A crise adiada do capitalismo democrático (Parte I), de Wolfgang Streeck

“Quando a maioria da população perceber seu governo como representante da economia internacional (...), ela terá de ser excluída das decisões políticas; assim começa a marcha em direção ao capitalismo livre da democracia”

Lista de LivrosTempo comprado: a crise adiada do capitalismo democrático (Parte I), de Wolfgang Streeck

Por Doney
Editora: Boitempo
ISBN: 978-85-7559-645-6
Tradução: Marian Toldy e Teresa Toldy
Opinião: muito bom
Páginas: 240

“Quando a maioria da população perceber seu governo como representante da economia internacional e dos interesses financeiros – uma vez que ele não convence nem a si mesmo das promessas de convergência do neoliberalismo –, ela terá de ser excluída das decisões políticas; assim começa a marcha em direção ao capitalismo livre da democracia – ou melhor, ela segue em seu ritmo.”

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“Tudo o que é social acontece no tempo, evolui com o tempo e torna-se mais semelhante a si próprio no tempo e com o tempo. Só podemos compreender o que vemos hoje se soubermos como era ontem e qual o seu rumo atual. Tudo quanto existe está sempre num processo de evolução.”

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“Gostaria de propor uma narrativa histórica da evolução capitalista desde os anos 1970 que estabelece uma ligação entre aquilo que interpreto como uma revolta do capital contra a economia mista (mixed economy) do período pós-guerra, a ampla popularidade dos mercados de trabalho e de consumo em expansão após o fim dos breves anos 1970 e ainda a sequência de fenômenos de crise econômica desde aquela época até hoje – uma sequência que atingiu, atualmente, o seu ponto alto numa tripla crise: dos bancos, dos orçamentos públicos e do crescimento econômico. Considero o “desencadeamento”10 do capitalismo global no último terço do século XX resultado da resistência dos detentores do capital e daqueles que dele dispõem – da classe dos “dependentes do lucro” – às múltiplas restrições que o capitalismo foi obrigado a aceitar depois de 1945 para voltar a ser politicamente viável nas condições da concorrência de sistemas. Penso que a explicação para este êxito, assim como para o fato de a revitalização do sistema capitalista enquanto economia de mercado ter sido possível – contra todas as expectativas – se deve, entre outras coisas, a uma política estatal que comprou com dinheiro tempo ao sistema capitalista, garantindo uma espécie de lealdade das massas ao projeto neoliberal de sociedade enquanto sociedade de consumo de uma forma que a teoria do capitalismo tardio pura e simplesmente não podia imaginar. Fez isso, primeiro, através do inflacionamento da massa monetária; depois, através de um endividamento público crescente; e, por fim, através da concessão generosa de crédito às famílias. Contudo, passado algum tempo, estas estratégias esgotaram-se de uma forma bastante familiar à teoria da crise neomarxista, começando a minar o funcionamento da economia capitalista, que também depende do respeito e da satisfação das expectativas capitalistas de um retorno justo (just return). Tudo isso fez surgir – repetidamente e por fases – problemas de legitimação, ainda que não em primeira linha junto das massas, mas sim do capital. Esses problemas assumiram a forma de crises econômicas de reprodução e acumulação que, por sua vez, puseram em perigo a legitimação do sistema junto das populações com autoridade democrática. Este perigo só pode ser ultrapassado à custa de uma maior liberalização da economia política e de uma imunização da política econômica contra a pressão democrática de base, cujo objetivo é recuperar a confiança dos “mercados” no sistema.

Retrospectivamente, a história da crise do capitalismo tardio desde os anos 70 afigura-se como um desenvolvimento da tensão, muito antiga e fundamental, entre o capitalismo e a democracia – como dissolução progressiva de um casamento forçado, arranjado entre ambos depois da Segunda Guerra Mundial. Ao transformarem-se em problemas de acumulação, os problemas de legitimação do capitalismo democrático perante o capital exigiram como condição para sua solução que a economia capitalista se libertasse cada vez mais da intervenção democrática. Assim, o lugar de garantia de uma base popular para o capitalismo moderno transferiu-se da política para o mercado, enquanto mecanismo de geração dos motivos capitalistas fundamentais da ganância e do medo (greed and fear)11, ao mesmo tempo que crescia a imunização da economia contra a democracia enquanto democracia de massas.”

10: Andrew Glyn, Capitalism Unleashed. Finance Globalization and Welfare. Oxford, Oxford University Press, 2006.

