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Enviado por Felipe A. P. L. Costa
Babel de poemas: Uma amostra
Por F. Ponce de León, do blogue Poesia contra a guerra
As prateleiras mais altas da biblioteca universal abrigam alguns volumes originalmente escritos em português. Mas abrigam um número muito maior de volumes escritos em outros idiomas. Para termos acesso a esse imenso tesouro, nós dependemos do trabalho de tradutores.
Fruto de um esforço inusitado e impressionante – o autor traduziu 60 poemas de 60 idiomas –, o livro Babel de poemas: Uma antologia multilíngüe (L&PM, 2004), de Carlos Freire, abriga várias preciosidades. Três delas – extraídas do blogue Poesia contra a guerra – são reproduzidas a seguir. (Entre colchetes, ao lado do título, cito o ano de publicação em livro.)
*
Balada do concurso de Blois [1489]
François Villon (1431-1463?)
Morro de sede perto da fonte,
Quente como fogo, tirito de frio,
Estrangeiro me sinto no meu país;
Junto ao braseiro, sinto escalafrios.
Nu como um verme, vestido como um presidente;
Chorando rio e desesperançado espero;
Reconforto-me com o mal da desgraça;
Regozijo-me e prazer nenhum sinto;
Sou poderoso sem poder e sem força;
Bem-amado e rejeitado por todos.
Nada me é certo senão o incerto;
Obscuro, exceto o que é evidente;
De nada duvido a não ser da certeza,
E em cada acidente a ciência encontro;
Ganho tudo, permaneço perdedor.
Ao fim do dia digo: “Deus lhe dê boa-noite!”
Deitado, tenho muito medo de cair.
Tenho muito do que nada tenho.
Herança espero e não sou parente de ninguém;
Bem-amado e rejeitado por todos.
De nada necessito, embora pareça
Procurar bens e isso não pretenda;
Aquele que mais docemente me fala é o que mai me irrita;
E o que mais me engana é o mais verdadeiro.
Amigo verdadeiro é o que me convença
Que um cisne branco é um corvo negro;
Quem me maltrata crê fazer-me um favor,
Verdade e mentira, hoje, para mim é igual.
Retenho tudo, nada sei conceber:
Bem-amado, rejeitado por todos.
Príncipe clemente, agora talvez queiram saber
Que eu entendo muito, sem ter sentidos nem saber:
Parcial sou e a toda lei me submeto.
Que sei eu a mais? Meus compromissos vencer,
Bem-amado, rejeitado por todos.
*
Noites de inverno [1905]
Eugène Marais (1871-1936)
Oh! frio é o vento,
desolado.
Vastos como a misericórdia divina,
jazem os campos sob a luz das estrelas,
na sombra.
E alto, nos confins dispersos,
nos terrenos queimados,
as sementes se movem
como mãos acenando.
Oh! triste é a melodia
quando fustiga o vento do este,
como a jovem que perdeu seu amado.
Na dobra de cada folha de grama
brilha uma gota de orvalho
e rapidamente empalidece,
até transformar-se em grama, na friagem.
*
Tão pouco [1969]
Czeslaw Milosz (1911-2004)
Tão pouco eu disse
Curtos foram os dias.
Curtos foram os dias
As noites
Os anos.
Tão pouco eu disse
Não tive tempo.
Meu coração se cansou
Com o enlevo
O desespero
O fervor
A esperança.
As mandíbulas do Leviatã
Fecharam-se sobre mim.
Nu, deitado às margens
De ilhas desertas.
Levou-me consigo ao abismo
A baleia branca do mundo.
E agora
Já não sei
O que era real ou não.
*
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