O impacto do “Partido da Lava Jato” na eleição de Bolsonaro é exposto em livro

As investigações, cujas conclusões embasaram as acusações do então juiz Sergio Moro e que culminaram na controversa prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, alavancaram um forte sentimento anti-política e o anti-petismo

Da Editora Record

Se a disputa presidencial de 2018, que resultou na eleição de Jair Bolsonaro, tivesse sido o roteiro de um thriller político muitos espectadores poderiam questionar a verossimilhança do filme. Difícil acreditar que a sucessão de fatos pudesse ser real, diante da prisão do favorito em todas as pesquisas de intenção e do atentado ao segundo colocado. As circunstâncias excepcionais, no entanto, não foram as principais determinantes na vitória do candidato do PSL.

É o que defendem o economista Maurício Moura e o cientista político Juliano Corbellini, autores de A eleição disruptiva – Por que Bolsonaro venceu (Editora Record). A curva ascendente de Bolsonaro já podia ser percebida muito antes da facada em Juiz de Fora. Em suas análises, Maurício Moura e Juliano Corbellini, especialistas em psicologia política e marketing eleitoral, respectivamente, sustentam a tese com base em dados estatísticos da IDEIA Big Data, startup que apresentou os prognósticos que mais se aproximaram do resultado final.

 

O aspecto estrutural identificado pelos autores Maurício Moura e Juliano Corbellini em A eleição disruptiva: Por que Bolsonaro venceu, muito antes de iniciada a corrida eleitoral, é justamente o que a dupla de analistas convencionou chamar de Partido da Lava-Jato. As investigações empreendidas pela força tarefa da operação, cujas conclusões embasaram as acusações do então juiz federal Sergio Moro e que culminaram na controversa prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, alavancaram um forte sentimento anti-política e o anti-petismo.

O cenário de terra arrasada da política tradicional trouxe uma mudança de paradigma no processo eleitoral brasileiro, com a substituição da tradicional polarização entre PT e PSDB, que marcava as eleições presidenciais desde 1994, por dois novos pólos dinâmicos que mediram forças no pleito de 2018: o lulismo e o “partido da Lava Jato”.

Quem mais se beneficiou deste cenário, foi sem dúvida Jair Messias Bolsonaro. Seu discurso politicamente incorreto e intolerante era tudo o que a massa de indignados queria ouvir, e as redes sociais o veículo perfeito para sua disseminação, num movimento que Moura e Corbellini classificaram como a memeficação da política.

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A curva ascendente do candidato do PSL em pesquisas de intenção de voto espontânea, apontam os autores, já era nítida e consistente desde meados de 2017. Bolsonaro soube como nenhum outro candidato surfar a tsunami gerada pela Lava Jato, que resultou no esvaziamento do centro político, fenômeno semelhante ao que havia sido apontado Wanderley Guilherme dos Santos como um dos fatores para o Golpe de 1964.

“No caso de 2018, esse enfraquecimento se deve basicamente a fatores exógenos ao sistema político e de representação, que o golpearam “de fora para dentro”: as ações da Lava Jato e a sua espetacularização na mídia em geral. Em 2018 também se observou uma ruptura, não de caráter institucional como em 1964, mas uma ruptura radical com o padrão de competição eleitoral vigente desde a década de 1990, e com os atores em função dos quais se organizava”, ponderam os autores no capítulo ‘A eleição dos indignados’, no qual ainda diferenciam o fenômeno do lulismo e do petismo e apontam o efeito bumerangue da derrubada de Dilma Rousseff para o PSDB.

Com base no monitoramento em tempo real das redes, aliado a outras metodologias da IDEIA Big Data, Moura e Corbellini minimizam o papel de episódios que o censo comum pode identificar como determinantes na ascensão de Bolsonaro ao poder, como a facada em Juiz de Fora. Em contraposição ao lulismo, emerge, então o bolsonarismo, que conseguiu angariar parte dos órfãos de Lula.

Esta conclusão foi possível graças ao trabalho de um grupo liderado por dois antropólogos que acompanharam 2,5 mil eleitores que declaravam voto no ex-presidente da República. Toda semana o grupo era incentivado a gravar vídeos sobre a eleição, como pensavam e suas motivações. “Indentificamos que Bolsonaro ganhava 1/3 dos eleitores do Lula, o que corroborava os dados das outras fontes e dava uma leitura muito privilegiada”, aponta Maurício Moura, fundador e CEO da IDEIA Big Data.