11: A ganância e o medo, de acordo com a descrição que o capitalismo financeiro faz de si mesmo na ciência das finanças, constituem os geradores de comportamento decisivos nos mercados bolsistas e na economia capitalista, em geral, Hersh Shefrin, Beyond Greed and Fear: Understanding Behavioral Finance and the Psychology of Investing (Oxford, Oxford University Press, 2002).

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“Na Alemanha, a crise quase não se fez notar, durante anos, devido a circunstâncias especiais, bastante casuais e – visto de fora – exóticas13.”

13: A Alemanha, ao contrário dos bons conselhos de todos os “sábios”, defendeu a sua base industrial, e nos anos 80 e 90 não avançou lentamente para a tão louvada “sociedade de serviços” segundo o modelo americano ou britânico. Por isso, após 2008, possuía produtos para exportar, especialmente automóveis de luxo e máquinas de uma qualidade que mais ninguém conseguia apresentar. A economia alemã se beneficiava das elevadas taxas de crescimento na China e da distribuição cada vez mais desigual de rendimentos no país em crise, os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a taxa de câmbio na zona do euro era fixa e, fora dela era mais baixa do que seria a taxa de câmbio de uma moeda exclusivamente alemã. A crise financeira e fiscal na Europa baixou ainda mais a taxa de câmbio do euro.

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“Existe, manifestamente, uma ligação estreita entre as três crises: a crise bancária está ligada à crise do Estado através do dinheiro; a crise bancária está ligada à crise da economia real através do crédito; e as crises das finanças públicas estão ligadas à economia real através das despesas e receitas públicas. As crises reforçam-se reciprocamente, sendo que a dimensão, a ponderação e a interligação das três variam de país para país. Existem, simultaneamente, múltiplas interações entre os países: bancos que vão à falência podem arrastar consigo bancos noutros locais; a subida generalizada de juros de dívida soberana, provocada pela insolvência de um país, pode arruinar as finanças públicas de muitos outros países; conjunturas favoráveis e recessões a nível nacional têm impacto internacional, etc.

No verão de 2012, a atual crise das democracias capitalistas já durava havia mais de quatro anos. Ela se manifesta de formas sempre surpreendentemente novas, surgindo em primeiro plano novos países, crises e combinações de crises. Ninguém sabe o que vai acontecer a seguir; os temas mudam todos os meses, por vezes todas as semanas, mas quase todos voltam em algum momento. O campo de ação política está minado com um número interminável de efeitos secundários imprevisíveis. Se há casos em que se pode falar de complexidade, este é um deles. Faça o que fizer a política para resolver um problema, ela cria outro – no curto ou no longo prazo. O que põe fim a uma crise agrava a outra; a cada cabeça da Hidra que se corta, crescem duas novas cabeças. É necessário abordar demasiados problemas em simultâneo; as soluções de curto prazo impossibilitam soluções de longo prazo. Aliás, nem sequer se procuram soluções de longo prazo, uma vez que os problemas de curto prazo exigem prioridade; surgem buracos por todo o lado que só podem ser tapados abrindo novos buracos noutro lado. Não houve nenhum momento posterior à Segunda Guerra Mundial em que os governos reunidos do Ocidente capitalista tivessem transmitido uma imagem de tal desnorteamento e em que tivesse sido possível pressentir tanto pânico puro e simples por trás das fachadas de serenidade otimista e de um domínio da situação que resulta da superação de perigos.”

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“Na realidade, a história do capitalismo posterior aos anos 70 do século XX, incluindo as sucessivas crises econômicas ocorridas neste período, é a trajetória de evasão do capital à regulação social que lhe foi imposta após 1945, mas que ele próprio nunca desejou. Na sua origem, estão as revoltas dos trabalhadores por volta de 1968 e a confrontação dos empregadores das sociedades industriais maduras com uma nova geração de trabalhadores que consideravam como adquiridos as taxas de crescimento e o progresso social permanente da fase da reconstrução e, em geral, as promessas políticas dos anos de fundação do capitalismo democrático. O capitalismo nem podia nem queria satisfazer para sempre estas reivindicações.

