Dominó de Botequim, por Rui Daher

– Companheiras e companheiros!

A empolgação inicial de Virgínia foi logo cortada pelo olhar desconsolado de Nonato João, que a todos retumbou como “não, amor, aqui não”.

A doutoranda em Ciências Políticas, na USP, se recompôs e começou o discurso. Percebi que não iria ler.

– O motivo de estarmos aqui foi informado a presentes e ausentes. Todos aqueles que nas manhãs de domingo eram recebidos pela vida, no Botequim do Serafim.

Naquele momento, certamente, todos os pensamentos se transportaram aos cantinhos preferidos de cada um no boteco.

– Uns vinham para jogar o dominó, outros para o café-da-manhã, todos para bebericar, petiscar e discutir política, cidade, viadagem de ricos, dores de pobres, vida e vergonha alheias. Também falávamos de como ganhar uma graninha honesta a mais. Nos incentivava o cartaz atrás do balcão: “ O fiado de hoje para você é o fiado de amanhã para quem devo”.

Alguns sorrisos. Nenhum amarelo. Respeitávamos a liquidez do portuga, até por interesse na perfeita manutenção de seus estoques líquidos.

Nonato João se levantou para declamar. Prudêncio se retesou, pronto para obedecer ao comando: “Fogo”!

“Quando no porto de Santos Serafim chegou/Numa exportadora de café se empregou/Os escudos que guardava no colchão/Junto ao salário mal davam pra comer e pagar a pensão”.

“Deixou então ´Zé Menino´ e foi na zona do porto morar/Zona mesmo, com puta, droga e marinheiro torto a zoar/Nada parecia o que lhe dissera o primo Tonho surdo/Que Aveiro era o passado e o Brasil era o futuro”.

“Não aguentou muito tempo porto e litoral/Subiu a Serra do Mar pra morar na Capital/Manoel Jesus, do Ipiranga tinha padaria perto/Ofereceu trabalho e a Hospedaria de Imigrantes como endereço certo”.

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“Do trabalho nas massa, fornos e balcão guardou dinheiro bom para futura aquisição/Não um palacete na Paulista, nem era quatrocentão/Mas logo o faro lusitano sentiu na imediação/Que dava pra comprar à vista, perto do Largo do Cambuci, um velho salão”.

Nem todos ali presentes conheciam a história do Serafim antes de abrir o seu boteco. Alguns falavam num sócio, sem parentes no Brasil, que bancara o empreendimento e morrera antes da inauguração. Outros, numa desapropriação feita pelo prefeito Prestes Maia, entre 1961 e 1965, que deixara rico o português. Não se deve desprezar a hipótese. Na época, o padeiro do Ipiranga, Manoel Jesus, virara fiscal de obras.

Ouvir o cordel de Nonato João era fazer voltar ao balcão do boteco a figura terna e honrada de Serafim.  Virgínia, continuou:

– Amigos, o Serafa, apesar de todos aconselharem o contrário, quando soube da herança deixada pelo irmão Luís para ele e a irmã Guilhermina, no Aveiro, juntou-se à ganância, desculpem-me a expressão, de um filho-da-puta do mercado financeiro, reconhecido malandro, que lhe aplicou um golpe e o fez perder tudo o que tinha e mais parte da herança da irmã.

Percebi lágrimas escorrendo dos olhos de Dona Zilá e o Netinho cabisbaixo.

– O bar ele tinha mandado o Netinho alugar e remeter o dinheiro para uma conta nas Ilhas Cayman. Depois de quase um ano sem receber, sabe-se lá se por alguma vingança divina, que assim Deus age com os pobres, a casa onde ficava o salão foi desapropriada para metrô, sem nunca Serafim ter recebido algo do governo.

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Veio o primeiro aparte. Filgueiras, católico efervescente, interrompeu:

– Virgínia, não seja injusta com Deus. Você não entende de coisas espirituais.

– Ah, não entendo mesmo. Pior é vocês fazerem os pobres acreditarem.

Virgínia, por favor, continua.

– Outro dia Nonato estava numa festa e viu o Serafa trabalhando como ajudante de garçom. Fingiram não se conhecerem. Pergunta daqui, pergunta dali, soubemos que ele está quase na miséria, morando com um antigo caso num cortiço em Marsilac. Sem nenhum trabalho fixo.

Todos se entreolharam e um murmúrio triste perpassou o quintal onde estávamos. Virgínia, mais uma vez, não resistiu:

– Quem foi o que foi. Imaginem ficar nessa situação. Ainda mais agora que os neoliberais convenceram o governo de que “fazer lição de casa” é foder com os empregos.

Nonato João, desta vez foi mais brusco:

– Porra, Virgínia! Assim você é que fode com a razão de estarmos aqui.

Voltou ao cordel de encerramento:

“Aviso a todos aqui/Que de um jeito ou de outro/A ele não ofereçam caridade/Quem sempre foi durão precisa é dignidade/Serafa fosse um bundão teria procurado um vereador da cidade”.

Os aplausos foram unânimes. Até da caserna eles vieram.

“Eu e a amada Virgínia/Que neste dia de homenagens/às nossas mães nada temos a oferecer/Convidamos e juntamo-nos a vocês/Para no Dominó de Botequim reacendermos o fogão do Serafim/E muita felicidade trazer.

Quando todos pedem a mim e ao Osório as últimas palavras. Relutamos. Até que, desafinados, chorosos e meio altos, apelamos a Amália Rodrigues. 

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