos chineses em, simplesmente, resolver.
 
 
 
 

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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7 Comentários
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  1. Marcos K

    18 de janeiro de 2014 11:34 am

    Um professor meu contou uma

    Um professor meu contou uma história bastante interessante sobre a China, que soa como anedótica, mas ele deu a entender ser verdadeira. A alguns anos uns burocratas brasileiros intoxicados pelo neoliberalismo visitaram o país e ficaram impressionados quando os chineses mostraram todo o projeto de desenvolvimento  para o país que pretendiam implementar atés 2050. Entre estupefatos e positivamente impressionados os ditos brasileiros indagaram quem havia feito um planejamento tão complexo, coerente e lógico.”Ora”, responderam os chineses, “isso é óbvio. O Partido Comunista”. Desnecessário dizer que os neoliberais brasileiros enfiaram o rabo no meio das pernas…

  2. mauro silva 1

    18 de janeiro de 2014 12:00 pm

    Brasil entre 1984 e 91?

    A diferença entre China e Brasil?

    Entre 84 e 91, o Brasil teve a ‘fortuna’ de ser ‘liderado’ por Figueiredo, Sarney e Collor de Mello; a China tinha 5 mil centros de pesquisas …

    E não faltam ‘experts’ a defender aquela década “afortunada”.

  3. Raí

    18 de janeiro de 2014 12:16 pm

    E quem duvidaria…

    Nenhum estudioso em economia, duvidaria da enorme capacidade de crescer e agigantar-se, de uma nação que entre outras coisas, tem a maior concentração de consumidores do planeta, que ainda são ávidos de terem acesso aos bens de consumo, que por enquanto, apenas produzem para exportar, e desenvolver a China, e cuja direção política, não aceita nada menos que o cumprimento das metas estabelecidas em seus projetos quinquenais.

    1. Mário Mendonça

      18 de janeiro de 2014 1:14 pm

       
      Prezado Raí
      A China é o

       

      Prezado Raí

      A China é o próximo império do mundo.

      O Dragão acordou com fome de Leão…..

      Abração

       

  4. Obelix

    18 de janeiro de 2014 4:09 pm

    Dragão na coleira.

    Prezados e prezadas,

    Eu, depois de alguns anos de observação e ceticismo, elaborei outra forma de enxergar as coisas, e posso (provavelmente) estar errado:

    Nunca aposte naquilo que te disser um especialista de economia ou de mercado.

    Tem uma resposta que ele não vai responder, que é o verdadeiro paradoxo da China nos dias atuais e para os próximos anos:

    Suas posições em títulos da dívida estadunidense não lhe permitem ir com “sede ao pote”. Esta é a transição verdadeira da China, ou seja, como acabar com o domínio do país que emite a moeda que é a sua principale riqueza (poupança).

    Se os EEUU quisessem declarar a III Guerra, bastava desvalorizar 10 ou 20 vezes (emissões)o dólar e/ou pulverizando o valor de face destes títulos, recomprando-os a preço de banana, ou espalhando liquidez pelo mundo, onde aumentaria o estoque de moeda estadunidense disponível a outros emergentes, que por sua vez poderiam refinanciar os EEUU com a compra de títulos novos com valores de face menores, que desintegraria os papagaios chineses.

    A China AINDA é um gigante de pés de barro. Vejam bem, eu disse AINDA.

  5. Obelix

    18 de janeiro de 2014 4:39 pm

    O segredo do dragão.

    Prezados e prezadas,

    Mais um comentário sobre este fetiche permanente (desde a Antiguidade até a pós-Contemporânea), a China:

    Qual é a virtude de sufocar a sociedade com mão de ferro, torturar, matar, oprimir e depois dizer que sabe planejar e prever o futuro?

    Alguns dirão que até para matar, sufocar, oprimir é preciso método, afinal, há outras sociedades que praticam as mesmas atrocidades mas não têm sucesso. Outras fazem até dentro daquilo que chamam de Estado de Direito (como o Brasil).

    É verdade, talvez o segredo da China talvez esteja como direcionar o autoritarismo para o crescimento econômico (capitalismo de Estado), quem sabe?

    Mas quem quer algo semelhante?

  6. Fábio Kling

    19 de janeiro de 2014 4:22 pm

    Sábio Chinês

    Será o grande sábio chinês com saúde debilitada?!

    Veem oportunidade em todas as situações, por exemplo, vender ar comprimido em lata!

    link:

    http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Visao/noticia/2013/01/poluicao-aumenta-na-china-e-milionario-vende-ar-enlatado.html?fb_action_ids=573170596105483&fb_action_types=og.likes&fb_source=aggregation&fb_aggregation_id=288381481237582

    Observa-se toda a esfera problemática ocorrendo em um lugar do planeta, onde pode-se perfeitamente demonstrar o descrecimento da humanidade.

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