Nos anos subsequentes, as elites capitalistas e os seus aliados políticos procuraram uma forma de escapar às obrigações sociais que tiveram de assumir para manter a paz e que, em termos gerais, também tinham conseguido cumprir durante a fase de reconstrução. (…) O processo de liberalização, que inclui, simultaneamente, uma técnica de controle, uma desresponsabilização do Estado e uma libertação do capital, não avançou senão vagarosamente, sobretudo enquanto a recordação dos abalos de 1968 ainda esteve presente, e foi acompanhado por múltiplas disfunções políticas e econômicas, até atingir seu momentâneo ponto alto na crise atual do sistema financeiro mundial e das finanças públicas.”

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“Em outras palavras, o capitalismo pressupõe um contrato social no qual as expectativas recíprocas do capital e do trabalho, de dependentes do lucro e dependentes do salário estão estabelecidas de modo mais ou menos explícito, sob a forma de uma constituição econômica formal ou informal. O capitalismo – ao contrário daquilo que as teorias econômicas e as ideologias querem fazer acreditar – não é um estado natural, mas sim uma ordem social que, estando associada a determinado tempo, necessita ser formada e legitimada: é concretizada sob formas que variam conforme o lugar e ao longo da história, podendo, a princípio, ser sempre negociada de novo e estando permanentemente ameaçada de ruptura. Aquilo que ficou conhecido na bibliografia anglófona como postwar settlement do capitalismo democrático começou a desmoronar na década de 70. Tratava-se de um entendimento social resultante da situação pós-guerra relativo aos fundamentos negociais de uma evolução do capitalismo sob uma nova forma. O capitalismo após 1945 encontrava-se numa situação defensiva em todo o mundo. Tinha de se esforçar em todos os países do Ocidente, então em formação, para conseguir prolongar e renovar a sua licença social45, face a uma classe trabalhadora fortalecida na sequência da guerra e da concorrência de sistemas. Isto só foi possível graças às fortes concessões, previstas e possibilitadas pela teoria de Keynes: no médio prazo, sob a forma de uma política conjuntural e de planeamento estatal para garantir o crescimento, o pleno emprego, o equilíbrio social e uma proteção crescente da imprevisibilidade do mercado; no longo prazo, sob a forma de um desaparecimento histórico progressivo do capitalismo num mundo de taxas de juro e de margens de lucro em níveis permanentemente baixos. Foi só nessas condições (portanto, a serviço e sob o primado de fins sociais politicamente definidos) que, após o fim da economia da guerra, foi possível integrar uma economia do lucro reanimada numa democracia liberal estabilizada, protegida contra retrocessos fascistas e tentativas estalinistas. Foram essas as condições que tornaram politicamente exequível a reintrodução do direito à propriedade e ao exercício do poder de dirigir. A assim chamada, na discussão teórica de Frankfurt, “fórmula da paz” foi mediada, tal como seu cumprimento foi supervisionado, por um Estado intervencionista que impunha disciplina ao mercado, planejava e redistribuía, tendo também de garantir os fundamentos para o negócio do novo capitalismo, sob pena de perder sua própria legitimidade.”

45: Poderíamos falar também, de uma forma radicalizada, da necessidade de uma renovação da licença capitalista de caça aos lucros.

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“Os três métodos utilizados sucessivamente para criar ilusões de crescimento e de prosperidade – inflação, endividamento público e endividamento privado – só funcionaram durante algum tempo. Depois, tiveram de ser abandonados, porque começaram a impedir o processo de acumulação, em vez de promovê-lo79. Entretanto, a revolução neoliberal seguiu o seu curso e determinou as condições das próximas tentativas de reparação da fórmula da paz capitalista. (…)

Se nos lembrarmos da evolução do capitalismo do pós-guerra desde o fim dos trente glorieuses, poderemos ter uma ideia aproximada da próxima etapa. Cada uma das três transições para um novo modo de criação de legitimidade foi acompanhada por derrotas da população dependente dos salários que permitiram levar por diante o processo de liberalização: o fim da inflação foi acompanhado por um enfraquecimento secular dos sindicatos, com o fim da sua capacidade de greve e o início de um desemprego estrutural de longa duração que persiste até hoje; a consolidação das finanças públicas nos anos 1990 foi acompanhada por cortes profundos em direitos sociais, com a privatização dos serviços públicos e por diversas formas de comercialização dos serviços de interesse geral, tendo sido os partidos políticos e os governos, enquanto garantidores da seguridade social, substituídos pelas companhias de seguros privadas; e o fim do “capitalismo a crédito”80 foi acompanhado por uma perda de poupanças e de rendimentos de capital planejados cuja extensão não se consegue prever, nem sequer aproximadamente, assim como pelo desemprego, o subemprego e outros cortes nas prestações estatais, na sequência de uma nova vaga de consolidação dos orçamentos públicos. Além disso, a arena do conflito de distribuição político-econômico foi sendo transferida para cada vez mais longe do mundo das experiências e das possibilidades de intervenção política das mulheres e dos homens “da rua”: essa arena passou do conflito salarial anual na empresa para eleições periódicas de parlamentos e governos; depois, para mercados privados de créditos e de seguros; e, por fim, para uma diplomacia financeira internacional, totalmente afastada da vida quotidiana, cujos objetos e estratégias constituem um livro fechado a sete chaves para todos, à exceção dos diretamente envolvidos – ou, talvez, até mesmo para eles.

