4 de junho de 2026

Algum Título Musical

Por Maira Vasconcelos

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(música, por favor. o sol pode tostar)

Se ao ler estes escritos todos pudessem sintonizar-se nos tons arranjos de uma valsa prelúdio impromptu.. clássicos!. Tudo será, eu sei, melhor entendido, e quanto mais belo! Não vago na grossura de um berro feio e murchoso, hei de em voltas florear mesmo quando decaída ao piso da terra: a pétala estalou ao solo, nesse instante ela descansou numa queda tão sutil e bonita!

A vulgaridade do descárnio morboso não me pertencerá.

Mesmo que a criatividade, naquele indivíduo que por esta causa se move, tenha fim apenas quando este abrace a tontura da morte. É o incômodo criativo, que no corpo pede exclama por fazer expressivo, e a ele somente bastará a boa imaginação! – imaginação é vida que não acaba mais!, Drummond poderia isto haver dito – continuo.. Imaginação, esta que se manifesta e pede passagem, vem aguada varrendo o corpo todo,. Tão eloquente, a força da criação é capaz de justificar qualquer aleivosia. Então..há de se reunir esforços: não abandonarei o processo de desenvolvimento desta escritura minha.

Olhemos ao redor! O mundo está hoje tão claro.
Às vezes, tenho tanto esta certeza!: a de que apenas vivo num estado de ser disfarçadamente.

Quem arte espairece, carregou tantas vezes consigo o desastrado jeito de des-confeccionar suas linhas-veias, pérolas-ossos. Briga-se ferrenhamente com roupas e sapatos!, perguntem aos poetas e eles desnudos confirmarão: dissertaremos então sobre ombros e pés, dizem.

E olho além de mim, hoje tudo está tão claro!, mas todas as coisas da natura passam por desconjunções. Toda flor arrebenta-se no ar por dom de natureza, todo ramo florales sufoca=se consigo mesmo!, vento e água são seus únicos alívios de viver. Portanto, todo escrevedor terá a permissão: de des-alinhavar as palavras para transferir a elas a destruição que nos açoita vida.!. Para que sejam não-versos esmagados de tanta: sem nenhuma métrica.

Assim tenho trabalhado estas crônicas: sai-me tudo versado feito poesia, depois agarro todas as minhas mãos e tiro poeira de cima de tudo, fica liso assim, só em linha alongada esticada, como se vê!
Eu! prefiro sempre a não-poesia. Declamo:
amarei escondida toda a destruição poética, roendo antigas unhas de menina dentro do armário de madeira fechado.

Na negação constante que faço da poética, fico olhando as palavras e nos intervalos penso:
estes escritos tendem a ganhar tal complexidade, que sinto extremo cansaço na hora de revisar o sentido das coisas. Mas então aprendo a ponderá-las fieis àquilo que devem ser quando vistas em seu final de palavra acabada, curada na madeira do banco velho de uma igreja. Rangendo.
.aguenta-se aos trancos os joelhos e os corpos, daqueles que são outros,
,não necessariamente apenas este Eu!.

*

Às vezes, esqueço do brilho vindo das pétalas de rosas, até mesmo se são elas azuis. E quando estou junto às palavras, através da sua faceta unicamente tão indecente escurecida, é como se viesse a mim uma Augustina Sem Anjos desta vida.., ah, como isso é terrível!, mas de repente, mudo tudo e pinto todinha de dourada as minhas próprias asas-penadas. Pois, vida vida, larguíssima vida é esta que aqui está a ser embebida e avoada. Mas, Vida: para que te quero em rosas?

Se serei cuidada por estas grades que em pé de ferro estão, e cada uma delas são feitas, tão só, de letras palavradas. Ah! Isto é ser tão rude comigo mesma, Eu! que tantas vezes estou presente apenas se em palavras!, deveria apagar esta frase de prisioneira e arrumar o cabelo somente para encontrar-me contigo, Palavra.

Às vezes, é muito difícil agarrar a voz correta, aquela que exatamente convém para a palavra. E o não-uso da voz certeira pode provocar um engasgar, fico atarracada tentando encontrar um alívio.

*

Estou no miolo de mim, penso no exterior. Estou no exterior, penso no miolo de mim.
Fui feita com uma mola que não enferruja.
Sim!, Eu! tenho habilidade.

Claro que minha palavra me agrada! Com as palavras dar-se-á um sacudão na realidade. realidade chata como formiguinha que vive-revive em cima do forro da mesa de café. Dou-lhe novo peteleco, mas elas hão de aqui voltar.
Assim também são as palavras: doidamente varridas, !mas ainda como são tão vivas! ! !.

*

Se meu trabalho é quase todo em prol daquilo que não sei, e a invenção é puro desconhecimento, até mesmo para quem desvira e somente depois vê sua face bem encarada de frente. Topa-se a cara-caveira naquilo que já não é mais de ti. !.do mundo és tu: palavra artemilagrosada.

.Ossos de esqueletos tilintam. Não sei escrever a descrição do barulho cadavérico.
!Que bom foi agora não-saber!
Vivo venerando este !não! que permite um sorrir mais cômoda.

Quero escrever a percepção exata. Não saberei jamais! dizer como escrevo.

*

Há duros navios no mundo que levam petróleo grãos e mequetrefes,
Há duros navios no mundo que levam famílias gentes refugiadas.
Tudo tem virado mercadoria de navio, algumas caras e outras bem baratas.
Depende do mar em que se olha a história.

E depois de haver dito tudo isso, querem que eu esteja a ver o brilho de cada sol – isto é uma exigência cabal!, quando hoje posso dar-me apenas a uma peça clássica, ao piano de..ah, os movimentos de inseto das mãos de Vladimir Horowitz!

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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