4 de junho de 2026

Tecendo a manhã, por João Cabral de Melo Neto

Foto Bordados Matizes Dumont

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Enviado por Felipe A. P. L. Costa

Tecendo a manhã

Por João Cabral de Melo Neto [1]

 

1.

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito de um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

 

2.

E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos,

se entretendendo para todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão.

*

Nota

[1] João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Poema publicado em livro em 1966. Extraído do blogue Poesia contra a guerra.

*

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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