Seguir o caminho dos últimos cerca de quarenta anos levará a uma tentativa de libertação definitiva da economia capitalista e dos seus mercados, não dos Estados – uma vez que os primeiros continuarão a ser dependentes da proteção dos últimos em muitos aspetos –, mas da democracia, enquanto democracia de massas, de acordo com a forma que esta assumia no regime do capitalismo democrático. Hoje, os meios para dominar as crises de legitimação através da criação de ilusões de crescimento parecem esgotados. Em especial, a magia do dinheiro produzida nas últimas décadas com a ajuda de uma indústria financeira desenfreada tornou-se, ao que parece, definitivamente muito perigosa para que se possa voltar a tentar comprar tempo recorrendo a ela. Se não surgir outro milagre de crescimento, o capitalismo do futuro se verá obrigado a viver sem a fórmula de paz de um consumismo financiado a crédito. A utopia da gestão atual da crise também consiste na conclusão –por meios políticos – da já muito avançada despolitização da economia política, cimentada em Estados nacionais reorganizados sob o controlo de uma diplomacia governamental e financeira internacional isolada da participação democrática, com uma população que, nos longos anos de uma reeducação hegemônica, teve de aprender a considerar justos ou sem alternativa os resultados de distribuição dos mercados entregues a si mesmos.”

79: A inflação, assim como o endividamento público e privado, não têm necessariamente de levar a crises. O aumento nominal de salários em antecipação a futuros aumentos de produtividade pode acelerar a mesma; a dívida pública pode financiar investimentos no crescimento, o que permite, simultaneamente, o pagamento e desvalorização da mesma; e o crédito pode antecipar a prosperidade gerada em seguida. Em todos estes três casos, o resultado depende da reação dos detentores do capital de investimento: a inflação pode começar a acelerar e, depois, provocar medo de perdas patrimoniais e, por conseguinte, fuga de capitais; o endividamento público pode atingir um ponto em que o serviço da dívida se torna duvidoso; e o mesmo se diga do endividamento privado. De qualquer modo, o que é decisivo é a “confiança” dos investidores na “racionalidade” dos agentes – portanto, na capacidade destes últimos para compreenderem a “psicologia” dos primeiros e as suas expectativas de lucro.

80: Ralf Dahrendorf, “Vom Sparkapitalismus zum Pumpkapitalismus”, Cicero Online. 23 jul. 2009

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“A análise retrospectiva da evolução da crise fiscal nos permite verificar que o salto mais dramático no endividamento, registrado após a Segunda Guerra Mundial – portanto, o de 2008 e dos anos seguintes – não tem manifestamente qualquer relação com uma inflação de reivindicações legitimadas democraticamente pelos cidadãos eleitores. Se houve reivindicações acrescidas, elas partiram dos grandes bancos em situação difícil. Esses conseguiram apresentar-se como “too big to fail” – como “relevantes para o sistema” – e, por isso, dignos de resgate, sobretudo também com a ajuda de muitos e influentes agentes seus nos aparelhos dos Estados.”

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“Thomas Kochan, um dos principais investigadores do mercado de trabalho dos Estados Unidos, considera que a evolução dos salários no país desde o fim dos anos 1970 revela a existência de uma ruptura do contrato social estadunidense e chama a atenção para o fato de, até aquela época, a produtividade, os rendimentos dos agregados familiares e os salários por hora terem aumentado ao mesmo ritmo (1945 = 100, 1975 = 200). Contudo, depois, a produtividade continuou a aumentar em linha reta, situando-se em 400, em 2010, enquanto os salários médios por hora se mantiveram ao nível de cerca de 200, portanto, ao nível dos anos de 1975 a 1980. De fato, os rendimentos dos agregados familiares subiram para cerca de 250, mas só porque os agregados familiares trabalharam mais horas, devido ao aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho e ao prolongamento dos expedientes13. Os números mostram que, considerando o aumento da produtividade, os agregados familiares dos trabalhadores nos Estados Unidos não ganharam praticamente nada desde os anos 80, apesar do aumento do volume e da intensidade de trabalho, das maiores exigências de flexibilidade e de um agravamento constante das condições de emprego.

