
por Maíra Vasconcelos
Talvez, escrever seja como estudar a própria morte. Habitando cada segundo de tanta vida, tanta vida. E de novo escrever, mais uma vez escrever. E de novo esses cansaços que tocam a pele. E meu corpo aqui sendo uma coisa entre as coisas. Considerados os absurdos da autogestão de uma vida, uma vida tão expoente e bem cuidada. Uma vida ao sol ao amarelo. Lambendo-me como a um felino, quieta e à espreita. Limpando a pele, todos os dias. E, ainda assim, prevejo não ter alcançado um lugar um não-lugar a ser descrito nesta narrativa inconclusa. Qual narrativa, precisamente? Dou passos, apenas. E menor dimensão que esta não há: um-passo-atrás-do-outro. Qual a medida dos passos de toda uma vida?
E meu corpo aqui sendo uma coisa entre as coisas. Um corpo que escreve como se fosse brotar. Mas quão inútil pode ser cada palavra? Alguém me escuta? Mas ainda menos inútil por deter tantas flores, menos inútil pelo poder de mentir, mentir sobre uma vida, uma vida inteirinha e mentirosa. Dotada de fantasias a serem entregues ao mundo, a esse mundinho pouco reflexivo. Sim. Escrevendo para se ter uma vida, um fruto um fruto. Alguma vida que se faz ao passo adiante, sempre adiante. Uma vida pela criação dessa mulher-animal exposta ao amarelo. Todos os dias.
Talvez, escrever seja como estudar a própria morte. Mas como pode ser tudo tão vivamente! Exclamação. Um pouco calada, um pouco falante, essa alternância constante que dita um ritmo, talvez. A harmonia da palavra. E tudo isso depende de quem? O silêncio também acontece na fala, eu sei. Como falar e fazer silêncio ao mesmo tempo. Talvez, como acontece agora quando escrevo, quando mais uma vez escrevo essa história errante. Tão quieta e mansa nesta cadeira. Quando ao menos uma voz em mim se calou. Depois, escrevo essa voz que se parece, mas não é exatamente a minha. Assim, também uma vida silenciosa. Depois, escrevo essa voz e assim também uma vida reprodutiva e gestante. Sim. Quão abundantemente hei de gestar, cada palavra, em cada palavra, como se apenas um corpo pudesse tanto.
Uma vida trepidada por tantas falas. Há tantas vidas pedindo saída quando se exalta o interior, quiçá. Falar, calar, falar, calar, calar, falar, depois. Amanhã. Sem poder deixar de falar nunca mais, nunca mais deixar de falar, e ainda o frequente silêncio da palavra. Se cada palavra encontra-se cheia de tantas dualidades. E por isso aquele bom assombro. Aquele susto que me desperta. Todos os dias.
Quando ao procurar por essa história também escute o ruído dos meus passos, um-passo-atrás-do-outro. Pisando e recolhendo flores, tantas flores. Assim, lembro-me da minha fatia sólida, a flexível solidez que devo reunir para garantir essa história. Em cada passo, ao buscar cada palavra. Uma história que mais uma vez continua pelo seu frequente recomeço. Mais uma vez, fazendo-se neste jornal, a cada dia. Pisando e recolhendo flores, tantas flores.

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