4 de junho de 2026

O mundo do menino impossível, por Jorge de Lima

Foto Sabores Diversos

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Enviado por Felipe A. P. L. Costa

O mundo do menino impossível

Por Jorge de Lima [1]

 

Fim da tarde, boquinha da noite

com as primeiras estrelas

e os derradeiros sinos.

 

Entre as estrelas e lá detrás da igreja

surge a lua cheia

para chorar com os poetas.

 

E vão dormir as duas coisas novas desse mundo:

                                    o sol e os meninos.

 

Mas ainda vela

o menino impossível

                        aí do lado

enquanto todas as crianças mansas

                                   dormem

                        acalentadas

            por Mãe-negra Noite.

O menino impossível

            que destruiu

os brinquedos perfeitos

            que os vovós lhe deram:

            o urso de Nürnberg,

o velho barbado jagoeslavo,

            as poupées de Paris aux

                        cheveux crêpes,

            o carrinho português

feito de folha-de-flandres,

a caixa de música checoeslovaca,

o polichinelo italiano

                        made in England,

o trem de ferro de U. S. A.

            e o macaco brasileiro

                                   de Buenos Aires

            moviendo la cola y la cabeza.

 

            O menino impossível

            que destruiu até

            os soldados de chumbo de Moscou

e furou os olhos de um Papai Noel,

            brinca com sabugos de milho,

                        caixas vazias,

                        tacos de pau,

            pedrinhas brancas do rio…

 

            “Faz de conta que os sabugos

                        são bois…”

            “Faz de conta…”

            “Faz de conta…”

                        E os sabugos de milho

            mugem como bois de verdade…

 

            e os tacos que deveriam ser

            soldadinhos de chumbo são

            cangaceiros de chapéus de couro…

 

            E as pedrinhas balem!

            Coitadinhas das ovelhas mansas

                        longe das mães

            presas nos currais de papelão!

 

É boquinha da noite

no mundo que o menino impossível

povoou sozinho!

 

                        A mamãe cochila.

                        O papai cabeceia.

                        O relógio badala.

 

            E vem descendo

                        uma noite encantada

                        da lâmpada que expira

                                   lentamente

                        na parede da sala…

 

                        O menino pousa a testa

                        e sonha dentro da noite quieta

                                   da lâmpada apagada

                        com o mundo maravilhoso

                        que ele tirou do nada…

 

            Chô! Chô! Pavão!

            Sai de cima do telhado

            Deixa o menino dormir

            Seu soninho sossegado!

*

Nota

[1] Jorge [Mateus] de Lima (1893-1953). Poema publicado em livro em 1927. Extraído do blogue Poesia contra a guerra.

*

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  1. Cleanto Beltrão de Farias

    11 de julho de 2018 2:28 am

    Jorge de Lima

    LINDO!!!

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