A situação é completamente diferente no que diz respeito aos rendimentos residuais dos detentores e gestores do grande capital. No dia 26 de março de 2012, Steven Rattner escreveu no The New York Times que, no mínimo, 93% do crescimento do produto nacional gerado no ano de 2010 – 288 bilhões de dólares – haviam sido distribuídos por 1% dos contribuintes mais ricos, sendo que 37% do crescimento beneficiou 0,1% dos mais ricos, cujo rendimento aumentou, com isso, 22%. A situação do 1% dos mais ricos também foi sempre “melhorando, em todas as fases do crescimento econômico das últimas duas décadas”, devido às muitas reduções de impostos: “Na fase de crescimento com o governo de Clinton, 45% do crescimento global dos rendimentos beneficiaram 1% dos mais riscos; na era Bush, essa porcentagem aumentou para 65%; atualmente, situa-se em 93%”14. Segundo o mesmo jornal, em texto de 12 de junho, em 2010, o patrimônio líquido de uma família americana média, depois de deduzida a inflação, após o colapso do mercado imobiliário, caiu para o nível de 1990.

Sejam quais forem os dados utilizados para descrever a redistribuição da base para o topo, ocorrida nos Estados Unidos na sequência da revolução neoliberal, e sem precedentes na história, os resultados são sempre os mesmos.”

13: Thomas A. Kochan, “A Jobs Compact for America’s Future”, Harvard Business Review„ mar. 2012, p. 64-73, e Resolving Human Capital Paradox. A Proposal for a Jobs Compact. Policy Paper (Kalamazoo, 2012).

14: Hacker e Pierson apresentam dados um pouco mais antigos, mas igualmente espantosos. Jacob Hacker e Paul Pierson, “Winner-Take-All Politics. Public Policy, Political Organization, and the Precipitous Rise of Top Incomes in the United States”, Politics and Society, n. 38, 2010. p. 152-204, e Winner-Take-All Politics. How Washington Made the Rich Richer — and Turned Its Back on The Middle Class (Nova York, Simon & Schuster, 2011).

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“Ao contrário daquilo que se continua a afirmar, invocando a teoria revisionista da democracia dos anos 196017, a diminuição da participação nas eleições não significa que os cidadãos estejam satisfeitos com a situação e, por isso, desistam de nela intervir. Tal como mostrou Armin Schäfer18, os eleitores que participam menos nas eleições são aqueles que possuem rendimentos baixos e que pertencem às camadas sociais mais baixas. A diminuição da participação deles é a mais acentuada. Por conseguinte, registra-se em todas as regiões uma forte correlação negativa entre a participação nas eleições e a taxa regional de desemprego e de beneficiários da assistência social. A dispersão da participação nas eleições entre bairros das grandes cidades alemãs tem aumentado continuamente em todas as eleições desde os anos 1970, sendo, entretanto, tão baixa em bairros desfavorecidos do ponto de vista socioeconômico (com uma elevada porcentagem de imigrantes e de desempregados, rendimentos baixos, etc.) que os partidos já desistiram praticamente de fazer campanha eleitoral nesses locais19 – o que diminui ainda mais a participação da margem inferior da sociedade nas eleições e desloca as plataformas eleitorais dos partidos ainda mais “para o centro”.

Tudo indica que a diminuição da participação eleitoral nas democracias capitalistas não se explica com a satisfação, mas sim com a resignação: os perdedores da transição neoliberal já não veem o que esperar de uma mudança de partido no governo. A política da falta de alternativa – conhecida como TINA (There Is No Alternative) na “globalização” há muito bateu no fundo da sociedade: as eleições deixaram de fazer diferença, sobretudo aos olhos daqueles que necessitariam de diferenças políticas. Quanto menos esperança eles depositam em eleições, tanto menos perturbações resultantes de intervenção política têm de recear aqueles que se podem dar ao luxo de depositar sua esperança nos mercados. A resignação política das camadas desfavorecidas protege o capitalismo contra a democracia e estabiliza a transição neoliberal que lhe dá origem.”