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No capítulo dedicado ao papel das redes sociais, Moura e Juliano Corbellini refletem sobre o poder de mobilização orgânica do bolsonarismo, que, na última semana do primeiro turno, chegou a impactar 40 mil grupos por dia e, possivelmente, 28 milhões de indivíduos. O livro ainda analisa ainda o papel de Olavo de Carvalho, das fake news e da facada como evento propagador do mundo digital. Em pouco mais de duas horas desde a agressão, o nome de Jair Bolsonaro recebeu mais de 380 mil menções na web, considerado um evento inédito no mundo digital.

Muito mais que um retrato fiel da situação do Brasil atual, o livro incentiva o leitor a refletir sobre o rumo das campanhas eleitorais daqui para frente. O “modelo Bolsonaro” é uma fórmula que poderá levar outros candidatos a triunfos, como um novo paradigma? Neste ponto, Moura e Corbellini são reticentes: “Nossa resposta, com todos os riscos que implica, é não”, afirmaram os autores.

“A vitória de Bolsonaro, que carregou consigo uma enorme taxa de renovação no Congresso e a emergência de novas lideranças outsiders, explica-se pela articulação entre uma grande mudança tecnológica nas plataformas de comunicação política – isso com certeza veio para ficar e impactará cada vez mais as campanhas futuras – e uma conjuntura muito específica, que combina a indignação dos eleitores, a ascensão de um mosaico de antidiscursos de natureza conservadora, a desmoralização do sistema partidário tradicional como consequência da Operação Lava Jato e a decorrente perda, por parte da atividade política, porém, pode ser momentânea. É difícil imaginar que não reencontre um caminho.”

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Maurício Moura é economista pela USP, especialista em Psicologia Política pela Universidade de Stanford, mestre em Ciências Sociais pela Universidade de Chicago, mestre em Política pela Universidade George Washington e doutor em Economia e Política do Setor Público pela FGV-SP. Também é formado pelo OPM 52 (Owner and President Management Program) da Escola de Negócios de Harvard. Atualmente é CEO do IDEIA Big Data, presidente do Conselho do Alexandria AI e membro do Conselho da Escola de Pós-Graduação em Política da Universidade George Washington.

Juliano Corbellini é doutor em Ciência Política pela UFRGS, foi professor de Marketing Político e de Comportamento Eleitoral na ULBRA-RS e professor convidado na ESPM de Porto Alegre. É consultor de campanhas eleitorais há mais de dezoito anos, tendo sido coordenador de marketing, entre outras, das campanhas de Flávio Dino (Governo do Maranhão, 2010, 2014 e 2018); Eliziane Gama (Senadora pelo Maranhão, 2018); Jairo Jorge (Governo do Rio Grande do Sul, 2018); Daniel Coelho (Prefeitura de Recife, 2016); Edivaldo Holanda Jr. (Prefeitura de São Luís, 2012); Manuela d’Ávila (Prefeitura de Porto Alegre, 2008 e 2012); Yeda Crusius (Governo do Rio Grande do Sul, 2006) e José Fogaça (Prefeitura de Porto Alegre, 2004). Também é autor de Lições de uma campanha eleitoral: a derrota do grupo Sarney (Tomo Editorial, 2019).

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1 comentário

  1. Não li o livro, só essa resenha, espero que ela seja.fiel ao mesmo. Para mim, há dois pontos fracos da análise. O primeiro é colocar em segundo plano, mais do que a prisão de Lula, a sua retirada precoce da eleição. Para mim esse foi fator essencial para a eleição de Bolsonaro. Sem isso de nada adiantariam os outros ingredientes levantados. O outro é o desempenho de Hadad na eleição. Se o Bolsonaro representa o partido da Lava-Jato, quem representou o partido anti-Lava-Jato. Nenhum candidato representou esse papel. A Lava-Jato trouxe consequências terríveis para o Brasil, com a destruição e empresas de engenharia, da indústria do petróleo e gas, da indústria naval. Nenhum candidato foi anti-Lava-Jato. Aí ficou fácil.

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