17: Seyrnour Martin Lipset, Political Man. The Social Bases of Politics (Garden City, The Johns Hopkins University Press, 1963 [1960]).

18: Armin Schäfer, “Die Folgen sozialer Ungleichheit für die Demokratie in Westeuropa”, cit., e Republican Liberty and Compulsory Voting, MPIfG Discussion Paper 11/17 (Colônia, 2011).

19: Para uma apresentação jornalística desse contexto, ver Michael Schlieben, “Die wählen sowieso nicht”, Zeit On-line, 13 maio 2012.

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“Já ficou várias vezes demonstrado que o neoliberalismo necessita de um Estado forte que trave as exigências sociais e, em especial, sindicais de interferência no jogo livre das forças de mercado. Andrew Gamble mostrou isso de forma convincente no livro The Free Economy and the Strong State20, no qual ele dá o exemplo do governo de Thatcher. Pelo contrário, o neoliberalismo não é compatível com um Estado democrático, se entendermos por democracia um regime que intervém, em nome dos seus cidadãos e através do poder público, na distribuição dos bens econômicos resultante do funcionamento do mercado.”

20: Basingstoke. Duke University Press, 1988.

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“O capital sempre teve possibilidade de reagir com crises às interferências sociais no mercado que lhes pareceram excessivas. As crises surgem quando aqueles que controlam os meios de produção imprescindíveis acreditam que existe perigo de acabarem por não ser remunerados de acordo com as suas concepções de justiça de mercado. Nesses momentos, a sua “confiança” desce abaixo do nível mínimo necessário para os investimentos. Os detentores de capital podem deslocar seu capital para o estrangeiro ou depositá-lo algures na economia monetária, retirando-o para sempre ou temporariamente do circuito econômico de uma jurisdição política que deixou de ser digna de confiança – causando desemprego e baixo crescimento. Hoje, nas condições dos mercados capitais liberalizados, isto aplica-se mais do que nunca.”

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“O caso estadunidense constitui uma prova impressionante de que as causas da crise financeira dos Estados devem ser procuradas pelo menos tanto do lado das receitas como do lado da despesa pública. A exigência popular de redução dos impostos serviu aos estrategistas da resistência organizada aos impostos para atingir o objetivo mais abrangente, isto é, impedir o Estado de prosseguir com programas sociais igualmente populares. Essa estratégia remonta a finais dos anos 1970 e registou os seus primeiros êxitos – que perduram, aliás, até hoje – na Califórnia. O lema deste movimento extremamente bem sucedido, promovido por uma das figuras mais influentes até hoje da política americana, o ativista anti-impostos Grover Norquist37, era e é “starving the beast”: matar o monstro de fome! O fato de o porta-estandarte político deste movimento na primeira década do novo século, George W. Bush, que herdou do seu antecessor no cargo um excedente orçamental, não ter tido nada mais importante para fazer do que transformar novamente este excedente num déficit (recorde) através de uma redução drástica dos impostos para super-ricos – iniciando, simultaneamente, duas guerras, que aumentaram ainda mais os buracos orçamentais do lado da despesa –, mostra que o objetivo primário do movimento não consistia num orçamento do Estado equilibrado, mas sobretudo num recuo do Estado de acordo com a doutrina neoliberal.”

37: Robert Kuttner, Revolt of the Haves. Tax Rebellions and Hard Times (Nova York, Simon & Schuster, 1980); Isaac William Martin, The Permanent Tax Revolt. How the Property Tax Transformed American Politics (Stanford, Stanford University Press, 2008); Daniel Tarschys, “The Scissors Crisis in Public Finance”, Policy Sciences, n. 15, 1983, p. 205-24.

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“A crise financeira do Estado não se deve ao fato de a massa da população, induzida por um excesso de democracia, ter retirado demasiado para si dos cofres públicos; pelo contrário, os maiores beneficiários da economia capitalista pagaram bem pouco – aliás, cada vez menos – aos cofres públicos. Se houve uma “inflação de reivindicações” que levou a um déficit estrutural das finanças públicas, ela se registrou nas classes altas, cujos rendimentos e patrimônio aumentaram rapidamente nos últimos vinte anos, sobretudo também devido às reduções de impostos a seu favor, enquanto os salários e as prestações sociais nos estratos mais baixos da sociedade estagnavam ou até diminuíam – uma evolução que, tal como dito, foi dissimulada, ou, pelo menos, legitimada temporariamente, através da inflação, do endividamento do Estado e do “capitalismo a crédito”.”